Críticas

O Colecionador de Corpos 2 (2012)

Irá agradar aos fãs do primeiro filme, da série Jogos Mortais e todos aqueles que enxergam o cinema de horror como uma exposição do improvável

O Colecionador de Corpos 2
Original:The Collection
Ano:2012•País:EUA
Direção:Marcus Dunstan
Roteiro:Patrick Melton, Marcus Dunstan
Produção:Brett Forbes, Mickey Liddell, Jennifer Monroe, Julie Richardson, Patrick Rizzotti
Elenco:Josh Stewart, Emma Fitzpatrick, Christopher McDonald, Lee Tergesen, Tim Griffin, Andre Royo, Randall Archer, Shannon Kane, Brandon Molale, Erin Way, Johanna Braddy

A violência sempre esteve presente nos filmes de horror. Entretanto, foi na década passada, com o avanço dos efeitos especiais e a necessidade de tornar tudo mais próximo da realidade, que nasceu e se desenvolveu o subgênero “torture porn“. Os realizadores notaram uma tendência quase sádica dos espectadores em assistir a filmes em que pessoas, de preferência mulheres, fossem torturadas das formas mais agressivas e exageradas, num resgate ao estilo exploitation. É claro que a história do cinema de horror já apresentou produções gráficas, com exposição de órgãos e mutilações, como os clássicos Last House on the Left e The Hills Have Eyes, mas a intensidade das cenas voltou com força total com as franquias Jogos Mortais e O Albergue, os precursores dessa retomada do estilo. Foram feitas inúmeras cópias, algumas continuações e versões bastardas, até a fórmula se desgastar e aparecer em longas esporádicos.

O Colecionador de Corpos foi idealizado como um possível spin-off de Jogos Mortais, adquirindo vida própria durante o seu processo de realização. O roteiro foi escrito pelos parceiros Patrick Melton e Marcus Dunstan, que conquistaram espaço na indústria cinematográfica com o divertido Banquete no Inferno. Com as críticas positivas e a aceitação do público, eles assumiram a fase final da trajetória do assassino JigSaw, fizeram continuações inferiores de sua obra-prima e acumularam roteiros e ideias em suas escrivaninhas. Piranha 2, um remake para Hellraiser e inúmeros projetos foram associados à dupla até o nascimento do assassino conhecido como “colecionador“, em 2009.

Fascinado por insetos e bichos repugnantes, o serial killer tem o costume de invadir moradias em que tenha sido chamado para exterminar pragas e enchê-las de armadilhas, torturar os moradores até restar um único sobrevivente, aquele que será sequestrado e conduzido numa mala de viagem até a próxima vítima. Se a ideia já é extremamente absurda, a sua realização ainda é mais exagerada, fazendo deste vilão um arquiteto ao estilo JigSaw e uma habilidade impressionante para armá-las em pouco tempo. Não se sabe o motivo pelo qual ele espalha essas geringonças já que a família foi praticamente dominada no sequestro, mas, ainda assim, o assassino faz tudo com precisão, pontaria, paciência e organização, restando aos espectadores apenas se divertir com um Esqueceram de Mim sádico e sangrento, divertido e ousado. Azar para o ladrão Arkin (Josh Stewart), que resolveu assaltar esse mesmo local, assumindo o posto de anti-herói quando deixa de lado sua missão para ajudar a enfrentá-lo pelo casarão. Com uma direção precisa de Marcus Dunstan, sem aquela aceleração de imagens ou flashbacks de James Wan, O Colecionador de Corpos arrecadou pouco mais de 7 milhões de dólares, o que não representou lucro suficiente para uma continuação.

Mesmo assim, a dupla de roteiristas, contando mais uma vez com a direção de Marcus Dunstan, lançou em 2012 The Collection aka O Colecionador de Corpos 2, com um orçamento maior – 10 milhões – e mais uma série de furos no roteiro e absurdos divertidos que transformam o filme num cartoon. Se há algo positivo que se pode dizer do argumento do filme está no retorno do anti-herói Arkin (novamente Josh Stewart), sequestrado pelo vilão no final do filme anterior.

