Críticas

O Lar das Crianças Peculiares (2016)

Burton descaracteriza uma obra que parece ter sido escrita por ele para Guillermo del Toro adaptar!

O Lar das Crianças Peculiares
Original:Miss Peregrine's Home for Peculiar Children
Ano:2016•País:UK, EUA, Bélgica
Direção:Tim Burton
Roteiro:Ransom Riggs, Jane Goldman
Produção:Peter Chernin, Jenno Topping
Elenco:Eva Green, Asa Butterfield, Samuel L. Jackson, Judi Dench, Rupert Everett, Allison Janney, Chris O'Dowd, Terence Stamp, Ella Purnell, Finlay MacMillan, Lauren McCrostie, Hayden Keeler-Stone, Georgia Pemberton

Tim Burton deve ter frequentado o orfanato da srta. Peregrine até decidir pela carreira de cineasta. Suas produções são envoltas de peculiaridades, sombrias e poéticas, seja nos aspectos técnicos ou na presença das personagens mais fascinantes da Sétima Arte. Talvez seja por essa razão que ele decidiu assumir o comando da obra Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children aka O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs, porque ninguém mais poderia fazê-lo com a mesma propriedade. Uma obra considerada difícil de adaptar, mas que possui a essência de tudo o que Burton fez em sua carreira ao trazer personagens bizarros e mesclar com poesia, dramaticidade e beleza gótica.

Vocês têm certeza de que não fui eu quem escreveu esse livro? Parece algo que eu teria feito…”, disse o diretor, em uma daquelas frases que estampam a versão literária. A Fox adquiriu os direitos da adaptação em 2011, e já conversava com Burton desde então, enquanto ainda havia um longo caminho até que o enredo ficasse pronto para as filmagens, iniciadas em agosto de 2014. Até a estreia oficial em setembro de 2016, o filme passeou por diversas datas, entre 2015 até o Natal do ano passado. Nesse processo lento foram lançados um segundo livro, Hollow City, e até um terceiro, Library of Souls, enquanto os fãs da obra original ainda aguardavam pela primeira adaptação.

Um grande elenco – Eva Green, Samuel L. Jackson, Rupert Everett, Judi Dench, Terence Stamp… – sob o comando de um cineasta-escultor como Burton! Grandes chances de nascer daí um novo clássico, daqueles que abocanham estatuetas e se tornam febre entre os fãs! Com um orçamento estimado em $110 milhões, o filme arrecadou por volta de $285 pelo mundo – um sinônimo de sucesso, talvez? Com tantas boas ferramentas em mãos, por que, então, O Lar das Crianças Peculiares não deu certo, recebendo tantas críticas negativas? É provável que a resposta esteja nas inúmeras alterações no roteiro em relação ao livro, e também no resultado bem aquém do que Burton seria capaz de fazer. Um filme bem feito até, mas que tem um último ato bem distante do que se podia esperar, quase numa bagunça narrativa, entre monstros, viagens entre fendas e um Samuel L. Jackson extremamente caricato.

O jovem Jake (Asa Butterfield) tem ouvido desde pequeno as incríveis histórias de seu avô Abe Portman (Terence Stamp) sobre monstros, crianças peculiares e o orfanato onde passou boa parte da infância, durante a Segunda Guerra Mundial. Suas narrações, sempre ilustradas por fotos dos personagens magníficos com quem conviveu, sempre foram consideradas pela família como parte de sua demência. Certa noite, o menino recebe um telefonema do avô e vai até sua casa, e o encontra caído na floresta próxima, sem os olhos. Antes de morrer, ele diz para Jake “procurar a ilha, conversar com o pássaro, passar pela fenda“, entre outras frases aparentemente sem sentido. Apoiado pela psicóloga Dra. Golan (Allison Janney) e por um presente que ganhou em seu aniversário e que continha uma carta de uma tal Srta. Peregrine para o avô, seu pai Frank (Chris O’Dowd) concorda em viajar com ele para Cairnholm a fim de separar o que é fantasioso da realidade.

