Críticas

Scanners – Sua Mente pode Destruir (1981)

O que torna Scanners um grande filme é a complexidade dos personagens: nenhum deles é totalmente bom ou ruim!

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Scanners - Sua Mente Pode Destruir
Original:Scanners
Ano:1981•País:Canadá
Direção:David Cronenberg
Roteiro:David Cronenberg
Produção:Claude Héroux
Elenco:Jennifer O'Neill, Stephen Lack, Patrick McGoohan, Lawrence Dane, Michael Ironside, Robert A. Silverman, Larry Perkins, Mavor Moore, Adam Ludwig

“O senhor é um Scanner, mas não se dá conta. E esta é a fonte de toda sua agonia. Mas vou lhe mostrar agora que pode ser a fonte de um grande poder”. (Dr. Paul Ruth para Cameron Vale)

David Cronenberg é gênio e ponto. São poucos os diretores que criam histórias que de tão bizarras se tornam atraentes e ainda conseguem dirigir filmes com a maestria e personalidade que lhe competem. Cronenberg fez e faz; cada filme seu é único e não deixam muito espaço para continuações (embora produtores inescrupulosos sempre pensem o contrário).

Mas deixando a rasgação de seda de lado, Scanners foi à obra que elevou o status de Cronenberg a diretor cult (é bem melhor do que ficar conhecido como ‘Rei do horror venéreo‘ como foi nesta época) abrindo o campo para a notoriedade e o estrelato com suas futuras obras: Videodrome, A Hora da Zona Morta e A Mosca, todos clássicos no gênero.

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Com inspiração literária do autor William S. Burrough no livro “Naked Lunch” (que teria sua ‘adaptação‘ retratada no filme de mesmo nome e lançado no Brasil como Mistérios e Paixões do próprio Cronenberg), onde um capítulo fala sobre os “Senders“, que se trata uma organização hostil de telepatas conspirando para a dominação mundial.

O filme Scanners começa com Cameron Vale (Stephen Lack, que também participou de Gêmeos, Mórbida Semelhança, também de Cronenberg), um Scanner obviamente, entrando vestido como um mendigo em um shopping e fila um cigarro e umas batatas do pessoal na praça de alimentação. Quando duas mulheres criticam sua aparência, Cameron tem um surto e faz com que a mulher passe mal e tenha convulsões. Ele passa a ser perseguido por dois homens que disparam um dardo tranquilizante em sua mão, capturando-o.

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Cameron acorda preso a uma cama e somos introduzidos ao Dr. Paul Ruth (Patrick McGoohan, do seriado clássico O Prisioneiro), um psico-farmacêutico que esclarece a Cameron o que ele é, enquanto várias pessoas entram. O pensamento destas pessoas aumenta as vozes na cabeça de Cameron como uma antena receptora, fazendo-o passar mal. É quando o Dr. Ruth aplica uma injeção de Ephemerol aliviando a dor de Cameron.

Enquanto isso no prédio da ConSec vai acontecer em frente das mais variadas autoridades uma demonstração de que os scanners existem. Um scanner (Louis del Grande, que é a cara do Sr. Barriga do Chaves) chama um voluntário para a demonstração. Um homem com uma cicatriz no meio da testa se apresenta e a demonstração começa. O que acontece é que o voluntário também é um scanner, chamado Darryl Revok (Michael Ironside, que fez uma ponta no filme (sic.) Children of the Corn: Revelation) e com seu poder faz a cabeça do interlocutor explodir, na cena que é a marca registrada do filme. A cena da explosão é forte e gráfica, mas já é datada e, com o recurso do DVD e exibida lentamente, chega a ser tosca e artificial, o que mesmo assim não desmerece o trabalho do diretor e o clima criado.

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Com explosão Darryl tenta fugir, mas é “capturado” – digo isso porque, como você pode adivinhar, Darryl usará seus poderes de scanner para fugir, não sem antes matar mais alguns manés.

No dia seguinte, numa reunião da alta cúpula da ConSec, o novo diretor de segurança interna, Braedon Keller (Lawrence Dane, A Noiva de Chucky), sugere o fim do programa Scanner, porém Dr. Paul Ruth argumenta que Darryl Revok estaria organizando um movimento conspirador com os 236 scanners conhecidos e listados pelo programa. A solução sugerida é a de contatar um scanner fora da lista e infiltrá-lo na organização…ganha um doce quem adivinhar quem é o escolhido…

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A ideia é acatada pelo presidente, e o Dr. Ruth mostra a Cameron quem é Darryl Revok, um scanner maluco que fez um buraco no meio da testa e agora tem planos de unir os scanners para dominar o mundo.

Claro que não será fácil e, após um treinamento, para que Cameron desenvolva e controle seus poderes ele vai ao encontro do único scanner conhecido que pode não estar no grupo de Darryl, Benjamin Pierce (Robert A. Silverman, figurinha comum nos filmes de Cronenberg, com aparições em Rabid, Mistérios e Paixões, Filhos do Medo e EXistenZ). O cara é um artista plástico malucão que tentou matar sua família aos 10 anos de idade e foi preso em um sanatório. Considerado reabilitado pela arte, foi liberado. As esculturas de Benjamin são bizarras e retratam aberrações de sua cabeça. Cameron consegue falar com o scanner, mas uma tocaia (de péssimos atiradores por sinal) termina na morte de Benjamin que ainda tem tempo de mandar Cameron procurar a Dra. Kim Orbist (Jennifer O’Neill, também protagonista do filme Sette note in nero, de Lucio Fulci), seu futuro interesse romântico e líder de um grupo de resistência contra Darryl, mas ele sabe disso e desmantela o grupo, sobrando apenas Kim e Cameron.

