Críticas

A Torre Negra (2017)

Foi completamente destruída. Mas, não pelo Homem de Preto ou pela força psíquica das crianças especiais!

A Torre Negra
Original:The Dark Tower
Ano:2017•País:EUA
Direção:Nikolaj Arcel
Roteiro:Nikolaj Arcel, Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen
Produção:Akiva Goldsman, Ron Howard, Erica Huggins
Elenco:Idris Elba, Matthew McConaughey, Tom Taylor, Dennis Haysbert, Ben Gavin, Claudia Kim, Jackie Earle Haley, Fran Kranz, Abbey Lee, Katheryn Winnick

A torre das expectativas é mais frágil do que se imagina. Por mais disposição e boa vontade que um fã possua, um ângulo de imagem ruim ou trailer que evidenciam CGI e clichês podem destrui-las antes mesmo da estreia. Às vezes, ele até se surpreende quando a amostra não condiz exatamente com o seu conteúdo – algo raro, é preciso deixar claro -, e o que se esperava acaba despertando a satisfação mínima necessária. Isento dessas perspectivas, fica mais fácil digerir e avaliar o que foi visto. A franquia litéraria A Torre Negra sempre foi uma das mais queridas produções de Stephen King. Mesclando diversos gêneros e subgêneros, como a fantasia e o western, ela teve início em 1982 e foi se expandindo de maneira sobrenatural, além do que imaginava o autor, até seu encerramento em 2004, sem contar o ebook e audiobook lançados em 2012. Em 2007, o projeto de transformá-la em cinema e série de TV começou a ser discutido por diversos estúdios, como a Universal, Paramount, Columbia-Tristar Entertainment e a Lionsgate, e vários cineastas estiveram envolvidos com o título – J. J. Abrams foi um dos que mais demonstraram empolgação, mas abandonou a adaptação em 2009, alegando que não tinha interesse em trabalhar em seus livros favoritos, dedicando sete anos de sua vida na transposição.

Depois foi a vez de Ron Howard, que, inclusive, havia escolhido como protagonistas Javier Bardem e Viggo Mortensen. Outros nomes apareceram nos papéis principais, passando de Russell Crowe para Liam Neeson, sem uma definição oficial e a tradicional luz verde do estúdio. Nesse ínterim, o roteiro também teve várias versões até culminar nas mãos de quatro pessoas na decisão final: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, Anders Thomas Jensen e Nikolaj Arcel, sendo que este último assumiu a cadeira de diretor, sob a produção da Sony Pictures. Ao invés de adaptar qualquer um dos livros, os roteiristas optaram por um complemento da série, de maneira que respeitasse os produtos originais (seria muito ousado tentar mexer no imaginário dos fãs) e acrescentasse novos elementos. O passeio das cadeiras e responsabilidades foi encerrado no começo de agosto, com a estreia da produção em diversos países, exceto no Brasil, que teve que esperar por mais vinte dias.

Será que as imensas expectativas foram atendidas, mesmo quando as pequenas doses de imagens e vídeos não foram assim tão empolgantes? Com um orçamento estimado em U$60 milhões de dólares, o filme atingiu U$71 pelo mundo e deve ficar na casa dos 80, 90, com a estreia brasileira. Ele se pagou oficialmente, mas foi muito aquém do que se esperava, tanto na opinião dos leitores de Stephen King quanto dos críticos. Palavras como “desastre” e “terrível” apareceram em muitas resenhas, que também não pouparam a dupla principal, considerando-a completamente sem química na tela. E o que dizer daquele que não leu os livros e não tinha a expectativa de acompanhar uma adaptação, mas uma grandiosa produção que levava nos pôsteres o nome de seu autor favorito?

Considero um dos meus principais pecados como fã assumido de Stephen King a minha total ignorância em relação a essa série literária. Sempre preferi suas histórias que fossem mais assustadoras do que fantasiosas, embora tenha lido para meu TCC sobre o gótico a obra Os Olhos do Dragão. Esse ano comecei a correr atrás dos livros, arrependido pelo tempo perdido, mas optei por esperar a versão cinematográfica, consciente de que não daria tempo de ler a série toda até o lançamento. Ao sair do cinema, após uma sessão para jornalistas, cheguei a cogitar para amigos em minha rede social a possibilidade de deixar a franquia de lado por mais tempo, algo que provavelmente não acontecerá devido a minha veia curiosa e o incentivo recebido. Contudo, são evidentes as falhas desse filme, e não podem ser ignoradas, seja pelos fãs da literatura, quanto os de uma boa produção fantástica.

