Críticas

Hardware – O Destruidor do Futuro (1990)

O melhor filme da década de 90? Pode ser que sim…

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Hardware - O Destruidor do Futuro
Original:Hardware
Ano:1990•País:EUA, UK
Direção:Richard Stanley
Roteiro:Steve MacManus, Kevin O'Neill, Richard Stanley, Michael Fallon
Produção:JoAnne Sellar, Paul Trijbits
Elenco:Dylan McDermott, Stacey Travis, John Lynch, Carl McCoy, Iggy Pop, Mark Northover, Paul McKenzie, Lemmy, William Hootkins, Mac McDonald, Chris McHallem, Barbara Yu Ling, Oscar James, Arnold Lee, Susie Savage, Sebastian Chee

Assim como o brasileiro José Mojica Marins teve pesadelos com seu personagem Zé do Caixão antes de dirigir À Meia-Noite Levarei Sua Alma, o inglês nascido na África do Sul Richard Stanley também sonhou, noite após noite, com um nômade esfarrapado vagando por um deserto de céu vermelho, até chegar a uma pequena área repleta de carcaças metálicas, de onde desenterra o sinistro crânio de um robô. Como Mojica, Stanley acreditou que seu sonho era algo mais do que apenas imagens no seu subconsciente; ele resolveu transformar aquelas imagens bizarras em um filme. Sorte nossa que Richard Stanley teve tal pesadelo, pois o resultado de sua visão cinematográfica foi Hardware, um dos melhores – se não o melhor – filmes de horror da década de 90. Muito mal-lançada no mundo inteiro, esta produção cult tem em DVD na Europa (com o nome M.A.R.K.-13). No Brasil chegou a passar em alguns poucos cinemas e depois saiu em vídeo, com o dispensável subtítulo em português O Destruidor do Futuro, tentando forçar alguma relação com O Exterminador do Futuro e O Vingador do Futuro (dois sucessos de Arnold Schwarzenegger).

Vale destacar que, como acontece sempre que surge algo realmente criativo e inovador, Hardware foi comparado pelos críticos, no ano de seu lançamento (1990), com O Exterminador do Futuro e Aliens, quando não tem absolutamente nada em comum com os dois roteiros além da presença de um robô assassino. Foi com o tempo que Hardware começou a receber o devido respeito, e isso até mesmo no Brasil – lembro claramente de reportagens da Folha de São Paulo falando maravilhas sobre o filme. Ajudou o fato desta produção inglesa, feita com um orçamento de US$ 1.500.000, ter passado com louvor em vários festivais de cinema fantástico, ganhando inclusive prêmios de melhor filme e diretor no Fantasporto, de Portugal, e de melhores efeitos especiais no respeitadíssimo Fesitval de Avoriaz, na França.

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Embora Richard Stanley seja creditado como único roteirista e tenha afirmado inúmeras vezes que toda a história de Hardware veio de seus sonhos lisérgicos, uma polêmica se instaurou na época de lançamento do filme, quando os produtores foram contatados por roteiristas de uma revista em quadrinhos inglesa chamada “2000AD“, da Fleetway Comics. Steve MacManus e Kevin O’Neill argumentavam que o roteiro era uma chupação de uma história chamada “Shok!“, escrita e desenhada por eles. Após muito bla-bla-bla, MacManus e O’Neill acabaram ganhando crédito no filme como autores da história. Ironicamente, a própria Fleetway convidou Stanley, posteriormente, para dirigir uma adaptação cinematográfica do personagem dos quadrinhos Juiz Dreed, mas o diretor pulou fora – e a tal adaptação, O Juiz (com Sylvester Stallone), foi uma bomba desastrosa.

