Críticas

O Delírio de um Sábio (1940)

É uma obra de grande valor para a história do gênero fantástico e imperdível para todo e qualquer colecionador, pesquisador e apreciador de fitas de Horror e FC antigos

O Delírio de um Sábio
Original:Dr. Cyclops
Ano:1940•País:EUA
Direção:Ernest B. Schoedsack
Roteiro:Tom Kilpatrick e Malcolm Stuart Boylan
Produção:Merian C. Cooper, Dale Van Every
Elenco:Albert Dekker, Thomas Coley, Janice Logan, Charles Halton, Victor Kilian, Frank Yaconelli, Paul Fix, Frank Reiche

Atenção, o texto contém spoilers!

Em 1939 foi realizado um pequeno clássico do cinema de Ficção Científica e Horror que por muitos é até hoje ignorado e desconhecido, apesar dos impressionantes efeitos especiais de miniaturização e pelo uso das cores, raros e significativos para a época de sua produção. Tanto é que somente com a chegada da década de 50, o período de ouro do cinema fantástico, com a explosão de incontáveis filmes de FC na televisão americana numa invasão interminável de produções baratas e com todos os tipos de argumentos, o filme O Delírio de Um Sábio (Dr. Cyclops), dirigido por Ernest B. Schoedsack (dos também clássicos King Kong, 1933, e Mighty Joe Young, 1949), foi mais reconhecido e apreciado pelo público e críticos. Esse reconhecimento tardio dos próprios americanos talvez se deva ao fato de que as audiências só encontrariam ao longo dos anos 50 certas similaridades do filme com as inúmeras produções realizadas nesse período, onde prevaleciam a mesma estrutura básica nos roteiros e personagens que tinham invariavelmente sempre o mesmo clichê, com um cientista “louco” em meio às suas experiências e um par romântico de jovens heróis para combatê-lo e salvar o mundo de suas invenções e ameaças científicas.

O filme começa com a sombra do míope e calvo biólogo Dr. Alexander Thorkel (interpretado por Albert Dekker), que em seu laboratório localizado na América do Sul, em plena selva Amazônica, trabalha numa série de experimentos para descobrir o efeito químico do radium em criaturas vivas. Aliás, essa região do mundo até hoje misteriosa e fascinante foi muito utilizada pelos roteiristas como palco de suas histórias fantásticas, como a chave para o elo perdido da evolução do planeta devido ao seu tamanho descomunal e desconhecido, ocultando criaturas e civilizações, como pode ser visto em filmes igualmente maravilhosos como O Mundo Perdido, baseado em livro de Arthur Conan Doyle e filmado em versão muda em 1925 e sonora e em 1960, ou em O Monstro da Lagoa Negra, clássico de 1954 e que teve outras duas sequências.

O Dr. Thorkel descobriu uma enorme mina de urânio no meio da selva e com a qual podia utilizar sua matéria prima como fonte de energia para suas experiências, usando um estranho aparelho (tipicamente futurista, assim como sua roupa especial para evitar o contato com a radiação, artefatos estes muito utilizados em outras produções da época) para canalizar o poder do radium em uma máquina que possibilita a diminuição de seres vivos. Após muitas tentativas em ratos, galinhas, cachorros e gatos, ele não obtém o sucesso definitivo devido a algum pequeno detalhe que faz com que os animais morram após pouco tempo miniaturizados. Enquanto isso, ele acaba discutindo com seu assistente, um antigo aluno, sobre as questões morais e objetivos dos experimentos, levando-o a assassiná-lo impedindo que seu trabalho fosse denunciado ao mundo e interrompido.

