Críticas

A Catedral (1988)

Um programão, repleto das melhores características do cinema italiano, mas também das piores. Entre prós e contras, é altamente recomendado!

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A Catedral
Original:The Church / La chiesa
Ano:1988•País:Itália
Direção:Michele Soavi
Roteiro:Dario Argento, Franco Ferrini, Michele Soavi
Produção:Dario Argento, Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori
Elenco:Hugh Quarshie, Tomas Arana, Feodor Chaliapin Jr., Barbara Cupisti, Antonella Vitale, Giovanni Lombardo Radice, Asia Argento, Roberto Caruso, Roberto Corbiletto, Alina De Simone

Michele Soavi foi um dos melhores e mais criativos diretores do cinema de horror italiano durante a metade dos anos 80 e início da década de 90. Protegido de Dario Argento, com quem dirigiu o curta-metragem The Valley, em 1985, e o documentário Dario Argento World of Horror, Soavi estreou na direção em 1987, com o excelente e extremamente violento Aquarius (lançado no Brasil pela extinta Hipervideo como O Pássaro Sangrento), a resposta italiana aos slasher movies americanos – e, ironicamente, superior à maioria deles. Antes disso, tinha sido diretor de segunda unidade no clássico splatter Demons, de Lamberto Bava, rodado em 1985.

Por esta curta filmografia, surpreende que A Catedral seja somente o segundo filme de Soavi, feito logo após Aquarius, em 1987. Os movimentos de câmera, o clima de suspense e horror e a segurança ao contar a história do ataque de demônios em uma antiga catedral italiana surpreende o espectador e mostra porque Michele Soavi foi um dos mais inventivos cineastas italianos da época – dá para dizer que ele é uma versão macarrônica do americano Sam Raimi (da trilogia Evil Dead) pela sua câmera amalucada, o humor negro latente e os detalhes sórdidos nas suas tramas.

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A Catedral, por sinal, lembra muito o primeiro Evil Dead de Raimi, e também Demons, do compatriota Lamberto Bava. O amigo Dario Argento ajudou a escrever o roteiro e bancou a produção do filme, mostrando confiança no talento do novato diretor.

A história (e o filme) começa em alto estilo, durante a Idade Média, mostrando a investida de cavaleiros teutônicos a um vilarejo cujos habitantes são acusados de bruxaria. A câmera frenética de Soavi mostra o ataque com uma trilha sonora excelente, filmando até mesmo por dentro dos elmos dos cavaleiros enquanto pessoas são empaladas e decepadas por espadadas. Em meio ao caos, uma cabeça cortada é pisoteada pelos cascos dos cavalos, em cortes rápidos.

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O figurino impressiona, assim como a opção por retratar a Idade Média com muita pobreza e sujeira, em um cenário semelhante ao que deve ter sido aquela época – muito diferente dos filmes americanos, que adoram retratar cavaleiros e castelos com muito glamour e pompa.

Depois do massacre, os cadáveres da população da vila são enterrados em uma vala, sob a qual, para garantir que o demônio jamais será libertado no mundo, é colocada uma enorme cruz de concreto para a construção de uma catedral.

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O filme então dá um salto no tempo e a câmera de Soavi mostra, em uma cena praticamente sem cortes, todo o interior da catedral nos dias atuais. É uma forma de apresentar rapidamente seus personagens centrais – o que não quer dizer que sejam os heróis do filme -, Evan (Tomas Arana), um bibliotecário especializado em livros raros, contratado para catalogar a gigantesca biblioteca da igreja, e Lisa (Barbara Cupisti, que trabalhou com o diretor também em Aquarius), a restauradora que trabalha nas obras de reforma da catedral.No mesmo local também vivem o reverendo, interpretado por John Morghen (Cannibal Ferox); o bispo (Feodor Chaliapin Jr., que também foi um monge em O Nome da Rosa), o padre Gus (Hugh Quarshie), Hermann, o sacristão (Roberto Corbiletto), e sua filha adolescente, Lotte (Asia Argento, filha de Dario, que hoje virou um mulherão e está gostosíssima em Triplo X). O detalhe interessante da história é mostrar, desde o começo, como Lotte é uma adolescente comum chateada com aquela vida religiosa. Como ela conhece as várias passagens secretas da catedral, usa-as para dar suas escapadas noturnas.

Logo, durante as obras de restauração, Lisa encontra os fragmentos de um pergaminho falando sobre alguma coisa enterrada sob a catedral, sem especificar exatamente o quê. Evan, que a estas alturas já está dormindo com a restauradora, fica cego pela cobiça e acredita ser um tesouro. Uma noite, vai aos subterrâneos da catedral e retira o lacre da enorme cruz colocada, centenas de anos antes, sobre a fossa onde tinham sido sepultados os adoradores do demônio. Pronto! Os demônios agora estão livres para fazer novas vítimas.

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A partir daqui, A Catedral vira um verdadeiro pesadelo filmado: pouco ou nada faz sentido, pessoas que morrem voltam à vida como demônios, outras tantas morrem sem qualquer motivo aparente – e NÃO voltam como demônios! Muita coisa acontece sem qualquer justificativa ou explicação, e o clima de terror e loucura prevalece até o final, que por sua vez também explica pouco. O estilo amalucado só pode ser uma herança dos primeiros trabalhos de Argento, como Inferno e Suspiria, onde quase nada se explicava no final.

Em determinada cena, por exemplo, Evan, já possuído pelo demônio, arranca o próprio coração enquanto fala com Lisa pelo telefone. Na cena seguinte, está normal e conversando com Lotte na biblioteca, como se nada tivesse acontecido. Depois, o sacristão, também possuído, comete suicídio com um britador (uma excelente e violenta cena), somente para aparecer, momentos depois, vivo e pronto para matar uma pobre professora que estava na catedral.

