Críticas

The Lure (2015)

Tente imaginar se Gaspar Noé e Andrzej Zulawski colaborassem em um remake de A Pequena Sereia para o público adulto e você terá uma ideia básica do que esperar de The Lure

The Lure
Original:Corki dancingu
Ano:2015•País:Polônia
Direção:Agnieszka Smoczynska
Roteiro:Robert Bolesto
Produção:Wlodzimierz Niderhaus
Elenco:Marta Mazurek, Michalina Olszanska, Kinga Preis, Jakub Gierszal

De uns tempos pra cá o tema “sereias” tem sido amplamente divulgado. Exemplos como Arwah Kuntilanak Duyung (2011), Mermaid: The Body Found (2012), Nymph (2014) e Siren (2016) apresentaram-nos sereias dos mais diversos tipos desde lindas mulheres até bestas deformadas, mas todas com o mesmo modus operandi: seduzir os homens para depois devorá-los. Quando a indústria cinematográfica já parecia ter secado todo um oceano de ideias sobre o gênero eis que surge das águas polonesas uma produção tão insólita quanto peixes andando de bicicleta: The Lure (Corki dancingu, no original).

Criado pela cineasta polonesa Agnieszka Smoczynska The Lure é um audaz mashup de suspense musical sobre sereias devoradoras de homens. Situado nos anos 80 e em plena Polônia comunista, o espectador segue a história de Silver (Marta Mazurek) e Golden (Michalina Olszanska), duas sereias que encontraram uma família de músicos e decidem se juntar à banda para se apresentar em um puteiro da Varsóvia. Enquanto a trupe realiza shows na boate o amor toca o coração anfíbio das sereias. Silver se apaixona pelo guitarrista Mietek (Jakub Gierszal), e Golden pelo gosto da carne humana.

Devo assumir que nunca fui muito fã de musicais, mas The Lure tem um charme todo especial. Exibido na World Cinema Dramatic Competition do Sundance Film Festival em 26 de janeiro de 2016 o filme ganhou o Prêmio “Special Jury Award for Unique Vision and Design” e já está fazendo muito barulho. Além de dar uma nova roupagem para o design das sereias (com caudas grotescas e longas como as de uma moreia, fugindo totalmente da fantasia infantil de nadadeiras ondulantes) surpreendeu por explorar com bom humor temas corriqueiros como a misoginia, como na cena em que o dono do bordel tateia os genitais de Silver no famoso “Teste do Sofá” e comenta que cheira a peixe ou quando o “músico enamorado” declara pra sereia apaixonada que ela nunca será mais do que uma curiosa aberração. Mas aqueles que esperam mais do “feminismo multiplex” que caracterizou os gostos de Mad Max: Estrada da Fúria podem ficar meio que desapontados com uma abordagem mais sedutora de Smoczynska, que mergulhou seu dedo em águas muito mais turvas. Qualquer estímulo que se esconda sob a superfície de sua característica de estreia é subitamente enterrada sob uma camada cintilante de boa aparência retrô.

Resumindo: tente imaginar se Gaspar Noé e Andrzej Zulawski colaborassem em um remake de A Pequena Sereia para o público adulto e você terá uma ideia básica do que esperar de The Lure, que curiosamente cria uma insólita ponte entre os sonhos escritos de Hans Christian Andersen e o caos eletrônico de Nine Inch Nails.

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