Críticas

Linha Mortal (1990)

Denso e ao mesmo tempo jovial, Linha Mortal é um dos esquecidos bons exemplares do cinemão fantástico dos anos 1990.

Linha Mortal
Original:Flatliners
Ano:1990•País:EUA
Direção:Joel Shcumacher
Roteiro:Peter Filardi
Produção:Rick Bieber, Michael Douglas
Elenco:Kiefer Sutherland, Julia Roberts, Kevin Bacon, William Baldwin, Oliver Platt, Kimberly Scott, Joshua Rudoy, Benjamin Mouton, Aeryk Egan, Hope Davis, Jim Ortlieb, John Duda.

“Algumas linhas não deveriam ser cruzadas…”

Em Linha Mortal, um fio narrativo simples, mas com bastante potencial, percorre a trama. O estudante de medicina Nelson (Sutherland) está obcecado com a ideia de descobrir o que ocorreria após a morte, já que, para ele, religião e filosofia falharam nesse ponto. Para tanto, se reúne com alguns colegas, Rachel (Roberts), Joe (Baldwin), David (Bacon), e Randy (Pratt) para por seu plano em prática. Sua ideia envolve, de maneira controlada, provocar sua própria morte e, com o auxílio dos amigos, ser ressuscitado, buscando desse modo retomar as prováveis experiências ocorridas após a morte. Embora aparentemente bem sucedido, o experimento faz com que Nelson e seus colegas retornem à vida com experiências e memórias tão vívidas quanto traumáticas.

Beneficiado por um forte elenco, estrelas ainda jovens, o longa dirigido por Schumacher (Os Garotos Perdidos, Por um Fio, Número 23) faz escolhas interessantes. Por mais óbvio que seja o conceito inicial, por exemplo, o filme jamais cede ao óbvio ou mesmo ao horror gráfico, como fez, por exemplo, recentemente um clone seu, Renascida no Inferno (2015). Investindo em planos que frequentemente dão closes nos rostos dos atores, e numa montagem de cortes rápidos, a trama deixa o espectador frequentemente apreensivo, nervoso e empático nas experiências nas quais os estudantes morrem e nunca temos certeza se de fato voltarão à vida. O longa ainda traz uma fluidez que faz parecer que há sempre algo ocorrendo, nunca caindo no tédio, ajudado ainda em muito pela fotografia de Jan de Bont, que cria visuais arrebatadores, fazendo uso inteligente das cores para instaurar a atmosfera sombria e por vezes onírica do filme.

O roteiro de Filardi (Jovens Bruxas) também opta por se distanciar do didatismo, não se preocupando em fornecer respostas nem aos personagens e nem mesmo ao espectador, uma escolha acertada se levarmos em conta que diante de um cenário no qual alguém morre e volta à vida, nenhuma resposta faria sentido e ninguém saberia explicar os motivos das sinistras experiências.

Aliás, essa é outra característica interessante do filme. Ao não dar explicações, fica a cargo do espectador na maior parte do tempo inferir, por exemplo, qual a natureza das memórias e experiências causadas pela morte e ressurreição das personagens. Sem nunca apelar para eventos explicitamente sobrenaturais, o roteiro prefere apostar em traumas comuns e mundanos que são facilmente apropriados por qualquer espectador, sentimentos de culpa, vergonhas ou relacionados à infância e juventude daquelas pessoas, sem que seja necessário algum monstro de outro mundo para sabermos que, na ótica do longa, aqui se faz e aqui se paga, e nossas piores memórias sempre nos perseguirão. O horror explícito é substituído por sentimentos humanos e isso gera de maneira surpreendente momentos comoventes, como aquele da “revelação” da personagem de Roberts. Se pecam em algum momento, Schumacher e Filardi o fazem desperdiçando o talento do ator Oliver Pratt num personagem raso e que serve como um dispensável alívio cômico na trama.

Denso e ao mesmo tempo jovial, Linha Mortal é um dos esquecidos bons exemplares do cinemão fantástico dos anos 1990.

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Marcus Augusto Lamim

Marcus Augusto Lamim

Um seguidor fiel do cinema em todos seus formatos e gêneros, amante de rock e do gênero fantástico, roteirista amador e graduando em química. Contato: [email protected]

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