Críticas

Drácula: A História Nunca Contada (2014)

Se não pode ser comparado aos clássicos, pelo menos traz uma visão diferente do príncipe da Valáquia, um contexto que deveria ser explorado mais vezes no cinema

Drácula: A História Nunca Contada
Original:Dracula Untold
Ano:2014•País:EUA, Japão
Direção:Gary Shore
Roteiro:Matt Sazama, Burk Sharpless, Bram Stoker
Produção:Michael De Luca
Elenco:Luke Evans, Dominic Cooper, Sarah Gadon, Art Parkinson, Charles Dance, Diarmaid Murtagh, Paul Kaye, William Houston, Noah Huntley, Ronan Vibert

A história do vampiro Drácula é bastante conhecida pelas adaptações cinematográficas, inspiradas na obra clássica de Bram Stoker. Para conceber sua principal criação, o autor irlandês usou como fonte real a trajetória do terrível príncipe da Valáquia, Vlad Tepes, ou Vlad III, que governou o território hoje conhecido como Romênia, no período conturbado de disputa entre cristãos e muçulmanos. No modo como confrontou o Império Otomano, com ações de crueldade extrema e o empalamento de suas vítimas, ganhou também o apelido de Vlad, o Empalador, além da possível associação a uma volta dos mortos devido a sua aparência similar ao assassinado Vlad II e ao seu estado de coma, durante uma batalha. Religioso, com a fundação de mosteiros, Stoker teria imaginado uma negação cristã, depois da perda de sua amada, alimentando ainda mais sua fama monstruosa de sede por sangue e a consequente relação ao vampirismo. Depois de várias versões do mesmo conceito, envolvendo muita liberdade criativa para colocá-los em tempos diversos e até em encontros com outras criaturas da literatura e do cinema, em 2014, a Universal Pictures deu luz verde à realização de Drácula: A História Nunca Contada, de Gary Shore, baseada em um roteiro escrito por Matt Sazama e Burk Sharpless.

O estúdio pretendia iniciar uma série de produções com seus monstros clássicos, presentes em grande parte dos filmes das décadas de 30, 40 e 50. Como o filme não foi muito bem visto pela crítica e público, o selo Dark Universe teve como ponto de partida o recente A Múmia, de Alex Kurtzman, estrelado pelo astro Tom Cruise. Comparando a qualidade das duas obras, ignorando os feitos no box office, pode-se dizer que a Universal devia ter optado pelo longa de 2014 como pontapé inicial e ignorado o filme da Múmia, bastante inferior em seu conteúdo exagerado e repleto de cenas de ação e efeitos de computador. Drácula tem seus méritos, embora também possua falhas em sua concepção, como poderá ser visto na análise a seguir.

Com a narração de seu filho, o filme conta que Vlad foi entregue ao sultão do império turco quando era um menino. Torturando e treinado para lutar, ele resistiu às investidas e conseguiu fugir para montar seu próprio exército de resistência. Adulto, na pele de Luke Evans, ele casou-se com a bela Mirena (Sarah Gadon) e teve um garoto, Ingeras (Art Parkinson), e agora continua seguindo os rastros dos otomanos ao encontrar o elmo de um dos soldados em rio. Ele percebe que os inimigos podem estar se escondendo na Montanha do Dente Quebrado, um lugar místico envolto em lendas e mistérios. Vlad e seus soldados chegam a uma caverna, com o chão coberto por ossos, e confrontam uma criatura voraz (Charles Dance), que, com a morte de seus companheiros, ele logo descobrirá com a orientação de um monge que se trata de um vampiro.

Durante a celebração da Páscoa, Vlad recebe a visita de um emissário turco para a cobrança de seu tradicional tributo. No entanto, desta vez, ele anuncia que o comandante Mehmed (Dominic Cooper), que cresceu com Vlad como uma das crianças entregues para o treinamento como janízaro, quer ampliar seu exército com uma necessária oferta de 1000 garotos. A recusa inicial sugere uma guerra injusta, e Vlad até pensa em aceitar a entrega, incluindo seu filho, mas opta pelo confronto. Sem um número aceitável para enfrentar o imenso exército turco, Vlad retorna à caverna maldita em busca de poder. Ali, o vampiro, notando a ausência de medo, lhe faz uma proposta: ele deve se alimentar do sangue da criatura e morrer, o que lhe trará a força de cem homens, a capacidade de restauração de feridas e o comando da noite, mas terá que se alimentar da força vital humana. Se ele resistir aos desejos por sangue em três dias, voltará a ser um homem. Caso contrário, libertará o vampiro da caverna e será amaldiçoado a viver eternamente como um monstro sobrenatural, que precisa se defender dos raios solares e da fúria dos homens.

Assim, com os poderes vampíricos, o príncipe tentará eliminar o exército inimigo o mais rápido possível, e procurará resistir, mesmo sabendo que a tentação será absoluta. Sozinho, ele combaterá um exército de mil soldados, com o poder de voar como um bando de morcegos, enquanto busca abrigo para sua família e seu povo em um castelo localizado numa colina na Transilvânia. Contudo, a sangrenta batalha final será inevitável, com cenas gráficas de violência, boa fotografia noturna e efeitos especiais interessantes.

Enquanto mantinha o mistério em torno do monstro da caverna – uma relação com Platão, talvez -, Drácula: A História Nunca Contada caminhava bem. O aspecto animalesco do vampiro dava um tom mítico e assustador à produção, até a transformação de Vlad. Houve quem comparasse seus poderes a um X-Men, capaz de varrer um exército no comando de morcegos agressivos. E a sensação é praticamente essa. Se apresentar Drácula como um herói injustiçado, um pai de família dedicado e uma lider poderoso foram ideias ousadas e bem realizadas, por outro lado a capacidade adquirida com seus poderes lhe deu um aspecto de herói/vilão dos quadrinhos, deixando de lado o horror da figura lendária. E, obviamente, desperta uma sensação de nostalgia ao relembrar o vampiro aterrorizante que poderia se transformar em morcego e em outras criaturas noturnas, observadas nas diversas adaptações.

Mesmo assim, com os aspectos técnicos bem orquestrados – a cena da batalha sobre o prisma da lâmina de uma espada é sensacional -, não deixa de ser uma produção bem feita, e que merecia uma atenção melhor. Há boas cenas de batalhas, boas atuações, com destaque para o bravo Luke Evans, e ótimos diálogos sobre o que o Homem desesperado é capaz de fazer. Se não pode ser comparado aos clássicos filmes da Universal, pelo menos traz uma visão diferente do príncipe da Valáquia, um contexto histórico que deveria ser explorado mais vezes no cinema.

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1 Comentário

  1. PEDRO E. MATOS

    Filme interessante.

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