Garganta do Diabo (2003)

Garganta do Diabo
Original:Cold Creek Manor
Ano:2003•País:EUA, Canadá, UK
Direção:Mike Figgis
Roteiro:Richard Jefferies
Produção:Mike Figgis, Annie Stewart
Elenco:Dennis Quaid, Sharon Stone, Stephen Dorff, Juliette Lewis, Kristen Stewart, Ryan Wilson, Dana Eskelson, Christopher Plummer, Simon Reynolds, Paula Brancati, Aidan Devine

De certa forma, o filme Garganta do Diabo é um caso clássico de propaganda enganosa. Quem viu o trailer ficou imaginando que se tratava de (mais) uma história sobre casa assombrada, com uma família da cidade grande mudando-se para um casarão no interior e enfrentando fantasmas e fenômenos paranormais – o trailer lembrava até uma versão moderna de Os Outros. O marketing do filme também tenta vendê-lo como algo mais assustador e aterrorizante do que ele realmente é. No fim das contas, Garganta do Diabo é um thriller um tanto comum, sem ser aterrorizante, sem ser sobrenatural, bastante convencional, porém que mantém a atenção até o fim.

Achei injusto que esta produção de 2003 tenha saído direto em vídeo e DVD no Brasil, sem ganhar uma chance no cinema (provavelmente pela péssima bilheteria do filme nos Estados Unidos, que chegou a míseros 21 milhões de dólares). É ainda mais injusto quando percebemos que baboseiras tipo Anaconda 2, que mereciam ir direto para o vídeo, foram lançadas nos cinemas brasileiros com toda pompa e divulgação. E, para ser ainda mais injusto, este suspense dirigido pelo respeitado diretor Mike Figgis (mais conhecido por dramas tipo Despedida em Las Vegas) possui poucas críticas ou resenhas nos principais sites de cinema nacionais.

Também achei injusto o fato de a maioria das críticas em sites americanos malharem o filme, dando-lhe nota zero para baixo (como se isso fosse possível), criticando a previsibilidade do roteiro, a semelhança com Cabo do Medo, de Martin Scorsese, a tal propaganda enganosa do trailer que eu já citei, entre outros fatores. Tudo bem que o filme não é lá nenhuma maravilha, mas também não é o caso de criticá-lo tão violentamente – tem muito filme pior recebendo boas críticas e grandes públicos nos cinemas!

Garganta do Diabo começa apresentando o casal Cooper (Dennis Quaid) e Leah Tilson (Sharon Stone), que vive em Nova York. Ele é um documentarista que edita seus filmes em casa e tem fascínio por arquitetura; ela, uma executiva que está sendo assediada pelo chefe para dormir com ele em troca da vice-presidência da empresa. Quando um acidente de trânsito envolve os filhos do casal, Kristen e Jesse, Cooper resolve que está na hora de abandonar os “perigos” da cidade grande e mudar-se para o interior. Lá, eles encontram uma velha mansão, Cold Creek Manor, que está sendo vendida pela mixaria de 210 mil dólares, porque seu antigo proprietário endividou-se com o banco.

A mansão tem toda cara de casa assombrada e de filme de horror, mas o pior é que ainda contém, no seu interior, todos os móveis e pertences da família Massie, antiga proprietária do local. Ao comprar o casarão, a família Tilson teve também direito a tudo que havia dentro. Cooper imediatamente fica fascinado com os documentos antigos, certidões de nascimento e fotos antigas dos Massie que encontra na casa, e resolve fazer um documentário sobre Cold Creek Manor, resgatando as gerações que ali viveram. Mas aos poucos a família começa a acreditar que o velho casarão esconde um mistério. Jesse encontra escondido, em cima do armário do seu quarto, um diário do garoto que vivia ali antes, e que escreveu uma mórbida poesia sobre “crânios esmagados” e uma tal “Garganta do Diabo“; já Cooper encontra fotos pornográficas da esposa do proprietário anterior da casa.

Então, quando tudo parece bem, surge do nada Dale Massie (Stephen Dorff), proclamando ser o antigo morador de Cold Creek Manor, e recém-saído da cadeia após cumprir pena de três anos por ter matado um pedestre num acidente de carro. É claro que Massie está furioso ao saber que perdeu seu velho casarão e todos os seus pertences para aquela família da cidade grande; mesmo assim, ele resolve trabalhar para Cooper fazendo reformas na casa – mas é claro que só está esperando para colocar em prática o seu plano de expulsar a família da sua propriedade, mesmo que para isso tenha que usar de violência.

