Críticas

Os Demônios da Noite (1995)

Terror claustrofóbico e gráfico, Os Demônios da Noite se beneficia de seus exageros e do tom cartunesco.

Os Demônios da Noite
Original:Tales from the Crypt: Demon Knight
Ano:1995•País:EUA
Direção:Ernest R. Dickerson
Roteiro:Ethan Reiff, Cyrus Voris, Mark Bishop
Produção:Gilbert Adler
Elenco:Billy Zane, William Sadler, John Kassir, Jada Pinkett Smith, Brenda Bakke, CCH Pounder, Dick Miller, Thomas Haden Church, John Schuck, Gary Farmer, Charles Fleischer

Dentre as inúmeras antologias influenciadas pelas clássicas Além da Imaginação, Quinta Dimensão, Galeria Noturna…, uma despontou como um interessante entretenimento para os fãs de histórias curtas de horror, principalmente dos quadrinhos, no final dos anos 80. Tales from the Crypt teve como principal fonte de inspiração as revistas da EC Comics da década de 50, como a de mesmo nome e outras derivadas – The Haunt of Fear, The Vault of Horror, Crime SuspenStories, Shock SuspenStories e Two-Fisted Tales. Com produção da HBO, que ousou em conteúdos violentos e nudez, a série sobreviveu por incríveis 93 episódios, em sete temporadas, de 1989 a 1996, tendo participações de atores conhecidos em momentos do mais puro humor negro.

A marca da série era, sem dúvida, o apresentador. Cada episódio era contado de maneira divertida pelo Guardião da Cripta, o Crypt Keeper, com movimento e interação com o auxílio de um boneco bem caracterizado e similar ao dos quadrinhos, com a dublagem eternizada por John Kassir. Martin Sheen, Brooke Shields, Slash, Brad Pitt, Amanda Plummer, Iggy Pop, Tim Roth, Michael J. Fox, Tom Hanks, Kyle MacLachlan, Arnold Schwarzenegger, e tantos outros, circularam em cenários assustadores para contar histórias curtas, como aquelas que contamos aos amigos nas noites insones e ao pé da fogueira. A série também era conhecida pela abertura, em um passeio ao estilo Casa de Terror dos parques de diversão, com a marcante trilha de Danny Elfman, até encontrar o anfitrião nas profundezas da morada do medo.

O sucesso do programa logo inspiraria longas para o cinema como duas produções em especial: Os Demônios da Noite, de 1995, com direção de Ernest R. Dickerson (depois faria o pavoroso Bones – O Anjos das Trevas, em 2001, e passaria a dirigir episódios de séries de TV como Dexter e The Walking Dead), e O Bordel de Sangue, de 1996, de Gilbert Adler. Um terceiro filme, Ritual, de 2002, dirigido por Avi Nesher, também foi planejado para ir aos cinemas, mas acabou sendo lançado diretamente em vídeo, inicialmente sem conexão com os longas anteriores e a série Tales From the Crypt. No caso de Os Demônios da Noite, o melhor dos três, o enredo, escrito por Ethan Reiff, Mark Bishop e Cyrus Voris, não teve inspiração nas histórias dos quadrinhos da EC Comics e foi planejado em 1987, antes da série, com a possibilidade de ter no comando Tom Holland, oriundo de Brinquedo Assassino. Sem o acordo oficial, Holland se esquivou da produção e assumiu o fraco Mercadores da Morte (1987), e o script foi arquivado até a década de 90, lembrado com o sucesso da série da HBO.

Os Demônios da Noite está entre os destaques de horror da década de 90. Como filme de monstro, pode-se equiparar ao excelente Um Drink no Inferno, de 1996, comandado por Robert Rodriguez, na seleção das melhores produções do período. Bem realizado, com efeitos especiais impressionantes, o filme é uma versão demoníaca de A Noite dos Mortos-Vivos, de George Romero, ao colocar um grupo de sobreviventes presos num casarão cercado por demônios assustadores, tendo como fundo um eminente apocalipse e a sensação perturbadora de claustrofobia. Fez bastante sucesso como a série, em um cultuado entretenimento até os dias de hoje, e quase se transformou numa trilogia envolvendo a chave com sangue de Cristo, sendo lembrada no segundo e inferior filme, O Bordel de Sangue, abafado pelo Drink de Tarantino e Rodriguez.

Após a sequência tradicional de abertura, o público assiste a uma cena rápida de uma produção comandada pelo Guardião da Cripta, que remete a um dos clássicos curtas de Creepshow ao resgatar um marido traído dos mortos. Após algumas broncas do comandante, ele mais uma vez dialoga com o público para apresentar o longa Os Demônios da Noite. O filme começa com a perseguição de O Coletor (Billy Zane) a Frank Brayker (William Sadler) pelas estradas, culminando em um violento acidente. O xerife Tupper (John Schuck) e o policial Bob Martel (Gary Farmer) seguem a pista do fugitivo até o hotel onde ele se esconde, deixando até o momento o espectador com dúvidas sobre quem poderia ser o herói ou o vilão.