Hardware é exatamente o filme de horror que qualquer fã de horror faria se tivesse um milhão e 500 mil dólares à disposição: fotografia extraordinária, contrastando tons vermelhos e quentes com momentos da mais pura escuridão; efeitos especiais baratos, porém eficientes; um elenco desconhecido e muito esforçado; violência e sadismo a granel, embalada por uma das melhores trilhas sonoras já vistas em uma produção do gênero. Tudo bem que a entrada de um estúdio na jogada (a ainda desconhecida Miramax) obrigou Stanley a fazer várias modificações no seu roteiro, que originalmente era ainda mais “subversivo“. O americano Michael Fallon chegou a ser contratado para reescrever o roteiro original, adicionando diálogos para “suavizar” alguns detalhes da história – diálogos estes que, felizmente, acabaram ficando quase todos de fora na edição final.

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A história começa com uma citação bíblica do capítulo 13 de Marcos, livro do Novo Testamento. Este trecho da Bíblia fala sobre um futuro Apocalipse, onde Jesus conta aos seus apóstolos que “o irmão entregará o irmão à morte, e o pai o filho“. Reescrito pelo diretor/roteirista, a frase ficou assim: “Nenhuma carne será poupada“. Marcos 13 (ou M.A.R.K.-13) também é o nome do vilão do filme, um robô programado justamente para o extermínio de seres humanos – justificando, assim, o “nenhuma carne será poupada“. Após uma rápida colagem de imagens lisérgicas, Hardware já começa a hipnotizar o espectador com longos takes de um deserto fotografado num vermelho belíssimo, que passa uma imagem devastadora de calor e desolação. Aliás, vá se acostumando: durante todo o filme, o céu é vermelho. Aparentemente, uma guerra atômica num futuro não muito distante (a história se passa em ano não-identificado do século 21) reduziu o já caótico planeta Terra a um estado deplorável, onde o ar é altamente radioativo e as pessoas vivem trancadas em apartamentos repletos de fios e computadores (algo não muito distante do cínico Brazil – O Filme).

Um andarilho com a maior pinta de personagem de western-spaghetti (gênero amado pelo diretor Stanley) caminha pelo deserto com óculos de proteção e máscara de oxigênio, como no sonho que o diretor teve, até chegar ao que parece ser um velho cemitério de robôs, repleto de sucata e partes de androides que ainda se movem, cumprindo alguma antiga programação de sabe-se lá quanto tempo atrás. O nômade então se agacha bem no centro do “cemitério” e começa a cavar; da areia ele retira, lentamente, o bizarro crânio de M.A.R.K.-13, com inexpressivos olhos de câmera com infra-vermelho. O andarilho sem nome é interpretado por Carl McCoy, vocalista de uma banda chamada Fields of the Nephilim, para quem Richard Stanley havia dirigido dois videoclipes antes de aventurar-se num longa-metragem.

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É Natal na Inglaterra pós-apocalíptica e dois soldados cruzam a cidade semi-destruída e miserável, repleta de indigentes e sem-tetos rodeados por seus filhos radioativos. Um deles é Moses “Mo” Baxter (o simpático ator americano Dylan McDermott, que só não virou astro de Hollywood por extrema injustiça), um soldado durão que perdeu uma de suas mãos em combate, precisando substituí-la por uma enorme prótese biônica. Seu amigo é Shades (o inglês John Lynch), que, como o nome já diz, passa o filme inteiro, mesmo à noite, usando óculos escuros (“shades“). Ambos voltam de alguma guerra nunca identificada e parecem ter passado um bom tempo no espaço – ao menos conversam sobre como seria agradável morrer no espaço.

“Mo” não quer chegar de mãos abanando no apartamento de sua namorada, a artista plástica Jill (a gatinha Stacey Travis, que virou musa do cinema independente e pode ser vista em Venom, horror de Jim Gillespie). Em busca de um presente de Natal original, os dois soldados vão parar na loja-pulgueiro do anão Alvy (Mark Northover), um receptador/negociador de peças roubadas. No mesmo momento em que eles estão no local, surge o nômade esquisito do deserto, com um saco repleto de peças biônicas recolhidas naquele cemitério de robôs. Entre elas, o crânio de M.A.R.K.-13. Atraído pela peça, “Mo” resolve comprar todo o “lixo robótico” trazido pelo andarilho, acreditando que Jill pode fazer alguma composição interessante com elas. Algumas peças, incluindo uma enorme garra metálica, ficam com Alvy, que promete analisar para ver se têm valor.

