Críticas

O Farol da Morte (1999)

Se você quer a prova de que um slasher pode ser suficientemente criativo e interessante para manter sua atenção, O Farol da Morte é a produção modesta que poderá comprovar esta teoria!

O Farol da Morte
Original:Lighthouse / Dead of Night
Ano:1999•País:UK
Direção:Simon Hunter
Roteiro:Simon Hunter, Graeme Scarfe
Produção:Tim Dennison, Mark Leake
Elenco:James Purefoy, Rachel Shelley, Christopher Adamson, Paul Brooke, Don Warrington, Christopher Dunne, Pat Kelman, Peter McCabe

Sempre que eu vejo um filmão como O Farol da Morte (Lighthouse) ser lançado no Brasil sem qualquer destaque, sem receber um mínimo da atenção que deveria, sem nem ao menos ser falado em revistas especializadas em cinema ou sites da Inernet, sendo tristemente condenado a mofar para sempre nas locadoras, acabo ficando deveras entristecido. E cada vez que isso acontece, eu confirmo que as grandes produtoras de filmes de horror, tipo Dimension e New Line, estão sendo dirigidas por um bando de imbecis que sinceramente não estão antenados para o mundo cinematográfico atual.

Isso porque qualquer sujeito com um mínimo de amor pelo cinema, e que tivesse assistido a O Farol da Morte (lançado em 1999), não pensaria duas vezes em contratar o diretor, um inglês chamado Simon Hunter, para fazer filmes com orçamento maior e melhor divulgação. Mas, ao invés de isso acontecer, os estúdios americanos preferem colocar doses generosas de grana nas mãos de incompetentes, como Uwe Boll (o cara por trás de House of the Dead) e William Malone (o cara por trás de MedoPontoCom), entre outros nomes que eu nem vou citar aqui.

É a prova de que o mundo é um lugar injusto. Pois reassistindo O Farol da Morte, pensei no que Simon Hunter faria se tivesse sido contratado, por exemplo, para dirigir Halloween Ressurreição, no lugar do péssimo e burocrático Rick Rosenthal. E pensei nisso justamente porque este debut cinematográfico de Hunter (que depois faria Era da Escuridão, apenas em 2008) lembra, do início ao fim, o Halloween original, de John Carpenter. E o melhor: não faz feio na comparação. E arrepia! E prende a atenção! E realmente deixa o espectador roendo as unhas!

Se eu disser que O Farol da Morte é apenas um slasher movie – aqueles filmes tipo Sexta-feira 13 onde um assassino mudo sai matando todo o elenco -, eu estaria definindo muito bem o filme. É isso mesmo. Por outro lado, também estaria sendo extremamente injusto. Pois este filme de Simon Hunter é a prova de que com talento e criatividade é possível tirar leite de pedra, ou, neste caso, fazer um ótimo filme a partir da mais batida das tramas, a do serial killer perseguindo pessoas em um lugar isolado, que não é mais novidades desde que Alfred Hitchcock fez Psicose lá em 1960.

Mas o que, afinal, diferencia este slasher movie inglês, dirigido em 1999, de todos os outros feitos nos últimos anos, da série Sexta-feira 13 até podreiras como a trilogia Acampamento Sinistro e Pânico???

Bem, para começar, temos uma história que realmente convence (ao contrário de balelas tipo Lenda Urbana e Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado), um elenco interessado e que realmente está atuando (as expressões de pavor ficam próximas da realidade), cenas de extrema violência que não são a atração principal do espetáculo (ao contrário do que acontece na série do nosso amigo Jason, por exemplo), cenas de suspense que deixam o espectador literalmente angustiado de tanta aflição (sem brincadeira!), e, o que é melhor, um vilão que realmente passa uma ideia de ameaça e medo (fala sério: alguém que passa dos 12 anos realmente tem medo de um Freddy Krueger????).

O tal vilão é Leo Rook (“interpretado” por Christopher Adamson, que não fala uma única palavra e está quase sempre com rosto encoberto pela escuridão, ressaltando que ele é, como Michal Myers no filme de John Carpenter, o “Mal absoluto“). Rook é um serial killer sobre o qual não sabemos muita coisa (nem o filme faz questão de esclarecer), além do fato que ele adora colecionar cabeças decepadas, adora usar sapatos brancos e não é de falar muito.