Porém, devido à fragilidade de sua visão, mesmo com óculos de grossas lentes, para a observação em microscópio, e à necessidade de descobrir a solução final para o êxito de seu trabalho científico, o Dr. Thorkel convida outros cientistas para auxiliá-lo em sua missão, recorrendo à “Fundação Norte Americana de Pesquisas” em New York. Um grupo formado pelo biólogo Dr. Rupert Bulfinch (Charles Halton), pela jovem cientista Mary Robinson (Janice Logan) e pelo engenheiro químico, especialista em minearologia, Bill Stockton (Tom Coley), parte então numa viagem de quinze mil quilômetros rumo à Amazônia. Ao chegarem num vilarejo próximo ao laboratório do cientista, rodeado por belíssimas montanhas nevadas dos Andes, eles solicitam o aluguel de mulas para o transporte de suas bagagens, porém o dono dos animais, Steve Baker (Victor Killian), interessado na possibilidade de encontrar ouro no meio da floresta motivado por histórias a respeito, exige a sua inclusão no grupo. Os quatro chegam então ao laboratório e encontram um auxiliar do Dr. Thorkel, um habitante local chamado Pedro, que fornecia os animais para as experiências sinistras do cientista.

Eles são recebidos pelo biólogo míope e logo são requisitados para ajudá-lo a decifrar uma falha numa composição química fundamental em seu trabalho. O erro é logo descoberto através da presença de cristais de ferro na estrutura molecular de um tecido orgânico e com a solução dessa falha o Dr. Thorkel obtém finalmente o sucesso na miniaturização de um cavalo malhado, deixando-o com incríveis sete polegadas de altura. Após ajudar o cientista a descobrir o problema, o grupo é solicitado a ir embora rapidamente. Eles relutam e decidem ficar para saber mais sobre o misterioso trabalho dele. Eles acabam descobrindo a mina de urânio e, desconfiado que os novos visitantes pudessem roubar suas invenções e levar o crédito por seu trabalho científico, o Dr. Thorkel os engana levando-os a uma câmara onde se encontrava sua máquina de encolhimento e aciona seus aparelhos canalizando energia radioativa em um poderoso raio miniaturizador. O grupo recém chegado juntamente com o ajudante local do cientista são então encolhidos e perdem a consciência durante o processo.

Uma vez no porão embaixo do laboratório, eles acordam assustados porém aparentemente saudáveis, e aproveitando um momento de descanso e sono do cientista “louco” eles fogem para o jardim, agora terrivelmente ameaçador, devido aos seus pequenos tamanhos e à presença de galinhas e de um feroz gato preto, sugestivamente chamado de “Satanás“, e responsável pelo sumiço dos pequenos animais miniaturizados nas fracassadas experiências do Dr. Thorkel. Quando o cientista acorda, ele procura seus “hóspedes” e encontra-os fazendo várias atividades, como preparar suas pequenas roupas, e o Dr. Rupert lendo suas anotações tentando entender o trabalho do cientista. Eles então conversam e o biólogo miniaturizado diz se sentir humilhado por sua condição e desafia o Dr. Thorkel dizendo que suas experiências ainda tem um grave erro e vai denunciá-lo ao mundo para impedir suas atrocidades. Só que ele se esqueceu que está pequeno e incapaz de enfrentar o gigante Dr. Thorkel, ou Dr. Cyclops do título original, que é uma criatura mitológica com um único olho e descomunal em tamanho e força, sendo o Dr. Rupert seu antagonista, o também lendário Ulisses, com grande inteligência porém inferior e mais fraco num eventual confronto. O cientista “louco“, sentido-se ameaçado pelo biólogo visitante, o captura em sua gigantesca mão e o conduz à morte sufocando-o com um algodão embebido em clorofórmio. Ele então parte na captura dos outros que fogem para a floresta chegando na margem de um rio onde tentam movimentar uma canoa que serviria para sua fuga. Após um breve confronto com um ameaçador crocodilo, eles são novamente descobertos pelo Dr. Thorkel e recapturados, porém com uma nova baixa, a morte do ajudante Pedro, denunciado involuntariamente por seu próprio cachorro gigante e alvejado com um disparo certeiro do rifle do cientista.

De volta ao laboratório, os três sobreviventes são informados pelo Dr. Thorkel que estão num lento processo de crescimento e que voltariam ao tamanho normal, confirmando a teoria do Dr. Rupert que alegava que o cientista “louco” estava errado. Porém, agora ele estava furioso e queria destruí-los antes que crescessem e pudessem denunciá-lo para o resto do mundo. Eles travam uma batalha no interior do laboratório que se estende até o lado de fora nas proximidades da mina de urânio, onde os pequeninos encontram refúgio em seu interior. Então o alucinado cientista, no encalço deles, pendura-se na frágil estrutura que sustenta o aparelho canalizador de energia radioativa e acaba caindo para a morte nas profundezas escuras da mina.

