Críticas

Troll 2 (1990)

Se este é o pior filme de todos os tempos, por que tantas pessoas o adoram?

Trolls 2
Original:Trolls
Ano:1990•País:Itália, EUA
Direção:Cláudio Fragasso
Roteiro:Cláudio Fragasso, Rossella Drudi
Produção:Joe D'Amato, Brenda Norris
Elenco:Michael Stephenson, George Hardy, Margo Prey, Connie Young, Robert Ormsby, Deborah Reed, Jason Wright, Darren Ewing, Jason Steadman, David McConnell, Gary Carlson, Mike Hamill, Christina Reynolds, Glenn Gerner

No hoje longínquo ano de 2006, quando eu comecei minha peleja neste ilustre website, escrevi um artigo para um pequeno filme chamado Troll de 1986, uma esquecível fábula B com elementos de terror com um protagonista chamado Harry Potter. Pois bem, em um dos últimos parágrafos do texto eu escrevi: “Gerou uma continuação, Troll 2, dirigido pelo intragável Cláudio Fragasso. Não assisti, mas conheço a fama de ‘Um dos piores do mundo’ dele e como não conheço ninguém que tenha assistido e sobreviveu pra contar, prefiro morrer na ignorância…

Amigos, o mundo dá muitas voltas e a curiosidade me impediu de morrer na ignorância e enfim, quebrando minha própria promessa, assisti a dita obra do picareta Drake Floyd, ou melhor, Cláudio Fragasso (A Terceira Porta do Inferno) roteirizada pelo mesmo em companhia de sua esposa, Rossella Drudi, que aportaram nos Estados Unidos para fazer esta tranqueira.

Agora sim, posso dizer com conhecimento de causa, que vi um dos filmes mais podres da história da Sétima Arte. Aliás, se os irmãos Auguste e Louis Lumière ficassem sabendo que um italiano faria tamanha afronta a sua invenção, destruiriam seu primeiro cinematógrafo no ato. E sabem o que é mais irônico na história toda? Eu adorei o filme. Explico este caso de insanidade temporária daqui a pouco.

Primeira coisa a se esclarecer sobre a produção: esqueçam que ela é uma continuação, pois o roteiro não tem nada a ver com o filme anterior. Querem saber? Esqueçam até o nome – pois ao contrário de Tubarão, que possui um Tubarão e, vá lá, Octopus, que possui um polvo gigante – Troll 2 não tem NENHUM Troll, aliás este nome nem é citado por nenhum personagem: eles chamam os monstros do filme de Goblins! Vai vendo…

O filme abre com um velho chamado Seth (Robert Ormsby) contando uma historinha de ninar para seu neto Joshua Waits (o molequinho mala Michael Stephenson, que voltaria em A Vingança das Bruxas do mesmo Fragasso), o “mocinho” do filme. O conto de fadas sobre um rapaz de nome Peter que perdido na floresta é perseguido pelos Trolls, ops… Goblins (com uma trilha sonora horrível em sintetizador) até se esborrachar no chão e ficar inconsciente. Aí você diz: os goblins o pegaram, certo?

Errado! Peter acorda e uma bela garota aparece e lhe dá uma gororoba verde pra comer. Não precisa ter muito Q.I. para sacar que tudo o que é verde de cor radioativa não é bom para a saúde. Peter não se atém a esse princípio e dança: a mulher é um goblin disfarçado e a pasta verde lentamente transformará o rapaz – usando as palavras de Seth – um ser metade humano e metade planta, comida preferida dos goblins. Não obstante a essa história, o vovô de Joshua afirma veementemente que é tudo verdade, que goblins existem… Nada melhor para ouvir antes de dormir profundamente.

A mãe do garoto, Diana Waits (Margo Prey), entra no quarto dele e… Surpresa! O vovô não está lá. Haley Joel Osment que se cuide, pois Josh também vê gente morta. Obviamente, Diana não acredita e acha que tudo é imaginação do menino que está traumatizado pelo falecimento de Seth seis meses antes.