O Colecionador de Corpos 2 tem início com um acidente de carro, com o Sr. Peters (o veterano Christopher McDonald, de Fanboys) e sua filha Elena. Depois são exibidos diversos noticiários com informações sobre a busca da polícia por pistas sobre o assassino misterioso, e anunciando que o último desaparecido é exatamente Arkin. Elena (agora mais velha, interpretada por Emma Fitzpatrick, de O Preço do Amanhã) ignora o pedido das autoridades de evitar sair às ruas e vai com a amiga à uma boate para uma festa chamada “Nunca Mais” (referência óbvia ao poema de Edgar Allan Poe), onde no fundo pode ser visto uma homenagem à banda Pink Floyd. A garota flagra a traição do namorado e vai para o banheiro do estabelecimento, bem a tempo de escapar de uma gigantesca armadilha organizada pelo colecionador.

Aparecendo como um vilão dos quadrinhos, ele assiste ao momento em que os jovens são triturados, esmagados e fatiados no local – sabe-se lá como ele conseguiu montar o espaço, organizar o evento e tudo mais sem chamar a atenção. Elena encontra a famosa mala do vilão, contendo em seu interior o sobrevivente Arkin, todo ferido. Apesar de não ajudá-lo, ele consegue fugir do prédio, saltando de uma certa altura com um cadáver como escudo e proteção (!!!). Elena é raptada, enquanto o ladrão-herói é conduzido ao hospital.

Desesperado com o sumiço da filha, Sr.Peter organiza um grupo de busca e pede ajuda a Arkin para encontrar o cativeiro e, consequemente, salvar a garota. O líder da equipe de resgate é o amigo da família e segundo pai da jovem, Lucello (Lee Tergesen, de No One Lives), que está disposto a forçar Arkin a não só encontrar o local onde Elena está como também fazer parte das ações, acreditando que ele conhece bem o ambiente. Assim, eles chegam a um hotel abandonado, onde enfrentarão o terrível colecionador, sua assustadora coleção de pessoas mutiladas e transformadas em insetos, e diversas armadilhas numa luta desesperada pela sobrevivência.

Tudo o que foi visto no primeiro filme é intensificado na continuação. As velhas armadilhas estão lá, mas há espaço para um número excessivo de prisioneiros, alguns zumbificados, vivendo sob tortura e dor como se fizessem parte de um inferno cenobita. Arkin volta à sua especialidade: escapando das armadilhas, enquanto ajuda aqueles que estão sofrendo no local. Lá ele encontra figuras estranhas como Abby (Erin Way), que está sofrendo da síndrome de estocolmo, além de alguns inimigos eventuais como cães assassinos e a equipe de Peters, mais disposta a atrapalhar do que ajudar.

Há tantas falhas no roteiro e exageros que fica difícil levar a sério O Colecionador de Corpos 2. O simples fato da polícia não ter sido chamada quando o hotel foi descoberto e um braço quebrado que é praticamente ignorado durante uma luta são exemplos de bobagens que somente os fãs da franquia poderão suportar. Se no primeiro filme, o colecionador era um assassino em série com uma metodologia fora do comum, na continuação ele se transforma numa caricatura, um vilão de desenho animado, capaz de estar em vários ambientes e até mesmo se curar facilmente dos mais variados ferimentos, voltando ao normal quando está em casa.

A polícia mais uma vez se mostra ineficiente. Como um assassino solitário seria capaz de comprar materiais, malas e armadilhas, e manter toda uma estrutura sofisticada sem chamar a atenção? Ninguém notou a presença de um veículo de extermínio de pragas nos locais, nem fez busca em lugares abandonados, de preferência próximos aos sequestros? E aquele incêndio artificial na sequência final, sem deixar o menor rastro de fumaça? E também por que a garota possui problemas de audição e o rosto do vilão não é mostrado, se esses detalhes não servem à trama?

Enfim, O Colecionador de Corpos 2 é uma experiência sangrenta, com cenas violentas e ousadas, mas não se pode considerá-la de ótima qualidade. No máximo, um passatempo, uma diversão passageira, um fast-food do gênero. Irá agradar aos fãs do primeiro filme, da série Jogos Mortais e todos aqueles que enxergam o cinema de horror como uma exposição do improvável. Para os demais, os que buscam um filme inteligente e uma trama inovadora e bem realizada, é melhor ficar longe e nem acrescentá-lo em sua coleção.

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