Num previsível final feliz, o filme termina com os três sobreviventes das macabras experiências do Dr. Thorkel retornando ao vilarejo já com seus tamanhos normais reestabelecidos, e fazendo um pacto de silêncio sobre tudo que aconteceu, visando explorarem os lucros da mina radioativa, e com o casal de cientistas Mary Robinson e Bill Stockton ensaiando um inevitável romance.

Certamente é um filme admirável, levando-se em conta sua época de produção, por apresentar um roteiro muito interessante a despeito dos inevitáveis e previsíveis clichês característicos do gênero, e efeitos de trucagem muito além de seu tempo quando comparado aos seus contemporâneos, pois foi um dos pioneiros em histórias de miniaturização. Foram raros os trabalhos anteriores que utilizaram a ideia, vista também com qualidade e convincentemente em A Noiva de Frankenstein (1935), onde o cientista “loucoDr. Pretorius ensaiava experiências com miniaturizações de pessoas. Podemos dizer que Dr. Cyclops foi um precursor e forte influenciador de outros excelentes filmes posteriores como o magnífico O Incrível Homem Que Encolheu (1957), baseado em obra de Richard Matheson, Viagem Fantástica (1966), e a série de televisão Terra de Gigantes (1970), criada pelo lendário Irwin Allen. Seus efeitos de miniaturização são muito convincentes, principalmente num filme a cores, supervisionados pelo diretor de arte alemão Hans Dreier (1884-1966), que foi o responsável pelos cenários com os enormes objetos que foram usados em conjunção com as cenas envolvendo os atores “encolhidos“. Em seu currículo no cinema fantástico destacam-se também outros clássicos como o mudo O Corcunda de Notre Dame (1923), da obra de Victor Hugo e O Médico e o Monstro (1932), da obra de Robert Louis Stevenson.

O Delírio de Um Sábio foi também um dos primeiros filmes a abordar o radium como um elemento químico sinistro nas mãos de cientistas inescrupulosos, antecipando a paranoia atômica que preencheria toda a década de 50 em inúmeros filmes de insetos gigantes e similares onde elementos radioativos afetavam o tamanho de criaturas vivas.

O ator Albet Dekker, que encarnou magistralmente o cientista “loucoDr. Thorkel ou Dr. Cyclops, teve nesse papel sua principal interpretação em sua longa carreira de trinta anos, que inclui participações em importantes filmes como Beau Geste (1939) e o violento western The Wild Bunch (Meu Ódio Será Tua Herança, 1969), de Sam Peckinpah.

O diretor Ernest B. Schoedsack é mais conhecido por co-dirigir com Merian C. Cooper o clássico King Kong em 1933 (baseado em obra de Edgar Wallace), de onde adquiriu muita experiência com técnicas de “back-projection” nas cenas contracenadas com atores e animais gigantescos. Muitos dos efeitos especiais do filme foram originados de King Kong, como a mão gigante do Dr. Thorkel agarrando o pequenino Dr. Rupert.

Dr. Cyclops é até hoje um filme muito raro e uma preciosidade meio esquecida pelo público, onde sua qualidade geralmente é subestimada. Produzido pela Paramount e com uma duração relativamente curta em seus 76 minutos, é uma obra cinematográfica de grande valor para a história do gênero fantástico e imperdível para todo e qualquer colecionador, pesquisador e apreciador em geral de fitas de Horror e Ficção Científica antigos.

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1 Comentário

  1. Anselmo Luiz

    Se não me falhe á memoria esse filme passou varias vezes na TV Aberta na decada de 80 na sessões de filmes da TVS como o nome de Dr.Encolhedor ,eu assisti varias vezes este filme neste canal ele já não é exibido ha muito tempo .. acho desde 1987 ele não é mais exibido na TV e nunca foi lançado no mercado de DVD no Brasil,mercado esse que já morreu.

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