Passado este incidente, a família Waits se prepara para tirar um mês de férias numa cidadezinha do interior chamada… NILBOG! Uau, Fragasso e Drudi, que espertos! Eu nunca teria pensado em algo tão “etnegiletni“.

É quando conhecemos a irmã de Josh, Holly (Connie Young), que está fazendo um pouco de musculação em seu quarto. O namorado, Elliott Cooper (Jason Wright), invade o cafofo da garota e descobrimos que ele tem um problema sério de masculinidade: entre ficar com a sós com namorada e ficar com seus três amigos panacas – Arnold (Darren Ewing), Drew (Jason Steadman) e Brent (David McConnell) – ele prefere entre machos. E pelo que a namorada diz, ele não vai nem no banheiro sem a companhia de seus amigos. Ah, vá.

A chance de redenção de Elliott está na manhã do dia seguinte: seguir com a família para Nilbog. E ele não vai! Holly, compreensivelmente está p… da vida com o namorado e discute com a mãe e o pai Michael (George Hardy). Diana encerra a discussão de uma maneira fantástica, fazendo a família entoar uma música de viagem desafinada e descoordenada. Neste ínterim, Elliot tenta ganhar o tempo perdido indo de trailer com os amigos para Nilbog também para se reconciliar com a namorada.

Josh tem um pesadelo enquanto dorme no carro: ele está virando aquele híbrido humano-vegetal enquanto sua família se transforma em goblins. Uma análise desta cena é requerida para o leitor mentalizar o que são “transformações” e “goblins” segundo Fragasso: por “transformações” entenda que alguém vai derrubar groselha verde incessantemente na sua cabeça e amarrar galhos de árvores em seus dedos e por “goblins” entenda anões vestidos com sacos de batata e máscaras de borracha, iguais as vendidas em lojas de fantasia. Agora voltamos à programação normal.

Na rodovia o garoto vê o avô (lembrem-se que Seth está morto e é um tipo de fantasma) como se pedisse carona no acostamento. Josh convence o pai a parar o carro fingindo que está passando mal e, na breve conversa, Seth suplica que eles voltem, pois a cidade é perigosa. Mas quem vai acreditar num garoto que recebe conselhos de seu avô morto?

Finalmente os Waits chegam a Nilbog e a cidade está deserta. A explicação, segundo o chefe de família, “Esta é uma cidade agrícola, e todos já foram dormir a esta hora“, seria plausível se não parecesse que eles chegaram ao meio-dia. Os Waits se dirigem à fazenda e Josh repara que os donos do lugar têm suspeitíssimas marcas em formato de trevo de quatro folhas. Após uma troca de palavras, as duas famílias deixam as chaves de suas respectivas casas um com o outro, configurando assim um swing de residências por uma semana.

Os Waits entram na casa da fazenda famintos e encontram um montão de comida à mesa, só que cheio daquela gosma verde em cima, ainda assim eles não parecem ligar muito para isto. Seth aparece mais uma vez e diz a Josh que ele precisa impedir o consumo destes alimentos a qualquer custo. O vovô consegue congelar o tempo por 30 segundos(!) para que o menino pense em alguma coisa. Ao invés de jogar tudo pro chão, a solução de Josh é simples e eficaz: subir na mesa e fazer xixi nos alimentos. Sem estar a par do perigo que correm, Michael coloca o filho de castigo e solta a primeira pérola de diálogo (de muitas outras): “You can’t piss on hospitality! I won’t allow it!“.

Enquanto isto, o trailer de Elliot está estacionado em algum lugar próximo a Nilbog. Arnold está do lado de fora e vê uma garota correndo na mata; ele a alcança e ela parece transtornada dizendo que está sendo perseguida por monstros horríveis… o rapaz se vira e vê uma horda de goblins. Arnold então faz o impensável: Tenta intimidá-los! Quem ele pensa que é, Dirty Harry?! Dez palavras depois, Arnold tem uma lança de madeira cravada no ombro, claro.

