Críticas

Matinee – Uma Sessão Muito Louca (1993)

O que de início parece ser apenas uma aventurazinha infanto-juvenil revela-se uma interessante abordagem histórica do período, enfocada sob o aspecto fantástico-humorístico

Matinee - Uma Sessão Muito Louca
Original:Matinee
Ano:1993•País:EUA
Direção:Joe Dante
Roteiro:Charles S. Haas, Jerico
Produção:Michael Finnell
Elenco:John Goodman, Cathy Moriarty, Simon Fenton, Omri Katz, Lisa Jakub, Kellie Martin, Jesse Lee Soffer, Lucinda Jenney, James Villemaire, Robert Picardo, Dick Miller, John Sayles

Com o fim da Segunda Grande Guerra, evidenciou-se a possibilidade terrificante de os países desenvolvidos passarem a resolver seus mesquinhos problemas com a utilização de armas atômicas. Aquele velho ditado popular que diz alguma coisa como “cobrir um santo descobrindo outro” jamais poderia ser tão bem empregado como nesse caso – terminar um conflito para começar outro, automática e irremediavelmente. E quando a chamada crise da Guerra Fria estava em seu auge, nos idos da década de 1960, o mundo inteiro acreditava, de fato, que os Estados Unidos e a então União Soviética iriam, de uma vez por todas, abandonar as ameaças e partir para a desforra – e o mundo jamais esteve tão próximo de ser destruído pelo cataclismo nuclear.

Segundo o que se podia perceber dos bastidores era: 1) existia um comunista embaixo da cama de cada cidadão americano, e 2) um americano capitalista espreitava os soviéticos por cada fresta de armário disponível. Esse era o chavão, pelo menos. Mas, paranoias e ridicularidades à parte, a Guerra Fria trouxe seus benefícios… pelo menos para nós, amantes do cinema fantástico.

Um dos episódios mais marcantes desse período foi a famosa crise de mísseis em Cuba, em outubro de 1962, quando os soviéticos queriam a todo custo trazer seus armamentos nucleares para a ilhota de Fidel Castro; Cuba está no calcanhar dos Estados Unidos e, é claro, os americanos jamais iriam permitir uma coisa dessas. Iniciou-se então um dos maiores conflitos psicológicos da história – psicológico porque, apesar das diferenças, um lado não era suficientemente ousado a ponto de atacar o outro, pois sabia que isso significava, simplesmente, a devastação – talvez irreparável – de ambos. Ficaram só nos palavrões mesmo.

Matinee – Uma Sessão Muito Louca (Matinee, 1993), do razoavelmente competente Joe Dante, é ambientado justamente neste cenário turbulento. O que de início parece ser apenas uma aventurazinha infanto-juvenil revela-se, na realidade, uma interessante abordagem histórica do período, enfocada sob o aspecto fantástico-humorístico.

Tudo começa quando o fantástico diretor-produtor Lawrence Wolsey (John Goodman), acompanhado da atriz Ruth Corday (Cathy Moriaty), resolve levar seu mais recente sucesso cinematográfico para a pequena cidade de Key West, na Flórida, onde o clima, devido à crise de mísseis, já está suficientemente carregado de terror. Assim como acontecia de fato entre os diretores desse período, ele está interessado em estrear seu filme na cidade justamente por causa desse fato – a população já está assustada de verdade com as possibilidades reais da catástrofe, e assustá-la um pouquinho mais com sua aterrorizante ficção será o antídoto. E ele acerta na mosca (sem trocadilhos…) com seu inominável “Mant!“, o homem formiga, o mais novo mutante radioativo da telona.

E legal mesmo é esse tal “Mant!“, um filme dentro do filme, um resgate-paródia-nostalgia aos adorados clássicos B dos anos 50 e 60, os anos “gordos” da Guerra Fria, quando a paranoia estava no seu auge e insetos, alienígenas e cientistas loucos eram mais do que lugar comum – eram uma religião! Com humor despretensioso e sincero, “Mant!” é um catado de todos os temas explorados nesse período (exceto o das invasões alienígenas), principalmente os famosos “Big Bugs“, os insetos gigantes, os mais frequentes. Com música tema de O Monstro da Lagoa Negra e A Fúria de Uma Região Perdida, ele parodia-homenageia descaradamente cenas antológicas de clássicos inesquecíveis como O Mundo em Perigo, O Escorpião Negro, Tarântula, A Mosca da Cabeça Branca, entre vários outros.

E o povo da cidade quer mais é ver o tal mutante meio-homem/meio-formiga que acabou por se transformar num monstro gigantesco comedor de açúcar – que se dane a crise. Mas quem vibra mesmo com tudo isso é o garoto Gene Loomis (Simon Fenton), fã incondicional de filmes e revistas de monstros, que, no meio da confusão, consegue até a arrumar uma namoradinha imigrante da Rússia (!). A metáfora é típica da geração Spielberg, da qual Joe Dante faz parte, mas podemos tranquilamente colocá-la de parte e curtir o filme de Wolsey, que não poupa louras oxigenadas, generais-patrióticos-que-dariam-a-vida-pelo-seu-país e cientistas salivantes e inescrupulosos pra lá de loucos…

O sucesso da película é tanto que o pequeno cinema de Key West quase vem abaixo, com a bagunça generalizada que se forma; ainda mais pelo fato do diretor utilizar o processo “Átomo-Vision“, por ele criado, e que joga a plateia para dentro da ação com a utilização de choques, tremores, fumaças, luzes e até mesmo um adolescente fantasiado de formiga, que anda pelos corredores durante a projeção assustando as criancinhas e os adolescentes. Esses métodos de interação público-filme foram muito utilizados no cinema americano nos anos 50, notadamente sob as inovações feitas pelo cultuado diretor-produtor William Castle; apesar de fazerem muito sucesso na época, esses métodos foram com o tempo se extinguindo, tanto pelo fato de ficarem demasiadamente caros para os produtores e donos de cinema, quanto pelo fato de não proporcionarem, com o passar do tempo, as devidas novidades ao público. Algumas vezes as salas de exibição eram realmente arruinadas – não pelas pessoas em pânico em si, pois raramente um filme era competente o suficiente para tal, mas pelos jovens baderneiros mesmo; como acontece no filme de Dante, onde a ação se mistura e as pessoas, histéricas, não sabem o que está acontecendo na realidade: se tudo não passa dos efeitos do “Átomo-Vision” ou se a guerra, em Cuba, se iniciou. Até mesmo nós, espectadores terceiros, ficamos na dúvida por um momento; somente quando as pessoas começam a sair do cinema é que percebemos que o filme de Wolsey foi mais eficiente do que ele havia imaginado a princípio.

Matinee, pois, segue a mesma linha do Aconteceu à Meia-Noite, só que com um orçamento muito mais generoso; outra diferença é que o primeiro foi feito tendo em vista um público de todas as idades, enquanto a bagaceira de Mark Stock se volta mais a um público adulto. Como curiosidade vale ressaltar dois outros nomes “célebres” do elenco como Dick Miller, uma singularidade do cinema que vem fazendo pontas desde a década de 50 (por isso carinhosamente apelidado como “o rei da ponta“), e o falecido Kevin McCarty (1914-2010), estrela do clássico Vampiros de Almas, que aqui aparece não creditado como o general responsável pela aniquilação do “Mant!“. Nostalgia pura, portanto.

Leia também:

1 Comentário

  1. Felipe

    Lembro de ter visto na Record quando criança,na epoca achei muito legal,não sei se diria o mesmo agora,ótima critica.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *