Críticas, Quadrinhos

Dylan Dog 1 – Retorno Ao Crepúsculo (2016)

A estreante Editora Lorentz traz o detetive do pesadelo de volta às bancas como o personagem merece

Dylan Dog 1 – Retorno Ao Crepúsculo
Original:Ritorno Al Crepusculo
Ano:1991•País:Itália
Páginas:100• Autor:Tiziano Sclavi, Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani•Editora: Editora Lorentz

Criado pelo jornalista e escritor Tiziano Sclavi em outubro de 1986, para a Sergio Bonelli Editore, Dylan Dog, o detetive do pesadelo, logo se tornou o fumetti mais popular da Itália. Suas edições mensais chegaram ao estratosférico número de 1 milhão de revistas vendidas por mês, mas apesar de toda sua popularidade na terra da bota, Dylan Dog nunca teve no Brasil o mesmo sucesso. Lançado por aqui em 1991 pela Editora Record e, posteriormente, pela Conrad, Dylan Dog se encontrava fora das brancas brasileiras desde 2006, quando a sua última revista mensal, publicada pela Mythos Editora, chegou ao final na quadragésima edição.

Eis que, pouco após o personagem completar trinta anos, o retorno de Dylan Dog foi finalmente anunciado pela estreante Editora Lorentz, que como todo fã, sonhava em ver o personagem de volta às bancas. E com muita determinação e amor pelo personagem, a editora preparou três edições trimestrais inéditas trazendo histórias de três períodos distintos da cronologia do personagem. A primeira, Retorno ao Crepúsculo, chegou às bancas em abril, esgotando rapidamente em seu primeiro ponto de venda logo após o lançamento.

Retorno ao Crepúsculo, com roteiro do criador de Dylan Dog, Tiziano Sclavi, e arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani, publicada originalmente na revista Dylan Dog nº 57 de julho de 1991, mostra o detetive do pesadelo precisando retornar à cidade chamada Crepúsculo, um lugar preso no tempo onde os mortos continuam vivos e todos repetem o mesmo dia eternamente graças às intervenções de um misterioso médico. A história é uma continuação direta de A Zona do Crepúsculo, publicada em Dylan Dog nº 7 da Editora Record, mas, ao contrário dos gibis de super-heróis que prendem os leitores em uma teia cronológica inescapável, o leitor iniciante pode embarcar na aventura sem qualquer problema, pois Sclavi preenche todas as lacunas temporais com recordações e flashbacks na medida certa para que o leitor não se perca.

Vindo direto da primeira fase do personagem, que a primeira década de publicação do gibi original na Itália, De Volta ao Crepúsculo é um exemplo de Dylan Dog clássico. Estão presentes os dilemas morais do personagem central, suas paixões arrebatadoras por suas clientes misteriosas, as piadas do seu fiel assistente Grouxo e, um dos grandes diferenciais dos roteiros de Sclavi, o surrealismo das enrascadas em que Dylan frequentemente se envolve. A história possui um clima onírico e absurdo característico que, para o leitor iniciante, lembra muito o livro de Sclavi que inspirou a criação do gibi do personagem e, mais tarde, ao filme Pelo Amor e Pela Morte (1994). A arte de Giuseppe Montanari e Ernesto Grassani é correta e, mesmo não sendo as melhores da série, é uma das mais tradicionais e funciona representando as situações das mais comuns às mais absurdas com competência.

Por exemplo, em um determinado momento, um dos personagens narra um conto secreto de Edgar Allan Poe que coloca o famoso escritor americano diante do horror cósmico digno de H.P. Lovecraft e, em um simples interlúdio de pouco mais que dez páginas, a revista tem mais qualidade do que grande parte das histórias publicadas em banca atualmente. E mesmo que o leitor não aprecie este tipo de leitura mais surreal, é impossível não se apaixonar à primeira vista por Dylan Dog. O personagem é um dos mais humanos e sensíveis de toda a história dos quadrinhos e este é o grande trunfo por trás da popularidade do detetive do pesadelo. Sua tridimensionalidade, aliada à riqueza de sua mitologia com suas manias, suas características estranhas e seu rico elenco coadjuvante, mais do que justificam o grande sucesso que o Dylan atingiu em sua terra natal.

A Editora Lorentz faz um excelente trabalho de edição em sua estreia. Além da história, a revista conta com dois textos de Júlio Schneider, grande tradutor responsável por boa parte das publicações bonellianas no Brasil, e um pequeno editorial. O acabamento gráfico é de alta qualidade com papel offset de alta alvura e capa cartonada envernizada no formato italiano original (15,5 x 21 cm), exatamente como um dos maiores quadrinhos de horror de todos os tempos merece. O ponto negativo? Esperar três meses para reencontrar Dylan Dog. Mas isso não é nada comparado aos 11 anos que já esperamos. Que seja um sucesso e não tenhamos mais que esperar tanto tempo para rever este personagem tão querido.

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