Jill não parece muito feliz de rever o namorado. Aparentemente abandonada por ele na última missão, ela guarda rancor e nem pretende deixá-lo entrar no apartamento de segurança máxima (quase uma fortaleza, controlada por computadores). Porém, fica mais feliz ao saber que “Mo” lhe trouxe os sinistros pedaços cibernéticos como presente. Logo, somos brindados com uma bastante gráfica – embora parcialmente encoberta pela escuridão – cena de sexo entre “Mo” e Jill, ao som da clássica “The Order of Death“, do Public Image Ltd (aquela do refrão “This is what you want, this is what you get“, repetido infinitamente). Além do espectador, uma outra pessoa acompanha a transa. Trata-se de grotesco “fat bastardLincoln Wineberg Jr. – “Mas me chame de Linc“, como ele adora dizer. Lincoln (interpretado por William Hootkins, que fez pequenos papéis em Batman e Os Caçadores da Arca Perdida, e morreu em outubro/2005) é um vizinho voyeur de Jill, que há anos espiona o apartamento da artista, por quem é obcecado. Seu apartamento está coberto de fotos e “lembranças” da sua musa, como sapatos e chinelos surrupiados. Enquanto testemunha o sexo no apartamento vizinho, o gordo escroto “descasca a banana” (implicitamente, graças aos céus!!!), ao som instrumental da canção natalina “Noite Feliz“!!!

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Enquanto “Mo”, Jill e Lincoln curtem seu “ménage a trois” não-assumido, e Shades viaja doidão em seu apartamento após tomar uma dose cavalar de LSD, Alvy está em sua loja fazendo interessantes descobertas. Através de uma daquelas partes do M.A.R.K.-13 deixadas por “Mo” – no caso, a garra biônica -, o anão teve acesso a arquivos confidenciais do governo via computador, onde é revelado que M.A.R.K.-13 não é um simples robô de manutenção, como Alvy imaginava, mas sim uma “forma de vida bio-mecânica e artificialmente inteligente” programada para uma missão pouco agradável: exterminar toda e qualquer forma de vida. Ele imediatamente telefona para “Mo”, pedindo que passe em sua loja. Mas não terá tempo de esclarecer a questão, já que a garra mecânica recobra a “consciência” e mata o coitado. “Mo” encontra o cadáver de Alvy, mas por sorte ele havia registrado as informações descobertas em um arquivo de áudio, alertando o soldado do perigo desconhecido que ele levou para dentro da casa de sua namorada.

Deixada sozinha no apartamento pelo amado, Jill dedica-se a terminar sua nova escultura, usando o crânio de M.A.R.K.-13, pintado com a bandeira dos Estados Unidos (numa implacável crítica política), como toque final da peça. Mas é claro que M.A.R.K.-13 não tem nenhuma pretensão de passar a eternidade como componente de uma obra de arte moderna. Enquanto a mocinha dorme, o robô retoma suas funções básicas e automaticamente se reconstrói, utilizando peças e ferramentas do ateliê de Jill para construir um novo corpo, repleto de armas letais como serra elétrica, serra circular, uma fálica furadeira, facões enferrujados e cabos de aço usados como tentáculos. Inteiro novamente, o sinistro robô retoma sua programação de extermínio de seres humanos.

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Com “Mo” do outro lado da cidade, na loja do falecido Alvy, e o vizinho Shades completamente chapado, quem poderá salvar Jill da ameaça? Talvez os responsáveis pela segurança do edifício, o grandão Chief (Oscar James, visto recentemente na nova versão de A Fantástica Fábrica de Chocolate) ou o malandro Vernon (Paul McKenzie); mas a dupla está muito ocupada jogando xadrez para se preocupar com a segurança do prédio… Assim, a única chance de Jill é o tarado Lincoln, que vai até o apartamento da vizinha para ajudá-la e acaba se transformando na primeira vítima de M.A.R.K.-13. A morte incrivelmente violenta do voyeur – que, talvez como castigo pelo seu voyeurismo, tem os olhos perfurados pela garra biônica do robô, antes de ter todo o corpo perfurado – já dá uma ideia do que vem pela frente. Trancafiada sozinha com o robô assassino no minúsculo apartamento, já que M.A.R.K.-13 provocou um colapso nos circuitos e lacrou a porta principal, Jill precisará usar de coragem e esperteza para escapar da máquina de extermínio.

