O Gato de Nove Caudas (1971)

O Gato de Nove Caudas
Original:Il gatto a nove code, Cat O' Nine Tails
Ano:1971•País:Itália
Direção:Dario Argento
Roteiro:Dario Argento, Luigi Collo, Dardano Sacchetti
Produção:Salvatore Argento
Elenco:James Franciscus, Karl Malden, Catherine Spaak, Pier Paolo Capponi, Horst Frank, Rada Rassimov, Aldo Reggiani, Carlo Alighiero, Vittorio Congia, Ugo Fangareggi

Depois de sua estreia de sucesso, com o giallo acidental O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), Argento viajou para divulgar o lançamento e colher os frutos de sua conquista. Ao retornar para a morada, teve contato com vários roteiros e propostas de filmes, como os escritos por Luigi Collo e Dardano Sacchetti, com mais um animal no título. O diretor italiano se trancou em sua residência para desenvolver o roteiro do que viria a se tornar O Gato de Nove Caudas (71), na época, seu filme menos adorado, mas um dos mais populares de sua carreira. Acabou se tornando o segundo de uma trilogia com animais no título, culminando no divertido Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, também de 1971.

Se o próprio Argento não vê com bons olhos O Gato de Nove Caudas, por que então o filme ainda é bem conceituado e um dos mais procurados do diretor? Na verdade, não é ruim, mas a trama arrastada e com toques científicos – por conta de uma pesquisa realizada no período, envolvendo os cromossomos que os criminosos possuem – é mais difícil digerir, assim como sua longa duração. Mas todos os elementos de mistério estão ali, desde as mortes violentas, as investigações e pistas deixadas no decorrer, o telefonema ameaçador e o final acelerado, com a revelação do assassino e sua motivação.

No enredo, o jornalista Carlo Giordani (James Franciscus, de De Volta ao Planeta dos Macacos, 1970) está cobrindo a invasão em um estudo de pesquisas de genes, onde aparentemente nada fora roubado. Ele esbarra no cego Franco Arnò (Karl Malden, de Sindicato dos Ladrões, 1954), que, na noite anterior, ao passear pelas ruas com a pequena Lori (Cinzia De Carolis), teria ouvido uma conversa sobre chantagem em um veículo próximo ao local. Sabendo da identidade do invasor, Dr. Calabresi (Carlo Alighiero) passa a ser a primeira vítima do misterioso assassino ao ser empurrado na direção de um trem em plena luz do dia. Argento faz questão de tornar a cena mais gráfica possível, mostrando o rosto da vítima em contato com o veículo e ainda seu corpo sendo mutilado violentamente. A imagem acabou sendo captada por um fotógrafo, o que intriga Arnò a ponto de fazê-lo contactar o jornalista para ajudá-lo nas investigações.

É claro que o fotógrafo será o próximo, assim como todos aqueles que estiverem perto de identificarem o vilão. Tanto o cego quanto Giordani também serão ameaçados e precisarão agir com cautela nas investigações, conscientes de que o criminoso não pretende encerrar sua onda de violência enquanto não calar todos os que tentarem encontrá-lo. Dentre os momentos mais interessantes, pode-se destacar o episódio claustrofóbico na cripta, com a dupla invadindo um cemitério em busca do medalhão de Bianca Merusi (Rada Rassimov), outra vítima, sufocada pelo assassino; e a sequência do leite envenenado, bastante influenciada pelos filmes do agente 007.

Argento novamente cria personagens peculiares e alivia a tensão com algumas doses de humor. O alívio cômico desse segundo filme é o personagem de Vittorio Congia, Gigi, O Perdedor, que ajuda Giordani nas suas investigações. Apesar do apelido, a apresentação do personagem ocorre durante uma competição de ofensas, mostrando de maneira criativa um elenco sempre carismático. Também merece menção a estonteante Morsella (Corrado Olmi, que também apareceria com menos destaque em Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza).

O que não funciona bem, além do que foi apontado, são algumas bobagens do roteiro como a do momento em que Lori é sequestrada e mantida no próprio instituto de pesquisas (!!!). Como o assassino resolveu pegar um táxi com a menina (!!!), Giordani e Arnò buscam informação sobre a vítima e o sequestrador, sendo que a descrição já poderia ter concluído o mistério. E, enquanto está com a menina, o assassino telefona para o cego e ameaça matá-la, mas diz que ficará com ela um tempo pois precisa resolver algumas coisas (!!!).

Com a trilha incidental do especialista Ennio Morricone, O Gato de Nove Caudas é um giallo com aspecto de western, como o próprio Dario Argento explica nos extras do DVD da Versátil, em sua versão completa. Ele já havia trabalhado com Sergio Leone e sentia uma vontade de misturar os gêneros, aproveitando seu talento nato para contar casos de mistério, os populares giallo. Realmente não está entre os melhores trabalhos do diretor, que atingiria a perfeição com Suspiria (77), mas é bem feito e intrigante, principalmente na explicação do título. Trata-se de um ditado popular sobre os noves rastros que Giordani deve seguir para descobrir a identidade do assassino, bastando apenas encontrar uma única cauda para que o enigma seja completamente desvendado.

É a resposta está bem ali, na busca pelo criminoso que possui um cromossomo a mais.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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