O longa começa em meio a sonhos lúcidos do jovem de onze anos, Jake Chambers (Tom Taylor). É apenas mais um de seus pesadelos que envolvem uma grande torre negra, recebendo raios captados pela energia psíquica de crianças, capturadas por criaturas que vestem peles humanas. Em meio a uma nova tentativa falha de destruí-la, é possível observar a liderança de um homem vestido de preto, Walter (Matthew McConaughey), e a luta do Pistoleiro Roland (Idris Elba) para impedir tal ameaça. Enquanto a mãe de Jake, Laurie (Katheryn Winnick), tenta ajudar o filho “problemático” com psiquiatras, seu padrasto Lon (Nicholas Pauling) acredita que uma reclusão possa ser o melhor caminho para afastá-lo de sua relação.

Quando está prestes a ser levado para uma instituição, apesar de estar consciente de que se tratam dos monstros que querem prendê-lo à máquina, Jake resolve correr em direção a uma de suas visões, uma casa velha que talvez traga as respostas que procura. Em um fórum na internet, ele descobre o bairro e foge pelas ruas para o local, que mantém um acesso ao Mundo Médio, uma das dimensões que são protegidas pela Torre Negra. Uma vez destruída, a escuridão assumirá o controle de todos os espaços, e a vida se extinguirá. Jake chega ao estranho e desértico mundo, e encontra o Pistoleiro, convencendo-o de seus pesadelos a ponto dele imaginar que uma vidente possa mostrar o endereço onde as crianças estão sendo mantidas.

Depois que perdeu o pai para o Homem de Preto, o último dos pistoleiros segue no encalço do poderoso vilão, que não entende porque não consegue atingi-lo com suas mágicas. Assim que percebe que o menino que está no local possui a capacidade de destruir a torre, Walter passa a seguir seus rastros, seja no mundo de onde ele veio ou pelo vilarejo de Arra (Claudia Kim). Já Roland, um descendente da linhagem de Rei Arthur e que possui balas feitas da Excalibur (!!), acredita que possa vencer o inimigo em sua base de controle, em um confronto que trará desafios e precisará de muita coragem e resistência.Jake exerce o papel do não-leitor da franquia. Todas as informações necessárias para a compreensão da mitologia desenvolvida por King são apresentadas ao jovem, que aos poucos entende as dimensões e sua importância nele. Nota-se que o conteúdo tem realmente potencial, imaginando ambientes a serem explorados e seres perigosos que buscam o fim do ágil Pistoleiro. No entanto, transformar tudo o que se espera em um longa de pouco mais de 90 minutos é já deixar claro que o enredo será atropelado, sem desenvolvimento de personagens, sem exploração adequada de seus elementos.

Tudo acontece de maneira abrupta, como se fosse fácil digerir um sistema tecnológico de localização de pessoas por dimensões em meio a desertos longínquos de uma terra em ruínas, vivendo em tocas e cidades rurais. Também não é complicado aceitar esses diversos portais, um necessitando da força de um vilarejo, que atravessam regiões, sendo que um sempre esteve escondido numa espécie de sistema de identificação bancária de uma casa velha. Quem morou ali? Como nunca ninguém notou sua tecnologia disfarçada? Provavelmente, os livros devem explicar com mais clareza, sem que o espectador simplesmente precise aceitar qualquer coisa fantástica que apareça na tela. Se os efeitos especiais não comprometem o trabalho, o mesmo não se pode dizer da dupla de protagonistas, principalmente do estereotipado Matthew McConaughey. Se eles não forem indicados ao Framboesa de Ouro como Pior Dupla em Cena, a premiação que antecipa o Oscar terá sido extremamente injusta.

Se o elenco não ajuda e o enredo é esquemático demais, com clichês e situações óbvias, os roteiristas tentaram lembrar o público que se trata de uma obra baseada em Stephen King com inúmeras referências. A aparição do hotel Overlook e as gêmeas, de O Iluminado; o parque em ruínas com o nome Pennywise que remete a It; o vilão de Salem’s Lot na loja “Barlow and Straker’s“; o carro Christine em formato brinquedo; e até o passeio de um cão São Bernardo…são lembranças gratuitas de obras mais bem conceituadas do escritor. E há também referências à série literárias como a frase “All Hail The Crimson King” do casarão, mas que soarão como pequenas pontas dentro de um imbróglio cinematográfico.

É triste perceber o que fizeram com todo o material de A Torre Negra, resultando em algo simples e distante do apontam sobre o original. Ela foi realmente destruída, mas não pelo Homem preto, e, sim, por aqueles que não souberam honrar a literatura do escritor em um trabalho mais bem lapidado e feito com carinho. Tendo como base séries como 11-22-63 e Mr.Mercedes, fico imaginando o que poderia ser feito para a TV, em doses mais adequadas a todo o universo desenvolvido.

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2 Comentários

  1. Carlos Dente

    “um sistema tecnológico de localização de pessoas por dimensões em meio a desertos longínquos de uma terra em ruínas, vivendo em tocas e cidades rurais” – He-Man?

  2. Carlos Dente

    ‘A Torre Negra’ gerou uma série de Quadrinhos bem interessante, escrita com apoio do próprio King.

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