Na ilha, enquanto o pai se maravilha com as aves, Jake é ajudado pelas crianças locais para chegar às ruínas do Orfanato, destruído por um míssel em 3 de setembro de 1943. Próximo de desistir de sua aventura, consciente dos delírios do avô, o rapaz começa a enxergar as crianças peculiares e é conduzido a uma fenda que o leva até o dia da bomba. Lá ele conhece o orfanato antes da destruição, comandado pela excêntrica srta. Peregrine (Eva Green) e um grupo de crianças estranhas que ele lembrava das fotos: Emma Bloom (Ella Purnell), mais leve que o ar, precisando de botas pesadas para se manter no solo; Bronwyn Bruntley (Pixie Davies), que é extremamente forte; Fiona Frauenfeld (Georgia Pemberton), capaz de controlar as plantas; Hugh Apiston (Milo Parker), com abelhas no estômago; Claire Densmore (Raffiella Chapman), com uma criatura voraz na nuca; Horace Somnusson (Hayden Keeler-Stone), e sua capacidade de projetar os sonhos; Millard Nullings (Cameron King), o garoto invisível; Enoch O’Connor (Finlay MacMillan), o que é capaz de dar vida a objetos inanimados a partir da introdução de um coração; e os sinistros gêmeos (Joseph e Thomas Odwell).

A srta. Peregrine, cuidadora das crianças, tem como peculiaridade a capacidade de se transformar em um falcão peregrino – ela faz parte de uma espécie denominada “Ymbrynes” – e também pode manipular o tempo. Ela criou um loop temporal, aprisionando o Orfanato e todas as pessoas da ilha no dia 3 de setembro de 1943, evitando assim a destruição do local pelo bombardeio aéreo. Segundo Peregrine, somente pessoas peculiares conseguem atravessar as fendas temporais, o que indica que tanto Abe quanto Jake possuem alguma habilidade especial. A de Jake é a de enxergar os invisíveis Hollows, os peculiares que tentaram um meio de se socializar e acabaram se transformando em aberrações, uma espécie de Slenderman, que mantêm o aspecto humano se alimentando de olhos de peculiares. Assim, Jake se une às crianças para enfrentar os monstros, liderados pelo terrível Sr.Barron (Samuel L. Jackson).

Não é uma história de enredo simples. Tem toda uma mitologia própria e fantástica, cujos elementos se encaixam de maneira interessante nessa batalha mágica. É possível encontrar simbolismos por todos os lados, retratando o bullying e até os “especiais“, crianças que possuem alguma deficiência e são afastados pela sociedade muitas vezes preconceituosa. Temas que são bem administrados por Burton, que dá um tom belíssimo na acentuação dos poderes dos pequenos, mostrando suas habilidades no trabalho em grupo. Só não é fácil digerir alguns efeitos especiais, como na retratação dos Hollows ou na movimentação dos bonecos despertados por Enoch. Também não gostei dos esqueletos no final, fazendo eu senti saudades do stop-motion do exército de Uma Noite Alucinante 3.

O outro ponto questionável é o final. Não li a obra de Ransom Riggs, mas muitos comentários, principalmente de meus alunos, quanto às diferenças gritantes. Curioso, fui atrás das diferenças entre as versões para ver se era cisma de fã e fiquei realmente sem entender porque houve tantas mudanças. Como achei o final do filme meio atropelado e bobo, busquei me informar sobre as páginas finais do livro e me impressionei com as alterações feitas. Sem apresentar spoilers, apenas imagino que a sequência final seja mais distante do estilo Burton de fazer cinema, e o diretor, com o apoio do roteiro de Jane Goldman, tentou transformar a produção em uma aventura juvenil como um novo Harry Potter ou aquelas que passavam antigamente na Sessão da Tarde. E o livro é bem mais do que isso.

Como fã do Cinema de Burton, vi um filme interessante e divertido, mas bem distante de sua filmografia peculiar de produções góticas. Parece que ele foi mesmo o autor da obra, mas não da adaptação. Imagino um resultado melhor se ela tivesse ido para as mãos de Guillermo del Toro, com um tom próximo de O Labirinto do Fauno! Quem sabe, futuramente ele não encontra uma fenda temporal e retorna para seus melhores momentos como diretor e contador de histórias fantásticas?

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