Críticas

Colossal (2017)

Mesmo com cenas finais que poderiam ter atingido um clímax ainda maior, o longa não deixa a desejar e termina com uma situação irônica excelente

Colossal
Original:Colossal
Ano:2017•País:Espanha, Canadá
Direção:Nacho Vigalongo
Roteiro:Nacho Vigalongo
Produção:Nicolas Chartier
Elenco:Anne Hathaway, Jason Sudeikis, Austin Stowell, Tim Blake Nelson, Dan Stevens

Colossal é classificado pelos sites de cinema como ficção. Mas podemos dizer que é uma ficção esquisita. Pode parecer estranho chamar uma filme de ficção desse modo, já que todos eles tem uma história fantástica de seres completamente estranhos à nossa realidade. Entretanto, o diferencial aqui não são as criaturas, mas a própria narrativa.

Gloria (Anne Hathaway) está desempregada e morando com o namorado em Nova York. Vivendo de forma estagnada, ela sai para beber durante a noite, em um nível de alcoolismo, e dorme durante o dia sem tomar atitudes sobre sua vida. Cansado de tudo isso e sem tentar ajudá-la de forma mais incisiva, o namorado Tim (Dan Stevens) termina o relacionamento e pede que ela saia de sua casa. Sem muitas opções, Gloria volta a sua pacata cidade natal onde reencontra Oscar (Jason Sudeikis), um colega de escola. Para piorar sua situação com as bebidas, Oscar é dono de um bar e oferece emprego à Gloria, que faz, fala e ouve coisas durante as noites de bebedeira sem se recordar de nada no dia seguinte.

Com alguns dias na cidade, Gloria vê as notícias de um monstro que aparece todos os dias por cinco minutos na cidade de Seul, na Coréia do Sul, destruindo parcela do local. Ao atentar aos movimentos do monstro, percebe que ele faz um gesto de coçar a cabeça (a capa do filme) exatamente como ela. A partir disso a garota nota que possui uma conexão mental com esse ser: ela guia seus movimentos e isso acontece todas as vezes em que passa por um parquinho voltando bêbada para a casa.

A premissa é essa. Louca e irônica, poderia seguir o caminho de um humor negro. Contudo, esse filme pode ser tudo, menos classificável: mescla comédia, drama, ficção, suspense e horror. Esse mix poderia não funcionar, entretanto, Colossal consegue trabalhar sua loucura narrativa de forma muito convincente, e você é capaz de criar uma empatia pela trama e as metáforas que são travadas ali.

Gloria controla o monstro. Mas será que ela só controla sem querer, ou todos nós temos um pouco de médico e o monstro? Até que ponto nossas pequenas atitudes cotidianas podem reverberar de formas que não podemos controlar? São essas camadas que o filme trabalha, além da questão do alcoolismo como fuga de uma realidade não feliz e relacionamentos abusivos quando as pessoas não conseguem enxergar saídas.

– Gloria, você não sabe o que houve!

– Sei sim, matei um monte de gente sendo uma bêbada idiota… de novo.

A direção e o roteiro ficam por conta do Nacho Vigalongo, que fez um excelente trabalho aqui, mesmo com cenas finais que poderiam ter atingido um clímax ainda maior, o longa não deixa a desejar e termina com uma situação irônica excelente.

O ponto fraco fica por conta dos atores coadjuvantes; não que eles sejam ruins, mas a trama não abre espaço para suas atuações. Suas aparições são rasas e sem muito propósito. Às vezes parece que eles nem estão lá. Em contrapartida o personagem Oscar interpretado pelo quase sempre ator de comédias Jason Sudeikis está excelente. Ele cresce na narrativa e começa a mostrar muitas camadas. Sai de um coleguinha pacato, que só queria ajudar, para um cara psicótico e um tanto quanto doentio.

Ponto também para as imagens em Seul, onde as personagens falam coreano. É ótimo perceber que nem todo o universo fala inglês. Obrigada, Vigalongo!

O filme teve sua estreia marcada para junho de 2017 aqui no Brasil. Mas entrou em cartaz em pouquíssimos cinemas e sessões. O que prova que, mesmo com atores queridos pelo público e que sempre atraem olhares para as salas de exibição, a narrativa diferentona deve ter controlado uma abertura maior para o longa, infelizmente.

Colossal é um filme estranho. Com muitas camadas e metáforas. Ele não é só aquilo que mostra, mas trata da essência humana: vícios, fuga da realidade, vingança, relacionamentos, se sentir pequeno em relação aos outros e da eterna sensação de que poderíamos sempre estar fazendo algo melhor com nossas vidas. Não é terror, nem humor, nem ficção, mas um pouco de tudo e com certeza vale a pena.

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