Críticas, Quadrinhos

Alena (2017)

Como nas melhores histórias de horror, o sobrenatural e o medo presentes em Alena servem a um propósito maior e existe espaço para interpretações além do que está retratado nos quadros da HQ.

Alena
Original:Alena
Ano:2017•País:Suécia
Páginas:120• Autor:Kim W. Andersson•Editora: AVEC Editora

O Boca do Inferno teve acesso exclusivo à graphic novel Alena, que a AVEC Editora lança hoje no Brasil. Confira o primeiro review em português da premiada obra de Kim W. Andersson.

A vida da jovem Alena é um inferno. Desde que ingressou em um internato de classe alta, ela foi importunada diariamente pelas meninas mais populares da escola. Sua única amiga, Josefin, se mostra então determinada a não deixar que Alena sofra mais nenhum tipo de mal naquele lugar repugnante e passa a agir para combater qualquer pessoa que possa querer maltratá-la. Há apenas um problema: Josefin está morta há um ano.

A premissa de Alena, graphic novel sueca escrita e ilustrada por Kim W. Andersson, é simples como a maioria das histórias envolvendo adolescentes e fantasmas. O texto e a arte de Andersson evocam o tempo todo o cinema de horror japonês, com seus fantasmas rancorosos sedentos por vingança e a melancolia constante que assombra os vivos, mas a leitura atenta de Alena, esta premiada HQ sueca que a AVEC Editora está lançando hoje no Brasil, revela sutilezas e comentários que vão além do horror fantasmagórico e sobrenatural.

A história abre com uma tocante – e tensa – discussão entre Alena e sua amiga Josefin. Com ciúmes do envolvimento recente de Alena com um garoto, a amiga Josefin exige que ela admita que a ama. As duas já dividiram um momento íntimo além da amizade, mas, segundo palavras da própria protagonista, o que aconteceu foi “errado” e “nojento”. O que acontece em seguida é um mistério que irá se revelar aos poucos para o leitor e que atormenta Alena por um ano.

Estas primeiras páginas dão o tom da história que Andersson decidiu contar. Segundo o autor, sua base de fãs é formada principalmente por adolescentes, o que o fez optar por uma história de amor e horror e que falasse diretamente com os jovens. Mas não pense você, leitor mais velho, que a leitura não será apreciada por aqueles que, como eu, já deixaram o colegial há muito tempo. A construção do roteiro, revelando os mistérios aos poucos, com várias reviravoltas espalhadas pelos oito capítulos de Alena, torna a leitura fluida e instigante, mantendo o leitor preso à história até o final.

O autor ainda recheia sua história de “horror romântico” com críticas ao preconceito social e sexual, abuso infantil, violência sexual e, é claro, bullying. Todos estes hábitos horríveis estão ocultos pela perfeição da rica escola onde Alena vai estudar, como o cheiro de suor nos uniformes das belas e perfeitas jogadoras do time de lacrosse do colégio. Andersson usa seu traço bastante expressivo para ressaltar ainda mais estas imperfeições. Os rostos de seus personagens são caricatos e suas expressões, faciais e corporais, distorcidas como suas vidas e preconceitos.  Este recurso pode causar estranhamento no início, mas à medida que a leitura flui e o leitor se familiariza com o horror no dia a dia daqueles personagens, suas expressões exageradas acabam se revelando apenas uma extensão de suas psiques distorcidas. Há ainda um pequeno elemento, constante ao longo da HQ, que dá pistas que conduzem à solução do mistério por trás de Alena. Mas deixarei para o infernauta localizar e interpretar este elemento.

Como nas melhores histórias de horror, o sobrenatural e o medo presentes em Alena servem a um propósito maior e existe espaço para interpretações além do que está retratado nos quadros da HQ. Sua qualidade foi atestada quando, em 2012, Alena faturou o prestigiado prêmio  de quadrinhos The Adamson Statue. Três anos depois, a graphic novel foi levada para as telas do cinema em um filme homônimo dirigido por Daniel di Grado produzido na Suécia, país de origem da HQ. O ano mal começou e já temos uma posição garantida nas melhores HQs de horror do ano. Cortesia de Kim W. Andersson e da AVEC Editora, que segue mantendo um altíssimo padrão em seu catálogo de quadrinhos e trazendo mais uma forte personagem feminina para este meio tão dominado por homens superpoderosos em roupas espalhafatosas.

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Rodrigo Ramos

Rodrigo Ramos

Designer por formação e apaixonado por HQs e Cinema de Horror desde pequeno. Ao contrário do que parece ele é um sujeito normal... a não ser quando é Lua Cheia. Contato: rodrigoramos@bocadoinferno.com.br

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