Críticas

Demônio de Neon (2016)

Refn continua impressionando com sua direção virtuosa, mas Demônio de Neon é uma tentativa falha de crítica a qualquer coisa e uma demonstração de autoindulgência do cineasta

Demônio de Neon
Original:The Neon Demon
Ano:2016•País:EUA
Direção:Nicolas Winding Refn
Roteiro:Nicolas Winding Refn, Mary Laws, Polly Stenham
Produção:Lene Børglum, Sidonie Dumas, Vincent Maraval
Elenco:Elle Fanning, Karl Glusman, Jena Malone, Bella Heathcote, Abbey Lee, Desmond Harrington, Christina Hendricks, Keanu Reeves, Charles Baker, Stacey Danger, Jamie Clayton, Rebecca Dayan, Rachel Dik.

Fazer comparações com os trabalhos anteriores de Nicolas Winding Refn é inevitável quando assistimos a Demônio de Neon, mais recente longa do cineasta dinamarquês conhecido por sua direção virtuosa, que lhe rendeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2011, pelo filme Drive.

Demônio de Neon apresenta um roteiro (escrito a seis mãos) simples e rapidamente identificável. Nele, somos apresentados a Jesse (Fanning), uma adolescente de beleza única, que aporta em Los Angeles vindo sabe-se lá de onde, e rapidamente chama a atenção de figurões da indústria da moda, fazendo com que ela obtenha rapidamente uma escalada ao sucesso das modelos, e junto com isso também desperte a inveja de outras beldades (Heathcote e Lee), bem como outros tipos de interesse na maquiadora Ruby (Malone). Pronto. É isso. Se o espectador provavelmente já viu algum filme ou produto audiovisual com uma trama parecida com a descrita acima, não é a novidade narrativa que traz algum frescor a Demônio de Neon, mas sim o estilo do diretor Refn, que faz com que uma historinha simples e manjada (a exemplo de Drive, vale lembrar) ganhe um novo valor quando transposta para a linguagem audiovisual. Aqui não é diferente. Visualmente deslumbrante, seu novo longa parece ter sido concebido para ter cada um de seus planos emoldurado e exibido em uma galeria de arte, tamanha perfeição da mise en scène construída pelo diretor. Reparem, por exemplo, na cena em que Jesse encerra um desfile como destaque da coleção, e o jogo de cores (vermelho/azul) e formas é responsável por criar um ponto de virada decisivo para a personagem. Aliás, assim como naquele filme de 2011, novamente Cliff Martinez retorna como compositor e faz mais uma vez uma trilha sonora impactante, repleta de arranjos eletrônicos.

Porém aqui alguns problemas saltam aos olhos. Ignorando qualquer interesse sobre suas personagens, o filme se limita a delineá-las de maneira rasa, unidimensional, sem qualquer subtexto, aliás, criando a impressão de que as atrizes e atores do filme não passam de objetos de cena, não criando identificação alguma com o espectador. O filme ainda é cheio de cenas que, enquanto metáfora ou alegoria, falham ao exercer algum sentido na trama, como aquela que mostra uma onça dentro do quarto de Jesse. Outras dessas cenas soam apenas de mau gosto, como aquelas que envolvem abuso sexual e necrofilia.

E já que não há como analisar de maneira profunda o trabalho do elenco do filme, resta avaliar alguma possível intenção de crítica que o longa possa oferecer. E nisso a meu ver Demônio de Neon também fica devendo. Parecendo em diversos momentos criticar a indústria da moda, da fama, e da beleza superficial, o filme acaba sendo vítima do próprio discurso que tenta veicular. Afinal, basta ver, entre outros aspectos, que Refn alimenta o próprio ego ao colocar nos créditos iniciais suas próprias iniciais, como se afirmasse: Ei, este é um produto da grife N.W.R. Ao que parece, a autoindulgência fez mais uma vítima.

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3 Comentários

  1. GGB

    Pra ver só… o que foi encarado como uma falha pela crítica é o que me fez achar o filme muito bom. Ser todo cheio de prepotência e exaltação do estilo sobre o conteúdo é o ponto alto do filme. Ele ser vazio e superficial demonstra que assim é a indústria da moda. Não só da moda, das indústrias e das próprias relações em geral hoje em dia. Até o fato do Keanu Reeves, ator muito conhecido, fazer só uma pontinha e não adicionar muito à trama entra nisso: quantos filmes já não fizeram isso, usar da fama – algo superficial – de um ator que quase nem aparecerá só pra vender uns ingressos a mais? Jared Leto em Esquadrão Suicida que o diga. Puro marketing.

    Agora, as questões que fica pra mim e que ainda não consegui responder: o diretor pensou em tudo isso? Foi proposital? Caso não tenha, isso faz o filme ser ruim? Afinal, ele me fez pensar sobre tudo isso enquanto assistia, só não tenho certeza se por querer ou não…

    Enfim, caso tenha sido a primeira opção, NWR (não tinha nem percebido que se parece com grife de perfume antes de ler na crítica, o que, inclusive, me fez gostar mais ainda do filme) foi genial, usando daquilo que está criticando para mostrar o quão fútil aquilo é. Caso tenha sido a segunda, é apenas um diretor prepotente mesmo, mas um diretor prepotente de quem eu gosto muito de assistir os filmes, mesmo que de uma maneira irônica, assim como assistimos a filmes B e trash, como o clássico The Room por exemplo.

    Talvez seja essa a minha definição final para Demônio de Neon: um filme B/trash em seu conteúdo, porém excelente tecnicamente, gerando uma dualidade que é, no mínimo, extremamente interessante.

  2. Ramiro

    Gosto de filmes estranhos e experimentais (como o já longínquo Dogville), mas esse definitivamente não me disse nada. Nem estranho ele consegue ser. Fujam!

    • Leandro Merce

      Fujam?? Um dos melhores que vi esse ano! Filmaço!

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