A maior parte de Hardware se desenvolve no apartamento fechado e de três peças (sala-quarto, cozinha e banheiro) de Jill, o que garante a ambientação claustrofóbica digna dos filmes de John Carpenter. Mas o diretor Stanley ainda consegue deixar o espectador desconfortável com o visual feio e poluído do apartamento, repleto de computadores e fios para todo lado (além da iluminação vermelho-escuro que deixa ver pouco ou nada). Ali dentro, com poucas alternativas para escapar, Jill usa a esperteza como arma para livrar-se dos ataques de M.A.R.K.-13. Uma das cenas, inclusive, recicla o final de Predador, quando, ao perceber que o robô tem visão que detecta as vítimas pelo calor, a mocinha se esconde dentro da geladeira, tendo até que segurar a respiração para não ser localizada através do ar quente que sai dos seus pulmões!

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O roteiro ainda fascina o espectador por criar personagens simpáticos e interessantes (se bem que Lincoln dispensa o elogio “simpático“), de maneira que nos importamos com eles, e então despachá-los sem dó nem piedade, e sempre de maneira violentíssima. A morte de um dos personagens principais é tão chocante quanto inesperada, numa reviravolta digna da coragem de Alfred Hitchcock ao matar sua mocinha Janet Leigh no clássico Psicose. Tal morte, inclusive, é uma das mais “bonitas” já mostradas pelo cinema, e certamente o ponto alto de Hardware. Inoculada com uma toxina extremamente letal que o M.A.R.K.-13 usa como arma, a vítima perde os sentidos e se entrega a um delírio lisérgico. Acontece que a tal toxina destrói as células, mas colocando a vítima em um estado alucinatório, como uma poderosa droga. Assim, o espectador se compadece ao ver, por longos seis minutos, a vítima delirando ao som da ópera “Stabat Mater“, de Gioacchino Rossini, enquanto ela tenta inutilmente cortar com uma faca o local atingido para sugar o veneno; enquanto isso, entram takes mesclando alucinação e momentos felizes da vida do futuro defunto. Uma cena belissimamente melancólica, praticamente uma obra-de-arte e cinema da melhor qualidade.

Mas também vem pauleira da grossa pela frente: o sangue flui constantemente e generosamente, embora a contagem de cadáveres seja relativamente baixa. Hardware é um filme onde o vidro machuca, e onde uma pessoa que atravessa uma vidraça acaba com profundos e ensanguentados cortes – ao contrário do que acontece na maioria das produções. Também há sangrentos balaços na cabeça, uma vítima cortada ao meio em câmera lenta (sem dispensar o jorro incessante de sangue do tórax pela metade) e uma cena nauseante onde M.A.R.K.-13diverte-se” com um cadáver, mutilando seu torso com a serra elétrica só para fazer tortura psicológica em Jill. O curioso é que os momentos de maior tensão e crueldade de Hardware não estão na morte dos personagens, mas sim no sofrimento dos que ainda vivem. Tente ficar indiferente à interpretação de Stacey Travis como a pobre Jill, lembrando os bons tempos de Marilyn Burns no Massacre da Serra Elétrica original: ela grita e esperneia o filme inteiro, visivelmente chocada e assustada. Em uma cena que alia crueldade e erotismo, o robô imobiliza Jill e tenta enfiar sua broca bem no meio das pernas da pobre garota!!!

