Críticas

O Carrasco de Pedra (1966)

É um filme completamente despretensioso, que acaba divertindo justamente por sua história simples e ingênua!

Carrasco de Pedra
Original:It!
Ano:1966•País:UK
Direção:Herbert J. Leder
Roteiro:Herbert J. Leder
Produção:Herbert J. Leder
Elenco:Roddy McDowall, Jill Haworth, Paul Maxwell, Aubrey Richards, Ernest Clark, Oliver Johnston, Noel Trevarthen, Ian McCulloch, Alan Sellers, Richard Goolden, Russell Napier, Dorothy Frere, Frank Sieman, Steve Kirby, Mark Burns, Tom Chatto, Raymond Adamson, Lindsay Campbell, Brian Haines, John Baker.

“Balas não podem matá-lo! Fogo não pode queimá-lo! Água não pode afogá-lo! Como nós poderemos destruí-lo antes que ele nos destrua?”

O cinema fantástico produzido nos saudosos anos 1960 foi principalmente caracterizado por uma infinidade de filmes de baixo orçamento totalmente despretensiosos, e que com suas histórias simples (mesmo utilizando-se de roteiros cheios de falhas), e com seus efeitos especiais precários, conseguiam divertir de uma forma inusitada, sempre sendo relembrados pelos fãs e transformados pelos colecionadores em preciosas e cultuadas raridades.

Foram dezenas de filmes de puro entretenimento como as produções sangrentas do diretor Herschell Gordon Lewis, destacando-se Banquete de Sangue (1963), por sua violência explícita, ou o magnífico ciclo de filmes de Roger Corman inspirados na obra do escritor Edgar Allan Poe, ou as diversas produções góticas da “Hammer” inglesa, que revitalizaram o cinema de horror com seus monstros fotografados em cores, ou os filmes de monstros japoneses nos grandes confrontos entre Godzilla e criaturas similares, ou o obscuro Dementia 13 (1963), primeiro filme de Francis Ford Coppola, ou ainda os filmes italianos de Mario Bava como Black Sabbath (1964) e O Planeta dos Vampiros (1965), além dos clássicos consagrados como Psicose (1960), Os Inocentes (1961), Desafio ao Além (1963), O Homem dos Olhos de Raio-X (1963), A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e O Bebê de Rosemary (1968), entre muitos outros.

Mais uma outra preciosidade dessa geração é o filme inglês Carrasco de Pedra (It!, 1966), dirigido, escrito e produzido pelo desconhecido Herbert J. Leder, e trazendo o ótimo ator Roddy McDowall liderando o elenco. Com um argumento modesto, explorando basicamente a famosa lenda do “Golem“, uma estátua de pedra que ganha vida e torna-se um monstro assassino, o filme é outro exemplo de uma diversão sem compromisso, típico da década de 1960.

Na história, o curador de um museu inglês, Harold Grove (Ernest Clark), e seu assistente, Arthur Pimm (Roddy McDowall), estão investigando um incêndio que destruiu um dos galpões que guardava obras de arte. Misteriosamente, eles encontram uma única peça intacta e não destruída pelo fogo: uma grande estátua de pedra no formato de um homem. Após a morte misteriosa de Grove, a estátua é levada até o museu causando um estranho fascínio em Pimm, que acaba descobrindo uma terrível maldição relacionada à tradicional lenda do “Golem“. Segundo a lenda, uma estátua de pedra de 1500 Kg teria sido criada pelo Rabbi Loew na antiga Tchecoslováquia, na cidade de Praga, durante o século XVI, e teria o poder de possuir vida própria sendo a responsável por mortes e destruição, seguindo as vontades de quem descobrisse como manipular a maldição e consequentemente os atos da estátua viva, que representaria a fúria e ódio primitivos da humanidade.

“Aquele que encontrar o segredo da minha vida aos seus pés, eu servirei a ele até o fim dos tempos. Aquele que me invocar no século XVII, cuidado, porque eu não poderei ser destruído pelo fogo. Aquele que me invocar no século XVIII, cuidado, porque eu não poderei ser destruído pelo fogo nem pela água. Aquele que me invocar no século XIX, cuidado, porque eu não poderei ser destruído pelo fogo, nem pela água, nem pela força. Aquele que no século XX ousar me invocar, cuidado, porque nem pelo fogo, nem pela água, nem pela força e nem por nada criado pelo Homem, poderei ser destruído. Aquele que me invocar no século XX deve vir das mãos de Deus, porque aqui nesta terra, a figura do Homem já não existirá mais.” – palavras traduzidas a partir de hieróglifos transcritos da estátua de pedra.

Após ler cuidadosamente essas palavras, não consigo impedir minha curiosidade em imaginar como seria então as consequências se o terrível Golem fosse invocado em nosso século XXI…

A criatura de pedra (interpretada por Alan Sellers), ou melhor, o “Carrasco de Pedra“, como sugere sabiamente o título nacional do filme, é indestrutível, não sendo afetado nem pelo ataque de tiros, fogo ou água, conforme anuncia a curiosa “tagline” (reproduzida logo no início desse artigo). Pimm é apenas um jovem assistente no museu, que é dirigido pelo Sr. Trimingham (Oliver Johnston), porém ele é possuidor de um caráter e sanidade duvidosos, cuja principal ambição é assumir a direção do museu. Quando descobre um meio de utilizar a estátua em seu benefício, ele passa o ordenar que ela elimine toda e qualquer pessoa que de forma indesejada atrapalhasse seus planos de cobiça e vaidade (que inclui a derrubada de uma enorme ponte sobre um rio, matando várias pessoas, através da força descomunal do Golem, além também do auxílio da estátua no roubo de valiosas jóias do próprio museu).

