Críticas

Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011)

Uma visão evidente de uma sociedade altamente machista que nem uma forte nevasca seria capaz de esconder!

Millenium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Original:The Girl with the Dragon Tattoo
Ano:2011•País:EUA, Suécia, Noruega
Direção:David Fincher
Roteiro:Steven Zaillian, Stieg Larsson
Produção:Ceán Chaffin, Scott Rudin, Søren Stærmose, Ole Søndberg
Elenco:Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgård, Steven Berkoff, Yorick van Wageningen, Joely Richardson, Geraldine James

Aos 15 anos de idade, o sueco Stieg Larsson testemunhou o estupro coletivo de uma garota chamada Lisbeth. Sentindo-se culpado por não ter feito nada que pudesse impedir o ato, ele passou a dedicar sua vida numa luta contra a violência e o abuso sexual contra as mulheres. Assim, desenvolveu três obras-primas da literatura universal, conhecidas como a Trilogia Millenium. O autor até chegou a começar a escrever um quarto livro sobre o tema, mas sua morte repentina em novembro de 2004 impediu que o projeto fosse finalizado até mesmo por sua parceira Eva Gabrielsson. De posse do notebook do escritor, ela até tentou abrir os arquivos, porém Larsson protegeu o material pois usava seu computador também para investigar racistas e neo-nazistas suecos e não queria que Eva fosse envolvida nisso.

Influenciado pelo assassinato de duas mulheres (Melissa Nordell e Fadime Sahindal), mortas por homens ou vítimas de crime de honra, e por atos de violência proferidos por pessoas inescrupulosas, milionários egoístas e traidores, Larsson escreveu seus três romances: “Os Homens que Não Amavam as Mulheres“,”A Menina que Brincava com Fogo” e “A Rainha do Castelo de Ar“, lançados no Brasil em 2008 e 2009. O sucesso de venda foi tão incrível que a produtora sueca Yellow Bird resolveu realizar a a adaptação da Trilogia, com a parceria de empresa The Danish, na Escandinávia em 2009. Depois de exibidos em versões estendidas de aproximadamente 180 minutos cada em uma minissérie em 6 partes na TV sueca, os filmes foram lançados em DVD e Blu-Ray em 14 de julho, numa coleção separada, e depois em 24 de novembro num box com a trilogia completa.

A princípio, somente o primeiro filme teria um lançamento nos cinemas, com os demais sendo exibidos apenas na TV, mas o tremendo sucesso do original fez com que todos tivessem uma oportunidade nas telas grandes. Os Homens que Não Amavam as Mulheres foi dirigido por Niels Arden Oplev, enquanto as sequências tiveram o comando de Daniel Alfredson; já o roteiro dos dois primeiros foi adaptado por Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg, sendo que o último, por Ulf Rydberg e Jonas Frykberg.

É claro que uma trilogia de sucesso não falada em língua inglesa logo serviria de convite para a produção de um remake americano, estrelado por nomes conhecidos, em filmes copiados cena-a-cena e extremamente oportunistas. Era de se esperar que algo hollywoodiano fosse feito, com aqueles exageros típicos da trajetória cinematográfica do país, sem criatividade ou ousadia, tornando-se um produto desnecessário e puramente comercial.

Para nossa surpresa, não é o que acontece com Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres! O longa respeita a obra original, melhora algumas partes confusas do filme sueco e refina o elenco com ótimos atores como Daniel Craig, Stellan Skarsgård e Christopher Plummer, além de uma excelente atuação de Rooney Mara (a Nancy, do remake de A Hora do Pesadelo). Foi, sem dúvida alguma, o primeiro grande lançamento nos cinemas brasileiros de 2012!

Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres marca o retorno do trabalho em conjunto do diretor David Fincher e dos compositores Atticus Ross e Trent Reznor (fundador da banda “Nine Inch Nails“). O trio esteve junto do longa que conquistou elogios no Oscar, A Rede Social. Embora tenha tido sucesso com filmes como O Curioso Caso de Benjamin Button e Zodíaco, gosto de lembrar de Fincher pelos feitos impecáveis em Clube da Luta (1999) e Seven – Os Sete Crimes Capitais (1995).

Falar sobre a trama de Millenium pode ser arriscado. Com tantas surpresas e mudanças narrativas, é impossível explicitar os acontecimentos sem esbarrar em spoilers que possam atrapalhar a diversão. O que pode ser dito é que a trama acompanha durante boa parte da primeira hora dois personagens distintos, em situações aparentemente não relacionadas: Mikael Blomkvist (Daniel Craig), o jornalista e editor da revista Millenium, e Lisbeth Salander (Rooney Mara), uma investigadora e hacker que trabalha numa empresa de segurança.