Arnold e a garota fogem e encontram um casarão. Ao adentrar são recepcionados por Creedence (Deborah Reed), uma druida maluca de pedra, cujos ancestrais “vieram de Stonehenge“, segundo ela, e obviamente está mancomunada com os goblins. A druida dá aos dois uma caneca de água com gelo seco que diz ser milagrosa e que contém todas as propriedades dos vegetais (na verdade é aquela bagaça verde, mas você já deve ter suspeitado disso).

A garota toma e se “transforma”, Arnold não consegue se mexer e acha que “deve haver uma explicação lógica pra tudo isso“. Então vamos aquela famosa cena que todo mundo já deve ter visto no Youtube, mas não custa ver novamente. Oh my GOOOOOOOOOOD!

Na sequência voltamos a ver a família na fazenda. Na cena mais aleatória da história da Sétima Arte, Holly dança e recita uma intimação ao namorado em frente ao espelho de seu quarto, quando repentinamente aparece o cabeção do avô no espelho chamando por Joshua a lá Obi-Wan Kenobi (hahahaha!). Enfim, e o filme prossegue, os amigos são atormentados pela druida e pelo xerife de Nilbog, Eugene Freak (huahuahua!) enquanto Joshua descobre que Nilbog é Goblin ao contrário – e ele precisa de um ESPELHO pra perceber isso – e tenta convencer a família com a ajuda do fantasma do avô e uns coquetéis molotovs para deixar a cidade antes que virem comida aos antagonistas.

Não vou mais dissecar a produção e contar todos os detalhes para não tirar o desejo masoquista que se faz presente no punhado de leitores que curte uma bagaceira. Além disto algumas cenas são tão bizarras e tão fora de contexto, que teria de usar todos meus neurônios para descrever em palavras o que vocês veriam, mas visto que eu perdi um bocado deles assistindo a Troll 2, estou com uma ligeira incapacidade mental no momento.

Só para terem um pequeno aperitivo, duas cenas reveladoras se destacam do bolo na metade final e fica para o leitor imaginar e decidir se vale a pena ou não o martírio. A primeira é que os goblins fogem de um sanduiche de mortadela como Drácula fugiria de um crucifixo e a segunda é a cena de sexo mais “anti-ereção” da história do cinema, envolvendo a druida Creedence transformada em gostosa de lingerie, um dos amigos de Elliot, uma espiga de milho(!) e uma enxurrada de pipoca(!!).

Quanto aos aspectos técnicos, Troll 2 segue o PFQ (Padrão Fragasso de Qualidade) à risca: o filme terrivelmente mal editado sem um pingo de continuidade, pessimamente dirigido e com uma trilha sonora de doer os ouvidos. Com relação a atuação também não há muito o que argumentar: George Hardy é um dentista na vida real que ganhou cerca de mil dólares pelo papel e por aí você imagina o quão bom ator ele é. Michael Stephenson é uma figurinha à parte; é tão forçado em sua interpretação que em cada cena me pareceu que ele estava morrendo de vontade de fazer cocô, igualzinho em A Vingança das Bruxas. Os demais são tão inexpressivos quanto inaptos, exceção feita a Robert Ormsby, que chega a ser digno por sua bagagem em teatro, mas é extremamente afetado pelo roteiro, e Deborah Reed, que parecia atuar em uma viagem ruim de LSD.