Uma vez nutrindo um amor não correspondido pela jovem Ellen Grove (Jill Haworth), filha de seu antigo patrão assassinado, Pimm começa também a enfrentar problemas com a chegada do americano Jim Perkins (Paul Maxwell), representante de um museu de New York interessado na compra da estátua, desde que verificada sua autenticidade histórica. Além disso, surgem ainda uma dupla de policiais, Inspetor White (Noel Trevarthen) e Detetive Wayne (Ian McCulloch), que estão investigando as várias mortes supostamente acidentais que estão ocorrendo no museu, sempre com um envolvimento misterioso da estátua. E para complicar ainda mais os planos de Pimm em assumir o controle do museu, aparece um novo patrão na figura do arrogante Professor Weal (Aubrey Richards), contra quem logo surge uma incompatibilidade e um inevitável atrito que também acabou de forma trágica.

Após ser descoberto e perseguido pela polícia, Pimm é encarcerado num hospital penitenciário, porém com o Golem sob seu controle mental, a estátua indestrutível veio em seu resgate com ambos fugindo e deixando um rastro de escombros, com direito até a um ataque com um ogiva nuclear, enfatizando a interessante pergunta proposta pela “tagline” do filme: “Como iremos destruir o Golem antes que ele nos destrua?

Carrasco de Pedra é um filme completamente despretensioso, que acaba divertindo justamente por sua história simples e ingênua, a despeito de todas as enormes falhas de roteiro e situações inverossímeis, como por exemplo a locomoção do Golem saindo do museu sem ser notado, ou pior ainda, quando utiliza sua força para desabar literalmente uma ponte imensa, caminhando depois tranquilamente pelas ruas de Londres. As cenas de violência são fracas, os efeitos especiais são pobres, a caracterização do Golem é apenas mediana, e percebe-se claramente vários erros de continuidade e diálogos banais, mas tudo isso não compromete a diversão desde que o espectador compreenda o espírito de uma produção de baixo orçamento e se envolva no clima de um filme que quer apenas contar uma história sobrenatural.

O ator inglês Roddy McDowall nasceu em Londres em 1928 e faleceu aos 70 anos na Califórnia, Estados Unidos, vítima de câncer. Sua vasta carreira é composta por atuações em 160 filmes, o que é uma marca expressiva. E dentre sua filmografia destacam-se trabalhos significativos em filmes consagrados do cinema fantástico como o clássico de assombração A Casa de Noite Eterna (1973), a série de ficção científica da TV “Viagem Fantástica” (1977), e principalmente a saga do cinema e televisão O Planeta dos Macacos, participando de todos os filmes e episódios na pele de um macaco chimpanzé (Cornelius e Caesar nos cinco filmes do cinema e Galen na série de TV, que teve quatorze episódios). Mais recentemente, em meados dos anos 1980, ele ainda participou de A Hora do Espanto (1985), um importante filme de vampirismo que teve uma continuação inferior produzida em 1989.

Curiosamente, o filme recebeu outros dois títulos originais para sua distribuição ao redor do mundo, sendo também conhecido como “Anger of the Golem” ou “Curse of the Golem“. O nome brasileiro escolhido, “Carrasco de Pedra“, ficou até interessante pela coerência com o argumento do filme, apesar de se distanciar bastante da tradução literal do original.

As filmagens ocorreram no “Merton Park Studios“, em Londres, onde foram realizados outros vários filmes divertidos do gênero como Alta Voltagem (The Projected Man, 1966), contando também com locações reais no “The Imperial War Museum“. Carrasco de Pedra não está disponível no mercado brasileiro de vídeo VHS e DVD, sendo exibido às vezes em canais de televisão por assinatura.

Como característica tradicional e elemento sempre presente nesses tipos de filmes, não faltou a cena clássica (apesar de bem rápida) onde o monstro, na figura do imponente Golem, carrega em seus braços a mocinha indefesa, no caso a jovem Ellen Grove, interpretada pela bela atriz inglesa Jill Haworth, que também participou de outro raro filme de horror, Estranhas Mutações (1973), ao lado do “cientista loucoDonald Pleasence.

Outra curiosidade, e prefiro entender como uma homenagem do diretor Herbert J. Leder em vez de plágio, é a inclusão da mãe de Pimm como um cadáver preservado pelo filho meio insano, numa situação praticamente igual já explorada anteriormente, e de forma magistral, pelo mestre Alfred Hitchcock no clássico Psicose (1960), envolvendo o psicopata Norman Bates e sua mãe repressora, cujo cadáver era mantido por ele e influenciava suas atitudes criando-lhe uma dupla personalidade.

A lenda do Golem, a estátua de pedra assassina que cria vida própria, já foi muito explorada pelo cinema fantástico, sendo tema de diversos filmes mudos alemães como Der Golem (1915), Der Golem und die Tanzerin (1917) e Der Golem, wie er in die Welt kam (1920), todos dirigidos, escritos e estrelados por Paul Wegener, além do francês Le Golem (1936).

“O poder traz destruição. Cuidado para não desencadeá-lo..”.

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