Críticas

O Dia da Besta (1995)

Antológico do começo ao fim, com um ritmo alucinado que enfileira momentos de morrer de rir, é uma obra-prima deliciosamente insana!

O Dia da Besta
Original:El Día de La Bestia
Ano:1995•País:Espanha
Direção:Álex de La Iglesia
Roteiro:Jorge Guerricaechevarría e Álex de La Iglesia
Produção:Claudio Gaeta, Fernando de Garcillán, Andrés Vicente Gómez, Antonio Saura
Elenco:Álex Angulo, Armando de Razza, Santiago Segura, Terele Pávez, Nathalie Seseña, Maria Grazia Cucinotta.

O Dia da Besta não é apenas o filme mais divertido da década de 90, é uma pedrada de irreverência e inteligência. Mesclando humor negro, horror e crítica social, num roteiro soberbo e saboroso.

Estamos na Madrid de 1995. O padre Angel (Álex Ângulo, impecável), um professor de teologia que passou os últimos vinte e cinco anos estudando o Apocalipse de São João, onde conseguiu descobrir a mensagem por trás do texto: o anticristo nascerá ali mesmo, na capital espanhola, no Natal daquele ano, ou seja, na próxima noite que está por vir.

Praticamente lutando contra o relógio, o padre tem um estratagema mirabolante: renegar a Deus, praticar todo o mal possível, para atrair a atenção do diabo, e vender sua alma num pacto. Tudo na perspectiva de que terá assim informação de onde exatamente nascerá o filho do capeta, para finalmente matar o rebento demoníaco. Sim, o padre pretende desgraçar sua alma para salvar a humanidade do apocalipse!

Na sua cruzada, ao ir numa loja de discos de heavy metal, em busca de mensagens satânicas, nosso quixotesco protagonista encontra seu Sancho Pança na figura de José Maria (Santiago Segura, impagável), o headbanger balconista da loja.

O padre, sem ter onde ficar, acaba se hospedando na pensão da mãe de Jose Maria (interpretada por Terele Pávez), uma dona de casa racista e reacionária. Outras figuras da pensão: o avô de Jose Maria, um velho que anda pelado pela casa, e que é tratado pelo neto na base de LSD e genéricos, e a empregada Mina (Nathalie Seseña), uma jovem donzela interiorana.

 

Na busca de maiores informações para realizar seu pacto, o padre e seu fiel escudeiro do metal invadem o apartamento do Professor Cavan (Armando de Razza), um apresentador charlatão que comanda um programa de TV sobre ocultismo. E é no apartamento que se realiza o pacto demoníaco, não sem antes passar por acontecimentos violentos e piadas engraçadas, principalmente envolvendo a caça por um dos ‘ingredientes’ do ritual: o sangue de uma virgem. Cavan então vê suas verdadeiras convicções em cheque, que todas as bobagens que apresentava no final tinham um fundo de verdade. Assim se consolida um trio peculiar que tentará evitar o apocalipse na terra.

Paralelo a trama, enquanto os personagens desfilam por uma Madrid escura, suja e violenta, há um grupo de extrema-direita intitulado “Limpia Madrid”, que se dedica a atacar estrangeiros e queimar moradores de rua.

O Dia da Besta é uma conjunção harmoniosa de direção, roteiro e elenco.

Do trio principal é difícil dizer quem estar melhor, sem falar que são personagens bem desenvolvidos. O padre de Álex Ângulo carrega a provável ingenuidade de quem passou duas décadas e meia enclausurado, estudando textos teológicos; seus atos de crueldade refletem bem isso (cometer furtos, mandar um moribundo para o inferno, derrubar um malabarista, riscar carros, etc). O fã de metal de Santiago Segura é atrapalhado, tosco, bruto e, sempre sobre efeito de drogas, dá o efeito cômico ideal – e pensar que esse papel foi recusado por Javier Bardem, que deve ter se arrependido, pois acabou trabalhando no filme imediatamente posterior do diretor, Perdita Durango. E Sr. Cavan de Armando de Razza, ocultista de araque, cafona e cínico, mas que abraça a causa depois de ver o diabo em pessoa. Vale citar ainda a presença da voluptuosa Maria Grazia Cucinotta como a namorada do professor Cavan. Uma participação para fins evidentemente fetichistas.

O roteiro, escrito por de La Iglesia e seu colaborador Jorge Guerricaechevarría, coloca no mesmo caldeirão de ironias: cristãos, satanistas, rockeiros, extrema-direita e a sociedade espanhola. Nada sobra da mira iconoclasta. A cena do pacto no apartamento é inesquecível e o final ambíguo abre espaço para a subjetividade, bem ao gosto europeu. A única certeza que fica que a pior besta seria o próprio ser humano

Duas curiosidades que vale citar: durante as filmagens, pessoas da produção, principalmente Álex de La iglesia, receberam ameaça de mortes de grupos satanistas; segundo ponto, de acordo com ocultistas, o filme utiliza realmente as técnicas necessárias para um pacto com diabo, ou seja, a obra ri com conhecimento de causa. Em uma cena rápida, do tipo se piscar perdeu, vemos um trecho do programa do Sr. Cavan em que mostra um garoto possuído pelo demônio, enquanto a criança esperneia na cama, com direito a resto de vômito e estigmas, vemos na parede um pôster da Xuxa! As ironias com satanismo e a cultura pop aqui não poupou nem a Rainha dos Baixinhos brasileira.

Em seu segundo longa (sua estreia foi no interessante Ação Mutante) Álex de La Iglesia cria sua obra máxima e, junto com sua obra anterior, deixam as marcas que reinariam em sua filmografia: elementos fantásticos, crítica social, personagens e situações bizarras e surreais e toneladas de humor negro. Se o mundo fosse um lugar realmente justo, de La Iglesias teria o mesmo reconhecimento de um Tarantino.

Sucesso na Espanha,  abocanhou cinco prêmios Goya, o Oscar de lá, incluindo o de Melhor Diretor. A obra abriu brechas no cinema norte-americano para o diretor, que chegou a ser convidado pra realizar um remake deste filme e também Alien: Ressurrection (1997), que acabou nas mãos do francês Jean-Pierre Jeunet (co-diretor de Delicatessen, que depois voltaria para a França e realizaria o hit O Fabuloso Destino de Amélie Poulain). Iglesias acabaria realizando Perdita Durango na terra do Tio Sam e depois retornaria ao velho continente.  O Dia da Besta, na época foi acusado de plagiar La Luz, romance inédito de Tomás Cuevas, que teria mandado seus escritos para Álex de La Iglesia, e que foi devolvido dois anos depois do envio, a história chegou aos tribunais, sem ganhar a causa e rendeu até um documentário de 20 minutos chamado El Lado Oscuro del Clan Almodóvar (para quem não sabe Pedro Almodóvar e seu irmão Augustín apadrinharam Álex de La Iglesia em seu começo de carreira). De qualquer forma, isto não foi o suficiente para manchar a reputação do filme e virar um marco no cinema fantástico espanhol.

Antológico do começo ao fim, com um ritmo alucinado que enfileira momentos de morrer de rir. Deliciosamente insano, O Dia da Besta é uma obra-prima. Para ver, rever, mostrar para os amigos e espalhar essa semente do mal. Essencial para almas livres e bem humoradas.

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