Nunca sabemos quantos crimes Rook cometeu e nem sua motivação, mas a forma como os personagens falam do vilão nos faz acreditar que ele é o verdadeiro demônio em pessoa (mais uma vez: isso não lembra o velho e bom Michael Myers, de Halloween, pintado como um verdadeiro “bicho-papão” pelo seu psiquiatra dr. Loomis no filme de Carpenter?). Tanto que a simples menção do nome “Leo Rook” leva os personagens ao total desespero, faz com que eles arregalem os olhos de medo e comecem literalmente a tremer e a se desesperar, provocando no espectador uma ansiedade semelhante – afinal, o quão horrível este tal Leo Rook pode ser?

O Farol da Morte começa com uma rápida introdução em preto-e-branco, onde a psiquiatra dra. Kristy McCloud (interpretada por Rachel Shelley) assiste a velhos filmes feitos pela polícia nas cenas de crime de Leo Rook, enquanto datilografa parte do seu estudo sobre o serial killer. Kristy é a especialista que vem tratando Rook desde que ele está na cadeia, em mais uma referência à série Halloween, que tinha como herói o psiquiatra dr. Sam Loomis (o imortal Donald Pleasence).

Enquanto a dra. Kristy divaga, temos uma pré-apresentação da crueldade e do Mal absoluto que Leo Rook representa: “Palavras como PERDÃO não entram em questão. Ele é parte humano, parte caçador, parte demônio, parte maligno… Talvez a natureza da sua brutalidade jamais seja entendida ou explicada. Mas a força de seu nome ficará para sempre em nossas lembranças… O nome de Leo Rook“, narra a psiquiatra, enquanto a montagem dinâmica apresenta cenas escabrosas e recortes de jornal sobre a prisão do assassino, onde lê-se a manchete “Crimes of a devil” (crimes de um demônio).

Após a rápida seqüência de abertura, o filme corta, sem perder tempo, para o interior de um escuro e claustrofóbico navio, o Hyperion, que está transportando três prisioneiros para a penitenciária de segurança máxima que fica em uma ilha inglesa. O quarto prisioneiro, trancafiado em segredo numa cela especial, com guarda particular, é o próprio Leo Rook, enjaulado e acorrentado numa jaula como o dr. Hannibal Lecter em O Silêncio dos Inocentes. Ele é levado em segredo para não despertar o pânico no capitão do navio ou nos outros prisioneiros. É noite escura e de tempestade, como convém às produções do gênero…

O roteiro não perde tempo com frescuras: já aos cinco minutos, Rook escapa da cela com a ajuda de uma admiradora que estava infiltrada no grupo de policiais. Ele mostra sua “gratidão” à moça torcendo seu pescoço, após estrangular o sentinela, e escapa do navio em um bote rumo a uma ilha próxima, onde existe o farol Gehenna – um dos últimos faróis do Reino Unido que ainda é administrado por seres humanos, ou seja, não foi automatizado, como os outros.

Enquanto isso, o navio – onde também estão quatro oficiais de justiça e a psiquiatra de Rook, além dos três presos – segue uma curta viagem, pois o radar está danificado, chocando-se contra os recifes e começando a afundar. Os oficiais e a psiquiatra se salvam, deixando para trás os prisioneiros, que precisam se salvar por conta própria. Um deles é Richard Spader (James Purefoy, o vilão de Resident Evil), que logo entendemos ser o “herói” do filme, considerando que é o típico personagem que está preso por um crime que não cometeu. Os outros são Spoons e Weevil, literalmente “o gordo e o magro“, que foram algemados um ao outro por um dos policiais.

Também estão entre os sobreviventes o arrogante oficial-chefe O´Neill (Chris Dunne), o covarde oficial Ian Goslet (Don Warrington), o capitão do navio, Campbell (Paul Brooke) e o jovem oficial Hopkins (Peter McCabe).