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Divertido mesmo é o paralelo criado entre A Catedral o já clássico Demons, de Bava: assim como aconteceu em Demons, em determinado momento as portas da catedral se fecham e um pequeno grupo de pessoas fica presa no local, tendo que lutar contra os ataques dos demônios.

Entre eles estão modelos que faziam um ensaio fotográfico, um casal de velhinhos e uma turma de alunos em excursão. Os personagens principais passam a se tornar vítimas e somente o padre Gus encontra forças para lutar contra as forças demoníacas e tentar desvendar o enigma da catedral. Aliás, a semelhança com Demons é tamanha que A Catedral foi lançado nos EUA com o título picareta de Demons 3!!!!!

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O final é uma loucura onde tem até uma cena de sexo entre um demônio e uma mortal – cena bizarra que só vendo para acreditar! Outra sequência fantástica, que parece ter saído de um filme de Lamberto Bava, é aquela em que um casalzinho tenta escapar da catedral sitiada por um túnel… somente para descobrir, tarde demais, que aquele é o túnel do metrô!!!!

Todas estas viagens são valorizadas pela excelente trilha sonora de Keith Emerson e Phillip Glass (que assina a trilha de outro ótimo filme de horror, O Mistério de Candyman). A música intimista cria um clima de pesadelo, ressaltando as imagens e a sangreira arquitetadas por Argento e Soavi – que faz uma participação especial, não-creditada, como um dos policiais que atendem Lisa após ela sofrer uma tentativa de assassinato em sua casa.

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Mesmo com uma filmografia pequena, Michele Soavi mostra ter um estilo só seu. Tanto no seu primeiro trabalho, Aquarius, quanto em A Catedral e nos filmes seguintes, incluindo o cult movie Pelo Amor e Pela Morte, o diretor tem uma predileção por dar destaque, no início, aos personagens que vão morrer, e não aos heróis da história. Estes, normalmente, são os personagens secundários da trama, o que deixa o espectador com a maior cara de bobo quando todos os personagens mais conhecidos começam a morrer. Isso pode ser notado em A Catedral, já que o filme começa centralizado na figura do casal de restauradores e estes acabam se tornando as primeiras vítimas dos demônios libertados. Outra forte característica do cinema soaviano são os movimento amalucados de câmera, que podem tanto se travellings alucinados como longas cenas sem cortes, onde a câmera vai passeando pelo cenário e pelos personagens.

A verdade é que, mesmo com poucos filmes, Soavi entende como ninguém da arte cinematográfica. Verdadeiro apaixonado por cinema, no início dos anos 80 ele candidatou-se a ator em diversas produções picaretas e baratíssimas, apenas para aprender como funcionavam os bastidores das filmagens. É por isso que podemos reconhecer Michele Soavi, com o descarado pseudônimo de Michael Soavi, no megatrash e hiper-cômico Os Caçadores de Atlântida, ficção científica classe Z assinada por Ruggero Deodato. Mais tarde, foi se meter com o clássico produtor/cineasta Joe D’Amato, que ensinou Soavi a técnica e o jeitinho italianos para fazer filmes com um mínimo de orçamento. D’Amato dirigiu vários filmes usando o futuro cineasta como ator – sua violenta versão de Calígula, por exemplo, onde Soavi é um traidor que tem a língua cortada. Estimulado pelos ensinamentos do mentor, o jovem Michele Soavi resolveu estrear na direção com um orçamento muito reduzido em Aquarius. Para baratear o custo, inventou um roteiro que se passava em um único lugar, um enorme teatro, onde um serial killer atacava.

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Se o mundo fosse um lugar justo, este excelente diretor italiano teria sido importado por Hollywood e hoje estaria fazendo excelentes filmes com um mega-orçamento nos Estados Unidos (quem sabe não faria O Homem-Aranha, que acabou nas mãos de Sam Raimi???).

Infelizmente, o mundo é mesmo uma merda, e depois de A Catedral Soavi só conseguiu verba para mais dois filmes: A Seita (La Setta), de 1990, nunca lançado em vídeo no Brasil, e Dellamorte Dellamore, de 1994,  lançado aqui como Pelo Amor e Pela Morte.

Depois, como aconteceu com outros cineastas italianos do mesmo período – Lamberto Bava, Ruggero Deodato, Enzo G. Castellari -, ele não conseguiu mais dinheiro para filmar e foi obrigado a refugiar-se na televisão para poder produzir. Entre 1999 e 2002, só assinou dramas, épicos e aventuras medíocres em filmes de baixo orçamento feitos diretamente para exibição na TV, anos-luz distantes da sua criatividade mostrada nas primeiras obras. Mais um triste destino para um excelente cineasta italiano.

Mas resumindo: se não é o melhor filme de Michele Soavi, A Catedral é um programão, repleto das melhores características do cinema italiano (clima pesado, super-closes, doideiras diversas e muito sangue), mas também do pior (roteiro confuso onde pouca coisa se justifica). E, com todos estes prós e contras, é altamente recomendado. O filme foi lançado em vídeo no Brasil pela Look – e em DVD pela CultClassic. Tente procurar. Vale a pena.

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2 Comentários

  1. Fabio Alex

    Nunca me esquecerei da cena da mulher se jogando pela janela de vidro ahhahahahahahahaha

  2. Nite

    Feliz aniversário, xará.
    Alguma previsão de retorno para o “Filmes para doidos”?

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