Críticas

Let’s Be Evil (2016)

Um experimento secreto transforma crianças inteligentes em máquinas malignas nesta versão hi-tech de A Estirpe dos Malditos

Let´s Be Evil
Original:Let´s Be Evil
Ano:2016•País:EUA
Direção:Martin Owen
Roteiro:Elizabeth Morris, Martin Owen, Jonathan Willis
Produção:Elizabeth Morris, Martin Owen, Weena Wijitkhuankhan, Matt Williams
Elenco:Kara Tointon, Elizabeth Morris, Elliot James Langridge, Isabelle Allen, Helene Wilson

Cuidar e educar crianças é uma das tarefas mais difíceis que um ser humano adulto pode assumir, pelo menos até a invenção do Tablet. Legar esta tarefa para a tecnologia, privando as crianças do desenvolvimento emocional e a interação com seus pares é uma saída fácil, mas extremamente alienante. Não é a toa que os mais velhos dizem que seus filhos e netos já nascem com “memória de 8 giga” embutida. Em um futuro próximo baseado nesta perspectiva pessimista é onde se encontra a temática principal de Let’s Be Evil, dirigido e co-roteirizado por Martin Owen (L.A. Slasher).

Na história a protagonista é Jenny (Elizabeth Morris, que também co-produz e co-roteiriza o filme), uma jovem que precisa de dinheiro para custear as despesas crescentes de sua mãe doente e consegue um emprego como cuidadora de crianças superdotadas em uma instalação subterrânea experimental financiada por um poderoso conglomerado tecnológico. Causa estranheza imediata o fato de que esta “escola” possui um nível de segurança muito além do esperado e que tudo é controlado por computadores, através da sofisticada interface chamada Arial, uma entidade que, muito similar a HAL (2001: Uma Odisseia no Espaço), foi programada para oferecer assistência.

Nesta espécie de internato Jenny conhece seus outros colegas de trabalho, e únicos outros adultos no local, Tiggs (Kara Tointon) e Darby (Elliot James Langridge). Para se locomover lá dentro e receberem instruções, tanto os empregados quanto as crianças fazem uso de óculos de realidade aumentada – um Google Glass, se preferir – através da qual também a ação do filme é mostrada para o público, uma forma interessante de apresentação como um Found Footage ou POV.

As crianças se comportam como drones fielmente programados, esbanjando precisão e conhecimento, mas sem qualquer empatia uns com os outros e até Jenny e seus colegas também são proibidos de fazer qualquer interação com os infantes, contato que atrapalharia o desenvolvimento nas tarefas e o experimento, segundo Arial. Apenas uma delas, Cassandra (Isabelle Allen, Os Miseráveis), é que parece se destacar um pouco dos demais e, em um raro momento, revela para Jenny até o ponto em que não há escapatória, que a mente das crianças foram alteradas pela programação dos óculos, aplicando perversas (e mortais) travessuras nos adultos.

A ambientação estética de Let’s Be Evil é bem interessante, consegue superar evidentes limitações orçamentárias usando uma mistura de alta tecnologia e retro-futurismo através de luzes coloridas e painéis antiquados, numa pegada bem anos 80. Não há como não se corresponder com a claustrofobia causada pelos longos corredores subterrâneos, tão fabricada e fria como os pequenos antagonistas. Não há compaixão em nenhum lugar para se ver e a instalação industrial reflete muito disso, o contraste com o perfil amável, mas um pouco problemático de Jenny fica latente e é bem trabalhado.

Porém as coisas boas ficam restritas por aí…. Há falação demais na primeira metade que não leva a lugar nenhum, uma superexposição de situações que poderiam ficar implícitas ou que poderiam ser abreviadas para dar mais destaque para a ação e ao suspense. A necessidade de mostrar demais, deixando pouco para que a própria atmosfera faça seu papel, denota um pouco de insegurança com o material e, com isto, o dedo do espectador pode ficar comichando para avançar para as (poucas) cenas realmente boas e eficientes.

O que potencialmente poderia ser uma atualização para os tempos modernos de A Estirpe dos Malditos do longínquo ano de 1964 com uma pegada na crítica a esta sociedade excessivamente dependente da tecnologia ou um dos poucos filmes em found footage onde o uso do recurso de câmera poderia afetar efetivamente a história (já que há dúvidas sobre se o quanto do que os protagonistas estão enxergando através dos óculos é real ou projetado), termina com uma abordagem perdida e pouco ousada.

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