E é isso: o que parecia um suspense sobrenatural, uma história da fantasmas, na verdade é a enésima variação do tema “psicopata aterroriza uma família“, tipo Cabo do Medo e outros tantos. Por trás de sua aparência amável, simpática e prestativa, Dale revela-se um homem violento, que começa a usar de truques sórdidos para expulsar os Tilson de sua propriedade (inclusive encher a casa de serpentes venenosas). Para piorar, o marginal é temido e respeitado na pequena cidade, sendo apoiado pelos moradores, que de repente ficam contra a família Tilson.

Mesmo enfrentando as hostilidades, Cooper não só resolve ficar no local, como ainda começa a investigar mais a fundo a história da mansão, acreditando que ela tenha servido de palco para um assassinato: o da família de Dale. Quando ele acusa o ex-presidiário de ter assassinado a mulher e os dois filhos pequenos, a xerife da pequena cidadezinha não acredita e pede que Cooper apresente mais provas. Assim, o documentarista resolve encontrar a chave do enigma, a tal “Garganta do Diabo” – mas Dale descobre sobre a investigação e fica na cola do rival.

Garganta do Diabo começa lentamente, mas a meia hora final é tensa e realmente consegue manter o espectador com os olhos grudados na TV. Uma cena em particular vale o filme: aquela em que os Tilson encontram, no meio da floresta que circunda a propriedade, um velho poço (A Garganta do Diabo), e Cooper deixa descer sua câmera de vídeo amarrada a uma corda para ver o que existe no fundo (reminiscências de O Chamado?). A revelação, embora previsível, é mórbida.

A maior parte do filme é previsível devido ao excesso de clichês no roteiro de Richard Jefferies (o roteirista do excelente filme B Espantalhos): há desde o animal de estimação da família (um cavalo) que é morto pelo psicopata até a tradicional cena onde o vilão aparece disfarçado de policial para pegar os heróis (e o espectador) de surpresa. Também tem seus furos, como mostrar um carro abandonado há anos no bosque que cerca a mansão (como se ninguém nunca tivesse passado por lá em todos estes anos e encontrado o veículo); e não dá para engolir o extremo ceticismo da xerife da cidadezinha, que mesmo tendo algumas provas circunstanciais na mão (inclusive dentes que poderiam pertencer à filha desaparecida de Dale), recusa-se a acreditar que Massie tenha matado seus familiares, e nem ao menos investiga o caso ou pede a prisão provisória do suspeito, deixando que Cooper faça tudo por conta própria. Outra falha grave é que nestes tempos de M. Night Shyamalan, o final nem tem surpresas, resumindo-se ao tradicional confronto “homem civilizado” contra “psicopata do interior“.

O que valoriza o filme é o excelente elenco, que além de Quaid, Sharon e Dorff conta também com Christopher Plummer (tão velho, interpretando o pai de Dale, que eu nem o reconheci) e Juliette Lewis, que está velha e feia, não lembrando nem um pouquinho aquela linda ninfeta que protagonizou filmes famosos tipo Assassinos por Natureza e Um Drink no Inferno. Curiosamente, Lewis também está em Cabo do Medo, filme com o qual Garganta do Diabo é bem parecido.

O roteiro tem o mérito de preferir o suspense ao exagero, inclusive mostrando alguns detalhes macabros, como as ferramentas para abate de animais (martelos com ponta de ferro) existentes no interior da mansão. Se o filme conta a mesma historinha de sempre, requentada e com um cenário sinistro para manter o interesse, pelo menos o faz com um bom nível, garantido pela direção segura de Figgis. Quem espera sustos e extremo horror vai se decepcionar. Até porque o diretor não tem qualquer intimidade com o gênero: seu negócio é drama, e aqui ele prefere analisar as relações humanas entre os rivais Cooper e Dale, ao invés de criar sustos fáceis e baratos. No DVD do filme, existe até uma cena excluída, com 10 minutos de duração (!!!), onde os dois se enfrentam numa dramática partida de sinuca, enquanto Cooper tenta provocar o inimigo.

Como curiosidade, o DVD traz também um final alternativo bem mais interessante do que o “oficial“, onde o próprio diretor aparece como um repórter que entrevista os sobreviventes sobre sua experiência traumática – eles escreveram um livro sobre os acontecimentos que testemunharam, que se transformou em best-seller. Este fim alternativo também explica melhor o destino de alguns personagens secundários, que na versão oficial simplesmente foram esquecidos.

Com todos seus defeitos e acertos, confesso que achei Garganta do Diabo melhor que a média. Mesmo com aquela cara de “telefilme de sábado à noite“, consegue ser agradável na condução do seu mistério e no confronto entre os personagens, sem parecer inverossímil ou exagerado. E isso é raro nos dias de hoje.

(Visited 537 times, 1 visits today)
Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

WP-Backgrounds Lite by InoPlugs Web Design and Juwelier Schönmann 1010 Wien