Ao mesmo tempo em que o grupo se salva, Rook já está na ilha fazendo seu serviço preferido. Ele mata dois dos vigias do farol, enquanto o terceiro escapa. Logo os outros personagens, que se salvaram do naufrágio, resolvem ir até o farol em busca de um rádio para pedir ajuda e de medicamentos para os feridos no acidente. Eles terão, obviamente, que enfrentar a fúria do maligno Leo Rook, que os persegue e mata um a um, armado com um enorme e afiado facão. No percurso, destrói o bote que serviria para o grupo escapar da ilha e ainda danifica todo e qualquer equipamento de comunicação, isolando os sobreviventes no local para poder caçá-los de forma mais prazerosa.

E é isso. O filme não se preocupa em explicar alguns detalhes (como o crime pelo qual Spader é injustamente acusado, ou a motivação do sádico Leo Rook), mas sim em criar um agradável e arrepiante clima de suspense. A maior parte do filme se passa na escuridão de uma noite chuvosa, em uma ilha cercada pelo mar enfurecido. Ou então no interior do apertado, e também escuro, farol – onde não há lugar para se esconder e nem escapatória.

Seria muito cômodo fazer um filme como Sexta-feira 13, onde os assassinatos de tempos em tempos preenchem a falta de história e disfarçam a produção medíocre. Mas O Farol da Morte realmente quer pegar o espectador pelos cabelos e deixá-lo vidrado com o que está acontecendo, com os nervos à flor da pele.

Para dar só um exemplo da refinada manipulação do suspense, em uma cena, filmada com precisão de profissional pelo estreante diretor, um oficial está no banheiro ouvindo, ao fundo, o som do rádio que acabou de consertar para comunicar-se com o serviço de resgate.

De repente, escuta o barulho do equipamento sendo destruído, e então passos que parecem cada vez mais próximos.

Ele se abaixa para ver por baixo da porta e enxerga os sapatos brancos característicos do cruel Leo Rook, com sangue pingando em cima e tudo mais.

Desesperado e sem saída, sobe em cima do vaso sanitário para que o psicopata não veja seus pés.

Enquanto isso, Rook examina o cenário em busca da sua vítima.

Agoniado, o espectador quase tem um treco quando o cotovelo do pobre policial encosta em um tubo de desodorante e este cai no chão, pronto para fazer o maior barulhão e alertar o assassino…

Entretanto, para a sorte do candidato a vítima, o produto cai bem em cima de uma toalha, abafando o som!

Mas calma!

A cena ainda não acabou!

Você já está respirando aliviado, Rook já está dando meia volta e descendo as escadas, mas então o oficial, louco para cair fora daquela ratoeira, levanta e, sem pensar, puxa a toalha, aquela onde o desodorante caiu em cima!

O tubo rola em câmera lenta por baixo da porta do banheiro…

Com a câmera no teto, o diretor filma uma panorâmica mostrando o atrapalhado oficial suando frio, o tubo rolando em direção à escada e o maligno Rook descendo calmamente os degraus.

É óbvio que aquilo vai cair e fazer um barulhão danado, alertando o psicopata.

Mas, novamente para a sorte do policial, o tubo de desodorante pára bem na beira da escada, a centímetros de cair degraus abaixo!!!

Então vocês já está respirando aliviado mais uma vez e acredita que o pior já passou, Rook já está quase no fim da escada, o oficial já está quase saindo do banheiro, e eis que de repente a ventania abre a janela violentamente, num estouro daqueles que certamente faria o público pular da poltrona do cinema.

A ventania empurra toalhas, folhas de papel e, claro, o tubo de desodorante, que cai em câmera lenta descendo os degraus da escada, fazendo o maior barulhão e alertando o psicopata, preparando o público para mais um crime sangrento… que certamente não teria a mesma graça sem esta autêntica novela antecedendo o desenlace violento!

E olha que O Farol da Morte ainda entrega outras duas cenas parecidas, onde o espectador fica com os nervos em frangalhos esperando para ver o que vai acontecer. Em uma delas, um outro oficial se esconde justamente no barco usado por Rook para guardar as cabeças decepadas de suas vítimas, tendo junto um walkie-talkie que a qualquer momento pode dar sinal, entregando ao psicopata a localização da vítima escondida – e o diretor insiste em filmar o aparelho, brincando com a ideia de que é ele que decidirá o destino do personagem.