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Outro ponto bastante revolucionário de Hardware é o fato de M.A.R.K.-13 ser, na verdade, a menor ameaça enfrentada pelos protagonistas. Caramba, eles já vivem num ambiente poluído e perigoso, onde a morte vem aos 30 anos – com sorte. Ou seja, de qualquer forma, com robô assassino ou sem, todos já estão fodidos, seja pelas garras de M.A.R.K.-13 ou pela própria “vida diária“, pela alta criminalidade, pelo nível de radiação no ar, pela poluição…

E o universo de Hardware realmente não é dos mais otimistas. O filme já começa com a narração em off de um locutor de rádio chamado “Angry Bob” (a voz é do veterano punk-rocker Iggy Pop), dizendo: “Hoje está um belo dia! A contagem de radiação está alta e o calor continuará. A temperatura atingirá 43,3ºC antes do anoitecer. E agora as boas notícias: não há NENHUMA boa notícia“. Mais adiante, o mesmo Angry Bob vem com o que parece ser uma notícia corriqueira: “O número de mortos na violação do cessar-fogo de Natal continua subindo e já chega a 578, com o contra-ataque a caminho“. Ao longo da trama, os diálogos continuam destilando veneno e pessimismo. Ainda no início, Shades tenta convencer “Mo” de que o melhor negócio para ambos é largar o exército e ir a Nova York. Acontece que a metrópole foi devastada e continua inabitada. Shades justifica: “Nova York é o lugar para ganharmos dinheiro. Toneladas de aço, de alumínio, milhares de metros de fios de cobre, eletrodomésticos, obras de arte penduradas nas galerias esperando para serem arrancadas… Roupas, perucas, próteses dentárias, Nova York tem de tudo! Não tentarão repovoar a Big Apple tão cedo, ainda mais do jeito que a radiação está“.

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Mais adiante, o mesmo Shades tenta convencer o amigo de que era melhor ambos terem morrido no espaço ao invés de voltar para a Terra devastada: “Seria melhor do que ficar aqui sentado, tossindo as tripas, esperando sua primeira célula de câncer aparecer, ou esperando seus filhos nascerem cegos e azuis porque você foi contaminado com iodo radioativo“. Aparentemente, na sociedade de Hardware, os filhos nascem deformados pelo excesso de radiação. O anão Alvy chega a brincar com “Mo”, dizendo que ele será “Narciso” (o símbolo da beleza para os gregos) perto dos filhos radioativos do soldado. Também há um excesso de crianças, e o governo decidiu combater a superpopulação criando centros de esterilização e uma misteriosa “Lei de Controle Populacional de Emergência” – que envolve o próprio M.A.R.K.-13, como descobrimos no final do filme.

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A situação do mundo em Hardware é tão desesperadora que o espectador chega a ficar contente pela maior parte do filme passar-se no apartamento de Jill, privando-nos de ver o quão decadente está aquela sociedade futura. O próprio hotel onde Jill mora é o retrato da decadência: quando Shades e “Mo” chegam ao local, se espantam com o saguão transformado em lar pelos mendigos – há até criação de animais e um açougue improvisado no local! Numa “corrida de táxi“, a dupla ainda escuta um discurso nada otimista do motorista, que é interpretado por Lemmy (do Mötorhead): “Aqui antes era um bom lugar. Você podia sair nos sábados à noite só com um soco inglês, e nada mais. Talvez com um pau ou um cano, sabe como é… Agora é preciso levar o revólver o tempo todo“. Isso não lembra a situação da segurança pública em um certo país da América do Sul? Na linha de Robocop, a TV também é usada como ferramenta crítica, inclusive com comerciais anunciando “bife de rena sem radiação“. Finalmente, o universo de Hardware é tão insensível que “Mo” é recepcionado por Jill não com um beijo, mas sim com a medição por um contador gêiser. “O nível de radiação está muito alto hoje“, justifica ela.