Agora vem o que eu disse nos primeiros parágrafos – e vocês que acompanham meus textos sobre porcarias já deveriam saber disso: deixei-me contaminar pelos goblins, adorei o filme e me atrevo dizer que é o melhor que Fragasso poderia entregar. Obviamente não é pelo roteiro, nem pelos aspectos técnicos, mas pela diversão despropositada que se faz presente com tantas frases memoráveis proferidas por atores(?) tão ruins em situações tão absurdas. Chega a um ponto tão abusivo à inteligência do espectador que ele tem duas opções: parar o filme para não ficar doido, ou simplesmente se deixar levar pela maluquice imprimida em celulóide. Fica até irônico elogiar deste jeito, mas o ritmo é intenso e sempre tem algo acontecendo, por mais bizarro que seja.

E não sou só eu que penso assim. Depois da crítica “séria” esculhambar, com razão, a obra de Fragasso (quer dizer, os que chegaram a ver o filme lançado direto em vídeo em 1992), na década seguinte um culto tão grande começou a se formar que chegou a ter um nome, Nilbog Invasion. Até chegar um ponto onde um site foi criado só para homenagear a película. O sucesso do site e de projeções especiais em festivais esporádicos, levou o crescido Michael Stephenson a realizar o documentário Best Worst Movie de 2009, sobre Troll 2 e estes malucos que o adoram.

Best Worst Movie conta com entrevistas com o elenco original e até com o depoimento do cineasta(?) Cláudio Fragasso, que infelizmente ainda leva Troll 2 a sério e afirma estar elaborando Troll 2: Part 2 (Deus nos ajude!) por causa deste interesse repentino sobre o filme. O bacana no documentário de Stephenson é retratar os dois lados da moeda, o divertido e o sóbrio: se o filme virou cult e o elenco foi reconhecido, alguns deles simplesmente perderam a carreira após o filme (caso de Robert Ormsby) ou ficaram até perturbados (caso de Margo Prey).

Embora a maioria tenha abandonado a atuação (amém!), quase todos se deram bem em seus novos empregos, por exemplo, Darren Ewing, que é bacharel nas áreas de cinema, comunicação e multimídia e Jason Wright, que, pasmem, é autor de bestsellers cujos livros já chegaram ao número 1 da lista do jornal New York Times.

E para fechar, quero instigar uma pergunta: o que diferencia um “pior filme” de um “melhor pior filme” como Troll 2? Talvez os “melhores piores” sejam tão histéricos e insanos que precisam ser vistos para serem acreditados e isto, meus caros, é entretenimento.

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6 Comentários

  1. Davi Mercatelli

    Oh my GOOOOOOOD!!!!

    Não precisa nem de comentários!

  2. Oh my GOOOOOOOOOOOD!!!

  3. gilson bloch

    amo este filme , tambem gosto do 1 , mas esse realmente e o melhor troll 2 é trash-cult, pior filme pra esse é injusto, tem coisas piores na era digital em CGI , atualmente..

  4. MORCEGO

    Eu gosto do filme!
    É um dos mais divertidos do Cinema Fantástico Italiano!
    É melhor que o primeiro.
    Não merece o título de “O pior filme de todos os tempos”!
    Super divertido!

  5. MORCEGO

    Bom, eu gosto do filme!
    Na minha opinião, é um dos filmes mais divertidos do Cinema Fantástico Italiano!
    Não merece o título de “O pior filme de todos os tempos”!
    Super divertido! Melhor do que o primeiro!

  6. Anselmo Luiz

    Claudio Fracasso ou melhor Fragasso,desculpe! Eu mesmo nunca assisti esse tal de Trolls 2 , já tente correr atras desse filme dentre outros, na epoca que as locadoras estavam se livrando dos antigos VHS dando lugar aos DVD e hoje, pasmem! nem locadora existe mais ,mas fiquei curioso de assisti-lo.. o cinema dele Fragasso faz não da para levar á serio eu ja assisti alguma das suas perolas em amostras o padrão é horrivel ,historia ridicula,atores canastroes ,cortes secos e efeitos especiais toscos são vistos na maioria de seus filmes,ótimo texto muito bom e divertido,feliz natal e espero que venham novos textos de filmes toscos com esse escrito por você.

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