Críticas

Space Dystopia – 7º CineFantasy (2016)

o inferno do trabalho burocrático a naves em órbita, alienígenas, loop temporal e até canibalismo em preto e branco, uma sessão realmente fantástica!

Um festival sobre o fantástico não poderia deixar de lado a Ficção Científica e as produções espaciais. O 7º CineFantasy fez uma seleção curiosa de curtas, que passearam por diversos temas, desde o Inferno do trabalho burocrático a naves em órbita, alienígenas, loop temporal e até canibalismo em preto e branco. Exibidos no segundo dia do festival, no feriado de 7 de Setembro de 2016, a sessão contou com a casa cheia, e a satisfação quase que absoluta pelos filmes exibidos. Os principais destaques foram os longas ReStart e o criativo Apollo81, que fez a plateia rir e se esbaldar pela criatividade da obra.

Em preto & branco, o terror espacial espanhol They Will All Die in Space, de Javier Chillon, realizado em 2015, abriu a sessão Space Dystopia. A nave Tantalus viaja sem rumo pelo espaço sideral, quando um ocupante, em estado criogênico, é desperto. Alex (Julio Perillán, de Apocalipse, 2015) acorda com muita fome, diante de dois outros passageiros: Dan (Francesc Garrido, El habitante incierto, 2004) e Phil (Ben Temple) o retiraram de seu sono para ajudá-los a consertar a nave, já que temem que em breve terão problemas com suprimentos, resultando em um caixão espacial. Alex questiona a necessidade de despertar também sua esposa, experiente engenheira, mas percebe que está sendo enrolado pela dupla, até finalmente entender a verdadeira razão pela qual foi acordado. Claustrofóbico e com um final surpreendente, o curta é bem feito, com boas atuações, e com uma ótima justificativa para a sua fotografia em duas cores.

O espanhol Vostok, de Miquel Casals, também poderia se chamar DR. Ambientado no espaço, nos confins dos anos 60, com uma ótima trilha sonora, o público reconhece Irina (a talentosa Macarena Gómez), do excelente Musarañas (2014), em uma missão espacial intitulada Vostok, com o objetivo inicial de levar cidadãos soviéticos ao espaço. Enquanto observa a Terra e as estrelas em sua viagem solitária e silenciosa – quando o aparelho de fita cassete para de funcionar -, ela conversa com o oficial de radar do centro de monitoramento, Nikolai (Ernesto Sevilla), que logo se revela como alguém com quem ela se relacionou e que não aceitou bem a separação. Mesmo a trocentas milhas de distância, a dupla resolve suas diferenças de maneira divertida e, ao mesmo tempo, levemente assustadora.

Ideias simples e caseiras podem se transformar em belíssimas experiências cinematográficas, com conteúdo e crítica social. Um dos melhores exemplos disso é o curta português Terra 2084, de Nuno Sá Pessoa, que praticamente provocou aplausos no público. No futuro, o mundo está em caos com a União Mundial, tecendo as regras de trabalho e as punições. O desempregado (Fernando Luís) se distrai com seu aparelho de rádio antiquado e um ratinho, em uma espécie de canal de esgoto abandoando. Eis que seu aparelho sintoniza uma aparente frequência alienígena (na locução do próprio diretor) e estabelece um diálogo inteligente entre uma raça desenvolvida e o simples sem teto. Na conversa, o alienígena pede que ele descreva o que seria, por exemplo, o dinheiro, impostos ou o capitalismo, mostrando que o Homem cria sua própria maneira de se destruir. Fotografado em preto e branco, o curta, de apenas 15 minutos, é uma aula de Filosofia e Sociologia, que permite uma ótima reflexão sobre a sociedade. Merecia muito mais do que apenas a ovação dos espectadores.

Às vezes, a fuga de uma esposa, descontente, pode fazer uma mente perturbada desenvolver teorias conspiratórias e sequestros inexistentes. Ou não? No razoável Alien Inside, de Alfonso García, Ata (Emilio Linder) convence seu amigo Toni (Carlos Herranz) de que sua esposa Aura (Lara Corrochano) foi abduzida por alienígenas. Sem perder tempo para explicações, o curta já começa no confronto com a criatura, em efeitos bem legais, enquanto o marido, armado, precisa encontrar meios de salvá-la dos perigos nas ruínas de um edifício. Quando conseguem abater o alienígena e o mantém preso para mostrar as autoridades, ocorre a mudança narrativa que tenta surpreender o espectador com uma já evidente revelação. Tem como principal mérito a curtíssima duração, sem alongar para diálogos que poderiam não acrescentar nada.

O prêmio de Melhor Curta de Ficção Científica foi acertadamente para o espanhol ReStart, de Olga Osorio. Nele, Andrea (Marta Larralde) encontra um relógio próximo a uma praia e depois é sequestrada por homens estranhos. Ela acorda numa sala, sem entender a razão de estar ali. Eis que, de repente, ela se vê novamente na praia e se enxerga pegando o relógio e sendo novamente levada pelos homens. A situação se repete sem fim, deixando claro que ela está presa num loop temporal e precisa encontrar uma forma de quebrar essa frequência, nem que precise partir para um ato extremo. Uma ideia interessante e bem feita que mostra que há destinos que não podem ser controlados. Destaques para a bela fotografia e para a atuação de Larralde, vivenciando o inferno da repetição.