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Contando com um baixo orçamento para efeitos especiais, o diretor Stanley acerta ao mostrar seu M.A.R.K.-13 sempre nas sombras. O robô raramente é exibido em corpo inteiro, aparecendo apenas closes de seu “rosto” ou de suas garras metálicas e armas, em rápidos takes que fazem sentido graças à edição frenética e sofisticada de Derek Trigg. Mesmo assim, o filme consegue dar “sentimentos” à criatura biônica, que em algumas cenas parece ter personalidade própria – isso sem contar a infinidade de referências religiosas à máquina, como você pode ver no texto secundário abaixo. Na equipe que deu vida a M.A.R.K.-13, há vários nomes conhecidos: Chris Cunningham virou diretor de videoclipes da Madonna e Björk; Paul Catling, responsável pelo design da criatura, foi depois trabalhar no departamento de arte de blockbusters, como Homem-Aranha 2 e Alien Vs Predador; mas quem se deu melhor foi Stephen Norrington, que saiu de Hardware para dirigir seus próprios filmes, inclusive o sucesso Blade, com Wesley Snipes, e o blockbuster-xarope A Liga Extraordinária, com Sean Connery.

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Entre os méritos de Hardware, é impossível não destacar também a inspiradíssima trilha sonora. A música instrumental é assinada pelo mestre inglês Simon Boswell, que os fãs de filmes italianos vão reconhecer por ter trabalhado numa paulada de produções oitentistas, principalmente filmes de Lamberto Bava (Demons 2, O Terror não Tira Férias) e de Michele Soavi (A Catedral, O Pássaro Sangrento). Além da ópera de Rossini, também há rock da melhor qualidade, com composições de Mötorhead (“Ace of Spades“), Iggy Pop (“Cold Metal” e “Bad Life“) e Ministry (“Stigmata“), além de um videoclipe de hard-rock da banda GWAR sendo exibido na TV enquanto Jill esculpe suas obras.

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É válido destacar que o roteiro inicial de Stanley foi um tanto suavizado em meio às filmagens, não só pela censura rigorosa (tanto dos Estados Unidos quanto do Reino Unido, onde foi filmado), mas também por razões financeiras mesmo. Quem der uma lida na primeira versão (disponível para download na Internet) vai perceber que a visão do diretor/roteirista era bem mais violenta. A morte de Vernon, que é “pau-pimba” no filme, era originalmente mais longa e agonizante no roteiro – onde M.A.R.K.-13brincava” com o rapaz, atirando-o de uma parede a outra do apartamento ao mesmo tempo em que destruía seu corpo usando a broca. Alguns detalhes aliando sensualidade e crueldade acabaram limados ou suavizados. “Mo”, no roteiro, seria coberto de tatuagens, e Jill obcecada pela sua prótese biônica. Durante a cena de sexo do casal, a TV ao lado da cama exibiria cenas de extrema violência – inclusive pessoas empaladas e incendiadas vivas -, que deixariam os dois amantes com ainda mais tesão!!! O diretor também não pôde realizar seu sonho de contratar os atores americanos Bill Paxton (Aliens) e Jeffrey Combs (Reanimator) para interpretarem, respectivamente, “Mo” e Shades.

Fã declarado do italiano Dario Argento, Richard Stanley chegou a escrever o roteiro para uma sequência, chamada Hardware 2 – Ground Zero, e que se passaria anos adiante no futuro. Em entrevistas da época em que tentou viabilizar o projeto, o inglês dizia que o filme seria algo próximo a um “western“. Infelizmente, os direitos de Hardware acabaram divididos entre os vários produtores: Harvey e Bob Weinstein, da Miramax, têm parte dos direitos, e o restante ficou com Nik Powell, Stephen Woolley, Trix Worrell, Joanne Sellar e Paul Trijbits. Toda essa gente colocou algum dinheiro no original, e a possibilidade da turma se reunir algum dia para decidir como ficariam os direitos para a realização de uma sequência é pequena e praticamente impossível. Por isso, Hardware 2 é um daqueles sonhos que não vão sair do papel tão cedo… Pelo menos Stanley conseguiu realizar seu “horror-western” tão sonhado: chama-se Dust Devil (no Brasil, O Colecionador de Almas), foi lançado em 1992 e tem vários detalhes que remetem a Hardware, como cenas no deserto e extrema violência. Infelizmente, sofreu na mão de produtores inescrupulosos, que cortaram a versão inicial de 120 minutos para incompreensíveis 87 minutos (!!!), e até hoje não existe nenhuma “director’s cut“…

