Críticas, Quadrinhos

Homem-Animal: Presas e Garras (2017)

O Homem-Animal de Jamie Delano segue relevante vinte e cinco anos depois de sua publicação original.

Homem-Animal: Presas e Garras
Original:Animal-Man 57 a 63
Ano:2017•País:EUA
Páginas:180• Autor:Jamie Delano, Steve Pugh, Russ Braun, John Higgins e Brian Bolland•Editora: Panini

Existem três pilares que serviram de fundação para a construção do selo adulto da DC Comics, a Vertigo. O primeiro deles foi o revolucionário e arrebatador Monstro do Pântano de Alan Moore, publicação que abriu caminho para a chamada “invasão britânica”, movimento que trouxe importantes nomes dos quadrinhos britânicos para as grandes editoras americanas. Sandman, o épico de horror e fantasia de Neil Gaiman,  talvez seja o pilar mais famoso desta base, mas foi o Hellblazer de Jamie Delano que estabeleceu alguns dos principais parâmetros para os próximos títulos autorais da DC Comics que, futuramente, dariam origem à Vertigo.

Jamie Delano foi escolhido a dedo por Alan Moore para escrever Hellblazer, título que daria continuidade às aventuras de John Constantine, personagem criado por Moore durante sua fase no Monstro do Pântano, onde Delano pôde destilar toda a sua verve política em histórias recheadas de crítica social, sem medo de cutucar as feridas abertas da Inglaterra durante o mandato de Margaret Tatcher. Após seu longevo run em Hellblazer, publicado originalmente nos EUA entre 1988 e 1991, Delano assumiu o título do Homem-Animal na edição de número 51 em setembro de 1992 e, logo de início, o autor matou o personagem principal, mudando todo o status quo da revista e preparando o terreno para o que tinha em mente.

Delano afastou o personagem de suas origens como super-herói, estabelecendo-o como um pai de família preocupado com o meio-ambiente e o futuro de seus filhos, inevitavelmente sempre às voltas com o sobrenatural. Enquanto Grant Morrison, responsável pela reformulação do Homem-Animal, levantava discussões sobre os direitos dos animais e vegetarianismo, Delano se aproveitou do período em que o mundo debatia o meio-ambiente na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, também conhecida como Eco-92, e colocou o herói em uma cruzada ambientalista, questionando o papel do homem nas mudanças climáticas, extinção de animais e consumo desenfreado. O autor também foi o responsável por estabelecer a importância de Maxine, filha do personagem, dando a ela poderes superiores ao do Homem-Animal e aproximando-a ainda mais da vida selvagem devido à sua inocência infantil.

Enquanto o encadernado anterior da fase do personagem escrita por Delano, Carne e Sangue (Panini, 2017), se aproximava muito mais de uma história de super-herói com altas doses de horror, este segundo encadernado é muito mais próximo da obra autoral de Jamie Delano. A capa da edição, a mesma usada para este encadernado, é emblemática e define visualmente todos os pontos levantados pelo escritor à frente do título. Nela, o Homem-Animal passa com passos rápidos em frente à vitrine de um açougue, visivelmente irritado, enquanto Maxine segue atrás, olhando para os animais mortos e apertando seu ursinho de encontro ao peito. Cliff, o filho rebelde de Buddy, segue atrás olhando ao redor encabulado. Poucas vezes uma capa conseguiu traduzir de maneira tão eficaz o conteúdo de uma obra. Cortesia de Brian Bolland, responsável por todas as capas da revista desde seus primeiros números.

A história que abre o volume é a primeira do personagem já sob o selo Vertigo e mostra Buddy Baker, identidade secreta do Homem-Animal, indo às compras com seus filhos enquanto sua esposa, Helen, viaja para Nova Iorque a trabalho. Logo de cara Delano já critica o “American Way of Life” baseado no consumismo desenfreado, fala sobre o direito dos animais ao levar Maxine a uma loja de animais de estimação, e levanta questões sobre o feminismo, ainda nos anos 90, com os quadrinhos no auge da sexualização de suas heroínas com o estilo Image Comics de ser. Helen quer um tempo para si, deixando a família aos cuidados do marido e aproveitando a viagem de negócios para rever uma amiga, mas acaba assediada sexualmente, fato que desencadeia uma sucessão de acontecimentos que a envolvem com um grupo feminista radical especializado em resolver problemas de mulheres que não encontram ajuda nas instituições patriarcais. A personagem então decide ultrapassar uma linha tênue, uma atitude questionável que se mostra necessária para as discussões pretendidas por Delano.

O segundo, e maior arco, do encadernado leva a família Baker de férias para uma pequena praia no litoral dos EUA devastada pela industrialização desenfreada da cidade próxima. Algo na região mexe com os animais e com os poderes de Buddy e pode estar relacionado com a natureza tentando revidar após anos de exploração e maus tratos. Há ainda uma discussão sobre o impacto da poluição na vida selvagem e na sociedade, na forma dos direitos do trabalhador e doenças causadas por atividades insalubres e dejetos despejados indevidamente na natureza. O final é apoteótico e catártico colocando a humanidade frente a algo ancestral tão poderoso e para o qual não estamos preparados. A arte de Steve Pugh, embora não seja espetacular, consegue retratar as situações, das mais corriqueiras às mais absurdas, com competência.

Enquanto boa parte do material da Vertigo dos anos 90, recheado de experimentalismo e ousadia, envelheceu mal e acabou datado, o Homem-Animal de Jamie Delano segue relevante vinte e cinco anos depois de sua publicação original. O que aconteceria se a natureza resolvesse revidar depois de tanto tempo sendo maltratada? Conseguiríamos resistir? Existe uma maneira segura de coexistirmos? Delano busca mostrar aqui o quão somos pequenos e pretensiosos diante da teia da vida com nossas atitudes mesquinhas e estilo de vida consumista e irresponsável. Da família jogando lixo na beira da estrada à fábrica despejando dejetos no mar, somos todos culpados. O mais cruel de tudo é perceber que, mais de duas décadas depois, nós ainda não aprendemos nada!

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2 Comentários

  1. John Bueno

    Show de bola, essa fase é literalmente Animal!!!

    • Sem dúvidas! O melhor encadernado pós-Grant Morrison!

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