Críticas, Quadrinhos

InSano (2015)

Inspirada no teatro Kabuki e com altas doses de J-Horror, a HQ nos faz pensar sobre nossos próprios fantasmas do passado!

InSano
Original:InSano
Ano:2015•País:Brasil
Páginas:24• Autor:Fernando Barone, Samuel Sajo•Editora: Independente

Inspirada pelo teatro japonês Kabuki, InSano, acompanha uma noite na vida de Manabu Sano, desertor do exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial que se refugiou em São Paulo. Sano terá que confrontar demônios do seu passado e finalmente lidar com as consequências de sua fuga durante o ataque a Pearl Harbor: desonra, humilhação de sua família e ancestrais e o abandono de sua noiva.

O teatro Kabuki é uma forma de teatro japonês muito conhecida por sua acentuada estilização do drama, muitas vezes beirando o bizarro, e por sua maquiagem bastante característica e exagerada. O Kabuki, que muitos acreditam se originar da palavra kabuku, que pode ser traduzida como “fora do comum”, também é famoso pela interação entre os atores e a plateia e seus elaborados truques cenográficos. Caso o sangue e a morte fossem tema recorrente no teatro Kabuki, poderíamos compará-lo ao Grand Guignol francês, tornando o Kabuki uma imensa fonte de inspiração para histórias de horror.

Insano (2015) (2)É aí que entra InSano, HQ independente escrita por Fernando Barone, ex editor assistente da revista MAD, e ilustrada por Samuel Sajo, quadrinista do coletivo Escape HQ e colega de Barone dos tempos de MAD, ao transportar o clima bizarro e o drama exagerado do Kabuki para um quadrinho de horror que mistura  o melhor do clima tétrico do J-Horror com a desolação e desespero do terror psicológico.

Ao descobrir durante o seu aniversário de 92 anos que tem apenas seis meses de vida, Manabu Sano irá enfrentar de uma vez por todas os fantasmas que têm assombrado os dias de Sano desde que desertou da tropa dos tokkotai, os lendários kamikazes, durante a Segunda Guerra Mundial. Barone transforma os fantasmas de Sano em criaturas metafóricas retiradas diretamente do teatro Kabuki com suas características expressões exageradas, muito bem representadas pelo traço competente de Sajo, representando cada um dos aspectos psicológicos de Sano perante a morte eminente.

Cada um dos encontros de Sano com seus demônios é muito bem representado graficamente. Barone e Sajo os diferenciam não só visualmente como também nas situações em que aparecem saídos diretamente das lembranças de Sano, criando cenas dignas do popular cinema de horror japonês. Porém, o reduzido número de páginas da HQ não permite que o clima do J-Horror seja construído apropriadamente. A leitura é muito rápida e sobra pouco mais do que o visual para que os autores resgatem o clima do cinema de horror japonês, que se apoia muito mais na construção do clima de desolação do que no terror gráfico.

Insano (2015) (3)

Mais do que uma boa revista de horror, criada e ambientada no Brasil mesmo quando se pretende falar do universo da cultura oriental, algo que sempre prezo muito nos quadrinhos nacionais, InSano é um ótimo projeto com tom e clima perfeitos para uma HQ de terror, que merece ser expandido, para que Fernando Barone e Samuel Sajo possam dar à história a dimensão que merece. Ao final da HQ, assim como no teatro Kabuki, há a interação com a plateia, já que é impossível não se pegar pensando em quais dos nossos fantasmas irão nos assombrar em nossos últimos momentos.

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