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É uma pena que um diretor visualmente criativo, que ainda tem a capacidade de escrever roteiros originais, hoje esteja desaparecido do mapa. A fama “cult” fez mal a Stanley, que em 1996 foi escalado para dirigir uma superprodução hollywoodiana, A Ilha do Dr. Moreau. No set, ele não suportou os egos inflados de Marlon Brando e, principalmente, de Val Kilmer, sendo que este último pediu sua demissão aos produtores. Stanley bailou e o veterano John Frankenheimer entrou em seu lugar, transformando o filme numa daquelas bombas de dar pena. Interessante, porém, foi a vingança de Stanley: amigo da equipe de efeitos especiais, ele se escondeu debaixo da maquiagem de uma das criaturas da “ilha” e ficou o tempo todo zanzando pelo set de filmagens, vendo o que estavam fazendo com o projeto que era dele. Na festa de confraternização da equipe, no final da produção, ele tirou a “máscara” e deixou o egocêntrico Val Kilmer de queixo caído! Não é de se mijar de rir? Desde então, Stanley virou “persona non grata” e não conseguiu dirigir nada além de documentários.

Bem, meu caro leitor, se mesmo depois desta quantidade maciça de argumentos eu ainda não consegui convencê-lo a ver Hardware, permita-me apenas dizer que a sensação de ver o filme é a mesma de uma paulada bem no meio do coco, de um soco no nariz, de um chute na boca do estômago. Sim, meus amigos, Hardware é um filme sádico, bizarro, violento, daqueles de deixar o espectador desconfortável, nauseado diante de tamanha sujeira, caos e pessimismo. É um filme feio, sujo e malvado, bem digno do cinema marginal que se fazia nos anos 70, como Quadrilha de Sádicos e O Massacre da Serra Elétrica. Quando foi a última vez que você viu algo assim?

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Também é riquíssimo, repleto de detalhes e simbolismos que podem passar desapercebidos na primeira ou segunda olhada, mas que mais cedo ou mais tarde são identificados. Revendo Hardware para escrever esta análise, por exemplo, descobri um detalhe que nunca tinha reparado: numa cena de sonho, “Mo” vê a si mesmo com as duas mãos normais, sem a prótese biônica que utiliza durante todo o filme! E ainda deve ter muito para ver, é só querer… Como eu disse, um dos melhores da década de 90 – se não o melhor -, e uma prova de que aquela década deu uma contribuição bem mais decente ao cinema de horror do que a franquia Pânico

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7 Comentários

  1. RENATO

    Comprei a edição nacional recentemente lançada .Ótima ficção cientifica.

  2. Juninho

    Além do mais, essa resenha foi resgatada
    Muito bom

  3. Juninho

    Eu sou apaixonado com esse filme. Simplesmente Maravilhoso. Todo o clima dark, pessimista, o roteiro inteligente fora dos clichês (mesmo lembrando bastante Alien O Oitavo Passageiro), a fotografia, tudo. Simplesmente Maravilhosos.
    Assisti esse filme na primeira década de 1990 e amei. Na época nem gostava tanto assim, de filme de terror mesmo tendo assistido Alien.
    Eu tinha esse filme em VHS mas infelizmente não tenho mais, porque o video cassete estragou e ninguém conserta, então…
    E a trilha sonora é perfeita
    Eu recomendo para quem gosta de filmes feito dessa maneira.

    • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

      Saiu em Blu-ray por aqui alguns anos atrás. Ainda é fácil de encontrar pela internet.

      Edição dupla lindíssima!

      Tenho a minha autografada pelo próprio Richard Stanley de quando ele veio para o Fantaspoa.

      • Juninho

        Perai, serio?
        Caramba, eu nem sabia velho
        Valeu pela informação
        Onde eu encontro?

        • Rodrigo Ramos Rodrigo Ramos

          Veja no Mercado Livre. Foi onde peguei a minha.

  4. gilson bloch

    nunca assistir ! mais parece ser um clássico trash..

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