O grego White Collar, de Natalia Lampropoulou, apresenta uma solução bem curiosa para resolver o problema da alta do desemprego. Três sujeitos estão em busca de uma vaga numa multinacional e aceitaram participar do processo seletivo. Consiste em responder perguntas – de economia, condizentes com a vaga – proferidas por uma entrevistadora (Lamni Ioanna), via transmissão em vídeo. Mas, quem erra ou não sabe a resposta deve posicionar um revólver, com apenas três balas, na têmpora e apertar o gatilho, participando da tradicional roleta russa. Assim, aquele que sobreviver aos desafios ganha a tão sonhada vaga. Simples e frio, como a busca por um emprego desejado, levado às últimas consequências.

Adam Peiper (Luis Bermejo), um funcionário de um imenso depósito futurista, trabalha sem parar no setor de envelopamento, obedecendo o ritmo das luzes. Enquanto exerce sua rotina desagradável, ele recebe a visita de uma chefe (Maru Valdivielso) e um homem (Octavi Pujades), que parece estar prestes a assumir um posto na empresa. Enquanto ela discorre sobre as posições que pretende alcançar em sua evolução funcional, dependente exclusivamente dos serviços burocráticos de seus operários, Adam se atrapalha em suas funções e acaba cortando a língua com o papel. A partir desse momento, descontrolado, seu corpo começa a se fundir com o papel, transformando-o numa vítima de sua rotina, como se simbolizasse a dedicação praticamente escrava de muitos funcionários em trabalhos monótonos. Apesar da ideia bem interessante, os efeitos especiais não foram tão convincentes, com o CGI relacionando o personagem com um simples boneco digital.

Apollo81 é um dos curtas mais criativos exibidos nessa edição do CineFantasy! Uma ideia muito bem realizada, inteligente, daquelas que você se questiona por qual razão ninguém havia pensado nisso antes. Um rapaz adentra uma espécie de pub, como um cowboy em um velho oeste, observando por todos os lados os demais presentes. Ele se aproxima de uma bela garota, apresentando-se como Apollo81 (Mikel Bustamante), adversário em um jogo de relacionamento com a invicta Flamenca (María Almudéver). Com baralhos e uma base para exibir as cartas – lembrando o Jogo da Vida ou Perfil – eles se enfrentam a partir de situações comuns no início de uma relação, exemplificando com os demais participantes do recinto. Ele pega a carta “Clima“, por exemplo, e um grupo de rapazes no bar começa a tocar uma música romântica, sendo abatidos pela frieza da garota em sua carta de defesa. Em um momento curioso, ela se defende com a chegada de uma “amiga“, num golpe quase certeiro em qualquer tentativa de moldar uma união, obrigando a uma ação ousada. O espanhol Apollo81, de Óscar Bernàcer, foi lembrado pelos jurados como um dos prováveis finalistas de Melhor Roteiro de Curta, mas acabou ficando apenas na indicação.

Da França, os espectadores puderam conferir On/Off, curta de Thierry Lorenzi. A astronauta Meredith (Carole Brana) exerce suas funções tradicionais a bordo de uma nave, acompanhada do colega Cid (Arben Bajraktaraj, de Busca Implacável, 2008). Durante uma de suas viagens externas, ela se vê envolvida numa ilusão visual e sonora, com a voz de sua filha na despedida de sua partida para a missão. Contudo, esse contato pode ser prejudicial para a astronauta, que devia agir com a frieza de uma máquina, sem sentimentos que possam interromper as ações no espaço. Bom curta, com belíssimos efeitos especiais e um tocante argumento melodramático.

A evolução da ciência pode não ter limites. É o que apresenta o francês Juliet, de Marc-Henri Boulier. No formato de vários comerciais da empresa Seed, além de noticiários, o público conhece a androide que leva o nome do curta. Prática para os serviços domésticos e sexuais, a boneca, interpretada por Alix Bénézech, logo ganha novas versões, podendo falar e interagir com o Homem. Não demora muito e logo surge uma versão masculina para os prazeres femininos, Romeu (Corentin Macquet). Ao mesmo tempo em que evoluem, há os detratores que consideram as criações equivocadas, imaginando o que poderia vir a seguir: uma criança, um pai robô. Realmente não há limites para a evolução dos robôs, culminando em um final ironicamente trágico e assustador. Uma ideia muito bem desenvolvida e atraente, numa divertida crítica aos caminhos da ciência.

Ao término da sessão Space Dystopia, apesar dos problemas apresentados na exibição do último curta, os espectadores saíram da sala de cinema satisfeitos. Puderam viajar pela Espanha, França, Grécia e Portugal, e experimentar conceitos fantásticos em produções criativas e bem realizadas.

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