No hotel, Frank é recebido pela dona do estabelecimento Irene (CCH Pounder) e sua funcionária Jeryline (Jada Pinkett Smith), além de outros presentes como o bêbado Tio Willy (Dick Miller), a prostituta Cordélia (Brenda Bakke) e seu namorado Roach (Thomas Haden Church), rival do apaixonado Wally Enfield (Charles Fleischer). O Coletor revela-se como uma verdadeira ameaça ao arrebentar a cabeça de um policial com um soco, sendo expulso do local. Ele corta a própria mão e amaldiçoa os presentes a um encontro com uma raça de demônios, com aparência sombria, olhos e boca brilhantes, em um ótimo tratamento da equipe de efeitos de maquiagem. Frank despeja pequenas gotas de sangue nas entradas e janelas, selando a passagem das criaturas, que tentará entrar no hotel através da sedução em ofertas e visões, e consequente possessão.

Frank contará aos presentes que a Chave, contendo o sangue de Cristo, é uma das setes desenvolvidas e espalhadas pelo Universo para impedir que as Trevas assumam a Terra. Depois de recolher seis, resta apenas uma que está no poder de Frank desde a Primeira Guerra Mundial, quando foi amaldiçoado a protegê-la dos coletores até todas as estrelas em sua mão se organizarem para o fim do ciclo. Diante dessa ameaça, o grupo tentará sobreviver às investidas demoníacas e à reação agressiva de Roach, que acredita que a entrega da chave resolverá todos os problemas.

Sem poupar no sangue e na violência, Os Demônios da Noite traz monstros bem caracterizados, cenas de desmembramentos, corpos que explodem em entranhas e vísceras, além da boa atuação do elenco na situação extrema. E a EC Comics é lembrada com a presença do garoto Danny (Ryan O’Donohue), que encontra um exemplar no sótão e compara as cenas que testemunha com os desenhos da revista. Assim, mesmo não seja oriundo das páginas, o longa traz aspectos dos quadrinhos e diverte em seus exageros, proporcionando momentos assustadores e bem humorados.

Uma produção feita para fãs de quadrinhos e de horror gráfico, Os Demônios da Noite conseguiu boas críticas, mas também arrecadou algumas doses de reclamações. Alguns críticos disseram que o filme é infantil – Edward Guthmann, do San Francisco Chronicle, contou que teria adorado “se tivesse 12 anos” -, uma produção que não merecia ter sido exibida no cinema pelo excesso de clichês e cenas que não justificam a tela grande. É claro que são opiniões exageradas, que se esquecem do principal propósito do cinema fantástico que é divertir. E se ainda assim procuram algum contexto em seu conteúdo, o filme traz uma grande referência. À Folha de S.Paulo, no dia da estreia do filme no Brasil, em 26 de maio de 1995, Ernest R. Dickerson foi lembrado como o primeiro diretor negro a trabalhar com o fantástico e comentou que fez até mesmo uma crítica “a histeria contra os gibis de terror da década de 50“, mostrando numa cena o menino que é possuído pela HQ e se transforma no demônio.

Disponível na Netflix, Os Demônios da Noite continua cultuado e com boa avaliação em uma nova conferida mais de vinte anos depois. Assustador, bem realizado e divertido, o filme é uma ótima produção de monstros, com clichês favoráveis e cenas intensas de violência e claustrofobia. E termina de maneira bem simbolista ao mostrar o diretor Guardião da Cripta sendo decapitado em Hollywood, exatamente por não seguir os padrões do Cinema “de qualidade” que justifique indicações ao Oscar e recomendações. Uma piada sobre sua proposta, muitas vezes ignorada pelos críticos.

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5 Comentários

  1. Felipe

    Vi esse filme quando era criança, em uma madrugada da Globo. Esses dias assisti ele novamente na Netflix, que nostalgia, que filme fantástico. Espero que a Netflix nos brinde com mais pérolas assim.

  2. Augusto

    Na minha humilde opinião, está entre os top 5 de filmes de terror da década de 90,

  3. Caio Francisco Conter Schenini

    Durante a perseguição do começo do filme toca a música “Hey man nice shot”. Banda Filter. Som legal.

  4. Silvio

    Muito bom mesmo. Assisti na década de 90 e baixava quase que de ano em ano para rever essa pérola. E quando vi que estava disponível na Netflix, corri para assistir novamente. Esse merece as 5 caveiras!

  5. É um dos Melhores filmes da década de 90 !
    Eu sempre via essa pérola em VHS nas locadoras mais nunca aluguei , então domingo retrasado eu fui na casa do meu primo e assistimos ele pela Netflix e fiquei impressionado .
    ” Os Demônios Da Noite ” de 1995 é lógico que agora está na minha coleção , fui obrigado a baixá-lo e pra minha sorte achei na versão em Blu-Ray 1080p dublado !
    Uma cena que destaco de muitas é a do Coletor dando o soco no policial , é impressionante e totalmente INESPERADO !
    FILMAÇO que merece as 5 caveiras e ainda ser cultuado !

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