Críticas

The Rocky Horror Picture Show: Let’s Do the Time Warp Again (2016)

A essência está lá e o segredo para aproveitar o novo filme é justamente perceber que a produção de 1974 é uma obra que deve ir além dela própria

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The Rocky Horror Picture Show: Let's Do the Time Warp Again
Original:idem
Ano:2016•País:EUA
Direção:Kenny Ortega
Roteiro:Jim Sharman, Richard O'Brien
Produção:Lou Adler, John Ryan
Elenco:Laverne Cox, Victoria Justice, Ryan McCartan, Christina Milian, Tim Curry, Adam Lambert, Annaleigh Ashford, Kelly Van der Burg, Jayne Eastwood, Jeff Lillico,

Eu gostaria, se eu pudesse, de levá-los a uma estranha jornada. Vou aqui parafrasear esta introdução do clássico (sim, é um clássico) Rocky Horror Picture Show para iniciar este texto. E aproveito para me desculpar com o leitor ao me colocar na primeira pessoa. Quem acompanha meus textos sabe que eu não gosto deste formato. Mas considero Rocky um amigo tão próximo, que talvez soasse falso escrever “jornalisticamente” sobre ele.

Rocky é uma daquelas obras que você ama e venera ou odeia e não entende como alguém pode gostar. Não existe meio termo. Antes de ganhar o “Picture”, Rocky foi apenas Horror Show. Um musical no West End londrino que fez algum barulho no ano de 1973. O roteiro escrito por Richard O’Brien mostrava a história do casal de noivos Brad e Janet que acaba tendo que pedir ajuda em um castelo depois que o pneu do carro furou. O problema é que o castelo é na verdade uma nave espacial vinda do planeta Transexual, que fica lá na galáxia da Transilvânia.

No castelo, Brad e Janet conhecem uma série de personagens estranhos como o mordomo Riff Raff e sua irmã e amante Margenta. Mas logo o mestre de cerimônias aparece para recepcionar o casal. Trata-se do cientista e travesti Frank’N’Furter (interpretado magistralmente por Tim Curry) que naquela mesma noite vai criar Rocky, um loiro sarado para ser seu amante. Brad e Janet logo caem nas garras e no apetite sexual de Frank. Toda essa história é acompanhada por canções contagiantes. É isso mesmo. O filme do cientista travesti é também um musical.

Rocky Horror Picture Show foi lançado em 1974 e foi um fracasso retumbante. Até que alguns grupos começaram a exibir o filme em mostras de Halloween e em sessões da meia-noite. Foi quando a história de Rocky deu uma grande guinada e passou de fracasso de bilheteria para obra cult com seguidores nos quatro cantos do planeta. Tornou-se comum ir a sessões especiais nas quais as pessoas estavam fantasiadas e “interagindo” com o filme, jogando arroz na tela na cena do casamento ou ligando as lanternas e isqueiros (e hoje celulares) quando Janet canta There’s a Light.

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Como disse antes, me encaixo na categoria de fã incondicional de Rocky e já tive o privilégio de ir a uma das sessões com participação da plateia. Joguei arroz na tela e balancei um lenço branco quando Tim Curry canta I’m Going Home. Também já estive em uma versão teatral do filme. Mas de todas as minhas aventuras rockyanas, a mais inesquecível foi visitar Oakley Court, o castelo no qual o filme foi gravado.

Todas estas experiências me fizeram perceber como Rocky Horror Picture Show não é um filme comum ou isolado dentro de seu próprio roteiro. A mensagem vai além da película. Você se apega aos personagens, se diverte com a história, reconhece as referências e canta as músicas. E mesmo não sendo fã de remakes, Rocky é uma obra tão abrangente, já tendo inclusive até uma péssima versão em Glee, que é possível assistir ao novo filme sem aquela sensação comparativa que geralmente temos quando assistimos uma refilmagem.

O novo filme, que recebeu o título de Rocky Horror Picture Show: Let’s Do The Time Warp Again, passou por um longo processo até que ficasse pronto. Feito diretamente para TV pelo canal FOX, existe uma tentativa e até alguns acertos de permitir um diálogo da nova obra com a essência da trama original. O roteiro é praticamente o mesmo, assim como os personagens e as músicas. A essência está lá e o segredo para aproveitar o novo filme é justamente perceber que a produção de 1974 é uma obra que deve ir além dela própria.

A direção de Kenny Ortega, que já assinou filmes como Abracadabra e High School Musical, se esforça para trazer um pouco de contemporaneidade para a obra através de uma linguagem audiovisual bastante videocliptica. Ortega inclusive coloca uma banda para dar mais movimento para as canções. É o Rocky no século XXI embora a ação aconteça na década de 1970.

Apesar da semelhança entre as duas obras, Ortega optou por fazer algumas alterações dando um certo frescor ao filme. A abertura, com a canção Double Feature Picture Show, ficou muito agradável e celebrativa para a própria obra. A “chegada” de Frank’N’Furter também ganhou uma nova versão. Tratam-se de pequenas mudanças e que provavelmente vão agradar.

Alguns pontos eram naturalmente delicados para os fãs de Rocky, como a grande pergunta de quem viria a substituir o insubstituível Tim Curry. A resposta veio no nome da atriz trangênero Laverne Cox. Uma escolha positiva visto que seria bastante arriscado escalar algum ator que fosse parecido fisicamente com Curry justamente pela questão comparativa. Desta forma, Cox tem espaço para respirar sem que seja lembrada a cada cena que está imitando Curry, que naturalmente (vamos lembrar), é insubstituível. Aqui trata-se apenas de uma atriz interpretando um papel já conhecido.

the-rocky-horror-picture-show-2016-5Se Cox é um ponto positivo, o restante do elenco faz o que se é esperado com caras e bocas e atuações exageradas. Não que isto seja algo negativo. No universo de Rocky, o exagero costuma ser um ponto positivo. A única crítica talvez responda pela concepção do novo Rocky (Staz Nair). Da forma de andar até o ridículo pijama, foi algo que deixou a desejar.

Curiosamente, um dos melhores momentos do novo Rocky é justamente rever Curry em cena. O ator foi vítima de um derrame em 2012 e desde então luta para se recuperar. Em uma cadeira de rodas, Curry interpreta na nova versão o criminologista. Muito querido pelos fãs, é emocionante ver o esforço dele em estar presente neste filme. Em um dos momentos mais tocantes, durante a canção Don’t Dream it, Be It, Curry olha para a câmera e diz Não Sonhe, Seja. Este parece ser quase como um recado de despedida dele para nós, que claro, torcemos para a total recuperação do ator. Ele que não sonhou, mas sim que foi. E que Rocky o ajudou não apenas a sonhar, mas principalmente a ser. Assim como também ajuda a todos os transilvanianos. Ou seja, a nós.

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4 Comentários

  1. Bárbara Luiza

    Onde você participou da sessão com participação da plateia?

  2. Marciela

    Esse filme é fantástico, a primeira em que assisti, era criança, e desde então esse filme nunca mais me saiu da cabeça,ele é ‘dramático’, viciante, contagiante, escandaloso, enfim, um mix de vários sentimentos, uma obra para poucos.

  3. Grigori K

    o correto é *a travesti, *a cientista travesti etc.

  4. MORCEGO

    Não interessa.
    Detestei esse filme – prefiro o original.
    Sinceramente, não gostei dessa ideia de parecer politicamente correto. Isso não existe; é forçar muito a barra.
    É aquele caso clássico de remake em que a gente não enxerga o personagem no rosto novo do ator. Nunca!
    Prefiro muito mais o original!
    E é isso aí!

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