Críticas

Sob a Sombra (2016)

Como é possível produzir terror maior quando se já está no meio de uma guerra?

Sob as Sombras
Original:Under the Shadow
Ano:2016•País:Jordânia, Qatar, Irã, UK
Direção:Babak Anvari
Roteiro:Babak Anvari
Produção:Emily Leo, Oliver Roskill, Lucan Toh
Elenco:Narges Rashidi, Avin Manshadi, Bobby Naderi, Ray Haratian, Arash Marandi

Existem pessoas que não entendem porque alguém paga uma entrada de cinema ou mesmo gasta seu tempo para sentir medo em um filme de terror quando a realidade já é assustadora o suficiente. A frivolidade de uma película empalidece perto da violência dos nossos tempos, porém a Sétima Arte continua sendo extremamente eficiente seja como uma forma de escapismo ou até para confrontar fobias, ajudando a encarar a vida lá fora sob um prisma mais otimista.

Qualquer que seja o motivo pelo qual sejamos fãs do gênero fantástico, o diretor iraniano estreante em longas, Babak Anvari, mexe em um balanço quase perfeito entre realismo e ficção e nos faz lembrar que existe um terror real além do sobrenatural – que quando colocarmos os pés para fora da sala de projeção, Aleppo ainda estará sendo bombardeada e inocentes estarão temendo pela própria vida – em seu longa Sob a Sombra, que recebeu grande destaque no Festival de Sundance e no Toronto After Dark, de 2016, e cujos direitos de distribuição foram adquiridos pela empresa de streaming Netflix. Embora tenha sido exibido no Fantaspoa deste ano, continua sem previsão de chegada ao grande público no Brasil.

O roteiro se passa em outra época terrível no mundo árabe, mais especificamente na Teerã de 1988, durante a guerra entre Irã e Iraque, e conta a história de Shideh (Narges Rashidi) e Dorsa (Avin Manshadi), mãe e filha que passam quase o dia todo no seu apartamento receosas de um ataque de misseis iminente que pode destruir a cidade, enquanto o marido médico é deslocado para atender na frente de batalha. Shideh ainda passa por um drama pessoal, já que por ter sido politicamente ativa contra o regime em uma época de repressão, não consegue mais estudar para concluir a faculdade de medicina, o grande sonho de sua mãe recentemente falecida.

Os ataques aumentam em frequência e os moradores das cidades, inclusive do prédio de Shideh, vão fugindo aos poucos. Shideh e Dorsa permanecem e os problemas se acumulam cada vez mais: Dorsa tem um histórico de terror noturno; até um vídeo cassete que pode ser confiscado pelo governo se for descoberto é motivo de tensão e discórdia. Como se não fosse o suficiente, rumores entre vizinhos trazem à tona a possibilidade de que o prédio está sendo assombrado por um Djinn… O ceticismo se torna dúvida à medida que incidentes estranhos começam a ocorrer com Shideh e Dorsa.

Não é segredo que nos últimos tempos estamos vendo uma série de filmes de terror mais intimistas, normalmente envolvendo uma casa e pessoas isoladas – muitos deles entre mães e filhos. Esta tendência criou notoriedade com The Babadook e ganhou reforços com Crawlspace, O Homem das Sombras, Refém do Medo, Ainda Estamos Aqui, Do Outro Lado da Porta, Quando as Luzes se Apagam e por aí vai.

O que diferencia Sob a Sombra de todos os citados é que Babak Anvari não se esconde atrás de sustos fáceis e cenas em total escuridão, e o suspense é cuidadosamente trabalhado de maneira que o elemento sobrenatural do Djinn é tão somente uma alegoria, pois se uma bomba explodir sobre a cabeça da família iraniana de nada vai adiantar. Sob este prisma, um X feito de fita crepe na janela (e que ilustra o pôster do filme) causa tanto medo quanto as eventuais aparições que acontecem da metade para frente… Cria uma angustiante expectativa e a constatação de que a realidade de uma guerra causada pela opressão de regimes totalitaristas é ainda mais obliteradora do que um ente sobrenatural poderoso, mesmo que ele possa ser, na verdade, fruto de uma mulher perdendo sua sanidade.

A relação impaciente entre Shideh e Dorsa é totalmente crível por conta da qualidade das atrizes, mesmo a infante Avin Manshadi o que é muito raro de se ver. São em seus traumas, na hostilidade provocada e na desconfiança que a as personagens evoluem e nesta caminhada contra todas as possibilidades de uma vida justa, elas percebem que só tem uma a outra para tentar manter uma rotina controlada e sobreviver aos males que lhes afligem enquanto o medo espreita e se manifesta sob várias formas em um inescapável crescendo. Dependendo do seu estado de espírito, vão lhe faltar unhas para roer.

Um dos melhores filmes de 2016 que, para mim, por alguns detalhes de efeitos e do comportamento anti-preservacionista dos protagonistas não leva a nota máxima… Se sua praia está na tensão simples na linha de The Babadook e Boa Noite Mamãe, pode pular de cabeça e nadar de braçada: além de não se arrepender, pode ser que saia com algumas reflexões da sessão.

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1 Comentário

  1. Paulinha

    Mto ruim.

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