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A partir daí a história prossegue com a busca de Darryl Havok e reviravoltas com esclarecimentos sobre o envolvimento do ConSec no projeto Scanner e sobre a droga Ephemerol, culminando com o previsível, esperado e memorável confronto de Cameron e Darryl.

O que torna Scanners um grande filme é a complexidade dos personagens: nenhum deles é totalmente bom ou ruim, eles apenas têm motivações diferentes para seus atos, bem próximo da realidade. As interpretações são convincentes, com destaque para Michael Ironside, perfeito para o papel de Darryl Ravok, ficando difícil imaginar como seria outro em seu lugar. E a atmosfera de tensão criada por Cronenberg causada pela ameaça iminente de uma conspiração é outro grande feito do filme.

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Fãs do gore também tem motivos para comemorar: o filme é bem violento, tendo cabeças explodindo, feridas pustulentas saltando, corpos em combustão e muitos tiros. Quase tudo on-screen, mas, como eu disse, hoje esses efeitos estão datados e podem não impressionar tanto.

Resumindo, este filme é recomendado para três tipos de pessoas: aqueles que gostam de bons filmes de terror, aqueles que gostam de bons filmes de ficção científica e aqueles que gostam dos dois. Se você esteve em Marte nos últimos anos e ainda não assistiu, não perca tempo. O filme é relativamente fácil de encontrar, já que saiu em DVD nas bancas de jornal pelas editoras ‘Van Blad‘ e ‘NBO‘ a preço popular.

Poderes

Quando você é um scanner, você não apenas explode cabeças, mas também pode fazer outros truques. Veja alguns exemplos:

Incinerador: Durante o ataque ao grupo de resistência, Kim ataca os assassinos jogando-os contra a parede. Eles caem no chão pegando fogo.

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Mudança de Feição: Enquanto são encurralados na fuga da ConSec, Kim faz um dos guardas pensar que vai atirar em sua mãe mudando sua face para iludir o guarda. Eu achei genial…
Hackerismo: Para mim esse é o melhor. Quem pensa que é preciso acessar a internet para invadir um computador está enganado! Cameron faz isso de um telefone publico, sem discar nenhum provedor e só com o seu poder de scanner, tornando-se um modem ambulante. Isso muito antes da internet e dos hackers ficarem em evidência..

Um bom momento: O encontro final entre Cameron e Darryl, carregado de tensão, com os melhores diálogos do filme e muita violência, é claro.

Mas sua cabeça pode explodir quando: Para os espectadores mais exigentes (ou mais mal humorados), existem erros de continuidade, principalmente na sequência de destruição dos computadores, que demonstram um pouco da falta de recursos (e da inexperiência) de Cronenberg. Felizmente, nada que comprometa o resultado final.

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Curiosidades:

– Em um primeiro tratamento de roteiro de 1974, chamado ‘Telepathy 2000‘ (como o filme também ficou conhecido) era situado no futuro e começaria com o protagonista estuprando telepaticamente uma mulher no metrô (!?!?!) e seria um filme de espionagem. Nesta versão uma companhia chamada Cytodyne Amalgamate alimentaria scanners do mal para dominar o mundo enquanto o governo estadunidense recrutaria scanners bons para impedi-los. (Cronenberg deveria estar chapado quando escreveu essa coisa, sorte nossa que não foi assim…)

– A cena da cabeça explodindo foi feita com uma cabeça de látex preenchida com comida de cachorro e miúdos de coelho, e detonado com um tiro de espingarda calibre 12 (!!!) por trás.

– Existem fotos de produção de cenas supostamente cortadas por David Cronenberg na edição final referente à batalha entre Darryl e Cameron. Nelas o topo da cabeça de Cameron explode e pega fogo, mandando pedaços pelo ar.

– Também lançado no Brasil em VHS com o título Scanners – Sua Morte (!!) Pode Destruir!

– A morte do primeiro Scanner foi filmada de duas maneiras diferentes, a primeira é a versão de cinema, onde sua cabeça explode. A segunda, encontrada em algumas versões para a TV, mostra-o morrendo de um ataque cardíaco.

Jennifer O’Neill, a Kim Orbist, nasceu em 1948 no Rio de Janeiro, isso mesmo, no Brasil. Ela é filha de um europeu e sua mãe é inglesa.

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3 Comentários

  1. Muito massa. Sou fã deste filme. Vi quando era muito pequeno e junto com Akira que passava na Band são os 2 filmes que me fizeram gostar e escrever sobre poderes mentais. hehe

  2. Rafael de Azevedo Irala - Mestre do Espaço

    Muito bom texto. Só acrescentando que Scanners pode ser encontrado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, através do digistack “Clássicos Sci-Fi Vol. 2”. É o primeiro filme do disco 1. E a Versátil também lançou o digistack em blu-ray “Cronenberg Essencial”. Esses títulos de alta qualidade, quando não são exclusivos da Livraria Saraiva, são na maioria da Livraria Cultura. Fora isso, Scanners foi lançado em blu-ray nos EUA pela conceituada Criterion, e talvez tu possa encontrar este no Mercado Livre e/ou pedir para algum importador de lá te trazer, como Chrobains e Vortex. Boa sorte!

  3. Juninho

    David Cronemberg fez esse classico se tornar um cult classico e atemporal. Pertubador e surreal mas com metaforas explicitas durante todo o filme

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