Na outra cena angustiante, os dois bandidos que foram algemados no começo do filme caem de um barranco quando estão fugindo do assassino; um deles perde os sentidos, e o outro precisa decidir o que fazer: tentar puxar o corpo desmaiado do parceiro na fuga, o que fatalmente irá fazer com que corra mais lentamente, ou decepar sua mão com um machado, escapando sozinho?

Numa clara influência do cinema europeu, as mortes são violentíssimas. Mesmo que não exista uma variedade de objetos usados para machucar (Leo Rook usa um facão o filme inteiro), o filme é suficientemente sangrento para agradar aos fãs de gore. Pescoços cortados jorram rios de sangue, em efeitos bem realizados e impressionantes. Ao mesmo tempo, há a tradicional cena de uma cabeça decepada desgrudando do corpo, melhor encenada do que a média. E os atores parecem realmente apavorados com a ameaça do assassino e com a possibilidade de morrer, ao contrário da garotada sem emoção que domina o atual “terror teen“.

É claro que no final o filme parte para os exageros, mostrando Rook como um vilão invencível e imortal (mais um detalhe que o assemelha a Michael Myers). Mas nem a luta final pode ser considerada previsível. Tanto que em um momento de forte suspense e violência, o “herói” fica pendurado no topo do farol segurando a mocinha dependurada. Não pela mão, nem pela perna, mas pelos cabelos!!! E o diretor faz questão de mostrar o sangue escorrendo pelo rosto da moça e o seu couro cabeludo literalmente desgrudando ao seu peso! Brrrrr…

Resumindo: se você quer a prova de que um slasher movie pode ser suficientemente criativo e interessante para manter sua atenção mesmo depois de 20 anos repetindo os mesmos clichês, O Farol da Morte é a produção modesta que poderá comprovar esta teoria. A ordem das mortes segue o padrão do gênero e de cara o espectador já adivinha quem vai sobreviver. Mas é o caminho até lá (e as situações criadas pelo roteiro do próprio diretor Hunter) que vale o preço da locação, trazendo alguns excelentes momentos de suspense e horror, como o dito “cinema slasher” há muito tempo não mostra.

Ou, para resumir, são 95 minutos de pura diversão sangrenta, arrepios e sustos. Não vai mudar a vida de ninguém, nem merece ser visto como um “novo clássico” do cinema – apenas diverte mais do que a maioria dos filmes americanos de horror da nova safra…

Mesmo assim, o filme ganhou dois prêmios de menor importância em festivais voltados ao horror: o troféu de Melhor Filme Fantástico Europeu de 2000, no Festival Cinenygma, de Luxemburgo, e o prêmio do júri, também em 2000, no FantaFestival, de Roma. Como curiosidade, nos EUA o filme foi lançado com o péssimo título de “Dead of Night” (forçando uma comparação com o clássico de mesmo título lançado em 1945). E custou apenas 3 mihões de dólares (não dá uma puta raiva pensar que uma bobagem como House of the Dead teve orçamento de 10 milhões e saiu como saiu???).

O Farol da Morte é o filme perfeito para esquecer bobagens como Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, Lenda Urbana, Pânico e outros menos cotados. E talvez aí esteja o motivo para não ter feito o sucesso que merecia: sem atores “teen” no elenco, sem astros de “Friends” ou “Dawson´s Creek“, sem trilha sonora pop-rock, a garotada não iria querer assistir. Mesmo assim, e ignorando o sucesso fácil, o diretor não colocou nada disso no seu filme.
Ainda bem!

Assistam e comprovem minhas palavras. Amém!

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2 Comentários

  1. ” Lighthouse ” de 1999 está na minha coleção , comprei o VHS na locadora que tinha no meu bairro e infelizmente fechou , era a minha segunda casa , que nostalgia !

    • Gabriela Prado

      Olha, lendo seu texto fiquei com vontade de reassistir. Sim, reassistir, porque quando era criança, fissurada por terror, eu não gostei do filme. Acho que pq não tinha muita maturidade para perceber essas coisas hahaha onde será que acho?

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