Críticas

Fragmentado (2016)

Um filme cheio de personalidade, que traz Shyamalan em sua mais coesa forma!

Fragmentado
Original:Split
Ano:2016•País:EUA
Direção:M. Night Shyamalan
Roteiro:M. Night Shyamalan
Produção:Marc Bienstock, Jason Blum, M. Night Shyamalan
Elenco:James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson, Betty Buckley, Jessica Sula, Izzie Coffey, Brad William Henke, Sebastian Arcelus

Quando surge um projeto com o rótulo “Shyamalan“, a filmografia do diretor entra em pauta com questionamentos – e nenhum consenso – sobre a qualidade de seus trabalhos anteriores. E o curioso é que essa comparação é feita por todas as pessoas, não apenas os críticos, mostrando que o cineasta já se tornou reconhecido pela obra e permite ampla reflexão. “Depois da Terra é uma bomba…“, “Gostei de O Sexto Sentido e A Vila, já Sinais achei muito chato.“, “Ele voltou com tudo em A Visita!“. Assim, independente de você ter gostado de um e odiado outro, um novo filme do indiano merece uma espiada pelas propostas sempre inusitadas, pela direção de elenco eficiente e pelo final, muitas vezes, surpreendente.

Fragmentado está um degrau acima dessa tendência “shyamalania“, uma vez que a América foi a primeira a expressar em audiência e elogios que o diretor havia finalmente “voltado com tudo“. É provável que a reação também seja positiva por aqui, sem muita opinião adversa, o que chega a ser irônico pelo título original. “Split” significa, entre outras traduções, “Dividido“, e representa as 23 personalidades do antagonista Kevin (James McAvoy, sensacional), o paciente da Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley, de Fim dos Tempos, 2008) que um dia decide sequestrar três garotas para uma oferta especial.

Claire Benoit (Haley Lu Richardson) e Marcia (Jessica Sula) não veem com bons olhos a problemática e antissocial Casey Cooke (Anya Taylor-Joy, de A Bruxa, 2015). Garota de poucas palavras, sua aversão às pessoas se expressa em atitudes estranhas como a de provocar uma detenção escolar para se afastar da sala de aula. O destino das três é traçado quando Kevin as mantém num pequeno ambiente, de uma construção secreta. Sem saber inicialmente o motivo de estarem ali, elas logo notam que o anfitrião é dotado de personalidades diversas, e que estas farão visitas rotineiras, permitindo aos poucos que descubram que o problema maior ainda está por vir.

Enquanto tentam encontrar meios de sair dali – à exceção de Casey, que começa a agir a partir das personalidades -, cenas do passado de Casey apresentam sua formação, desde pequena quando saía para caçar com o pai (Sebastian Arcelus) e o tio John (Brad William Henke). Nesse cenário, a Dra. Karen Fletcher atende ao pedido urgente de um contato com Barry, sua identidade artista, e tenta mostrar para cientistas pelo mundo que o Transtorno dissociativo de identidade pode alterar habilidades, força física e até doenças. “Um indivíduo com múltiplas personalidades pode alterar a química de seu corpo com os pensamentos.“, ela conta.

Embora possam envolver alterações físicas, é a interpretação de James McAvoy que torna tudo plausível. Além do artista de língua presa, Barry, destacam-se o inocente Hedwig, de apenas 9 anos; a fina Patrícia; e o frio e asqueroso Dennis. Suas personalidades distintas exigem o esforço do ator para comprovar as identidades diversas pela entonação da voz e pelos trejeitos, até mesmo no modo como olha o mundo e analisa as demais personagens. Fascinada pelo caso, a doutora sente que tem em mãos algo extraordinário e ao mesmo tempo perigoso, não querendo acreditar na existência de uma 24ª identidade, conhecida como “a besta“.

Ele não permite que toquemos em vocês.” Além da tensão proposta pela necessidade de fuga do cativeiro, como visto no sensacional thriller Rua Cloverfield, 10, M. Night Shyamalan prepara o público para a chegada da besta, a personalidade que ainda não se manifestou. O modo como ela é descrita, fisicamente e nas atitudes, amplia a sensação de insegurança das vítimas, e desperta no espectador um crescente calafrio, algo que não acontecia nessa mesma proporção desde O Sexto Sentido (1999). E é uma característica do trabalho do cineasta lidar com “bestas“, seja aquela que passeia pela floresta de A Vila (2004), nas imediações do prédio de A Dama na Água (2006) ou a que circunda o milharal de Sinais (2002) e a fazenda de A Visita (2015). Ele consegue incomodar pela perspectiva que se desenvolve durante 70% de seu filme até o último ato, com a revelação final.

Também estão presentes em Fragmentado outras particularidades do diretor, como a da câmera estática na simples observação do que acontece no ambiente e na escolha dos ângulos que esconderão detalhes e que serão revelados pelos diálogos. Observe, por exemplo, o prólogo com a primeira aparição da protagonista, já evidenciando sua condição problemática. Aliás, não são apenas os disfarces de McAvoy que fazem a diferença, mas a expressividade de Anya Taylor-Joy e a visão materna de Betty Buckley, com divisão dos méritos. O bom humor de Shyamalan é mais um dos atrativos do longa, reservando momentos divertidos entre os episódios angustiantes.

No entanto, não são apenas a trama caprichada, as interpretações ou a chegada da besta que explodirão a produção em elogios. O “final surpresa“, uma das identidades do diretor, está de volta na melhor forma, e levará boa parte do público – principalmente os fãs do diretor – a expressar interjeições diversas, como “caramba!“, “vixe!” e “eita!“. E, por essa característica, recomendo que você assista ao filme o mais breve possível ou se afaste das redes sociais para evitar que a surpresa seja antecipada antes de você testemunhá-la na tela grande.

Assim, Fragmentado se tornará o filme com menos opiniões adversas do diretor. Em parte, pelas qualidades apresentadas em seu enredo repleto de simbologias, mas, em sua maioria, pela sempre presente identidade do autor.

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2 Comentários

  1. PEDRO E. MATOS

    Sessão da tarde. O monstro acabou com um filme até interessante. Apagaram as postagens antigas ?

  2. Juninho

    Excelente. Muito bom mesmo. Vale a pena assistir

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