Especialista em desmacarar corrupção financeira, Mikael torna-se alvo de suas próprias armas quando é acusado de difamação por uma importante personalidade sueca. Sem provas, o períodico em que trabalha passa a sofrer denúncias na mídia, obrigando o jornalista a buscar refúgio em Hedestad a pedido do patriarca da família Vanger que quer descobrir a todo custo quem assassinou sua sobrinha. Henrik (Christopher Plummer) contrata Mikael com o pretexto de usá-lo para escrever a biografia da família, sendo que na verdade precisa que ele investigue o sumiço da garota, mesmo sabendo que isso irá mexer com os escrúpulos dos Vanger e gerar possíveis conflitos para a realização da tarefa.

Como descobrir o que aconteceu no local há mais de 40 anos, mais precisamente em 1966? Foi durante um famoso acidente na única ponte de saída da cidade que a jovem herdeira do império industrial, Harriet Vanger (Moa Garpendal), desapareceu do mapa. Como ela costumava presentear Henrik com uma flor emoldurada em seu aniversário e os presentes continuam chegando, ele acredita que o assassino dela o faz para provocá-lo. Com a promessa de ganhar provas contra a personalidade que está acusando-o de difamação, Mikael muda-se para a cidade, em seu inverno mais rigoroso, em companhia de um gato para tentar desvendar o mistério.

Do outro lado do tabuleiro está a esquisita Lisbeth. Estranha em todos os aspectos, a jovem gótica e tatuada – no título original “The Girl with the Dragon Tattoo” – possui uma memória fotográfica e grandes habilidades de investigação. Depois que seu pai sofre um derrame, ela passa a ser considerada dependente pela justiça, sofrendo nas mãos de um advogado sem escrúpulos. Enquanto busca um meio de se livrar do abuso que sofre, a garota acaba sendo contactada por Mikael, o jornalista que havia sido investigado por ela há algum tempo. Juntas, essas duas personagens completamente diferentes se envolvem numa busca por um serial killer de mulheres, percebendo que só conseguirão enfrentar o mal com ele próprio, como sugere a tagline americana.

São muitas as qualidades de Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres. Desde a fotografia excepcional de Jeff Cronenweth (também de A Rede Social), que registra com cuidado a paisagem gélida da Suécia em seu inverno mais intenso dos últimos 20 anos, até a montagem acertada de Kirk Baxter e Angus Wall, parceiros de longa data do diretor. A ótima edição associada ao roteiro coerente de Steven Zaillian (O Homem Que Mudou o Jogo) permitem à produção uma superioridade em relação ao filme original.

A versão de Niels Arden Oplev já era excelente, mas pecava pela narrativa levemente confusa em dois momentos: no primeiro ato, com a apresentação dos problemas jurídicos de Mikael, e na sequência final, quando Lisbeth resolver adotar uma peruca loira. Por outro lado, seu longa supera o remake na revelação final, permitindo uma sensação de surpresa maior ao espectador. David Fincher faz uma condução quase orgânica nesse ponto, evitando que a dramaticidade da situação pudesse ferir o que o enredo privilegiou.

Quanto ao elenco, Daniel Craig está bem no papel do jornalista, conseguindo evitar comparações com James Bond ao conservar uma discreta barriguinha. Contudo, Michael Nyqvist ganha pontos por transmitir mais emoção ao personagem – tendo seu ápice nos segundo e terceiro filmes. Já Rooney Mara fez de sua Lisbeth Salander uma garota mais sensível do que a versão de Noomi Rapace, que é mais independente e felina como o gato que acompanha Mikael. Para fins de comparação, notem a reação diferenciada de cada atriz após ter transado como o jornalista! Ambas são excelentes atrizes, carismáticas e sensuais, que ainda terão muitos grandes papéis pela frente. Imagino que a Noomi deve ter se arrependido por não ter aceitado reprisar seu papel no remake, tendo em vista a indicação ao Oscar recebida por Rooney.

A abertura da refilmagem é absolutamente fantástica! Psicodelia, movimentos, tatuagem, caleidoscópio e “Immigrant Song“, do Led Zeppelin, levarão o público ao delírio, principalmente se o filme for visto numa sala XD! Após uma segunda conferida, as imagens passam a fazer ainda mais sentido, tornando a experiência muito mais proveitosa.

Sem nunca cansar o espectador, mesmo com seus 158 minutos, Millenium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres é uma ótima opção para aqueles que procuram uma trama de suspense, mistério e assassinato, que trabalha de forma eficiente a construção de seus personagens e possui elenco e roteiro excelentes. Uma visão evidente de uma sociedade altamente machista que nem uma forte nevasca seria capaz de esconder!

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1 Comentário

  1. Yves

    Nunca que esse daí supera o original! Em nada!

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