Críticas

A Ilha dos Mortos (2009)

Não traz absolutamente nada de novo em relação à infinidade de histórias sobre mortos-vivos já narradas pelo seu diretor – ou por seus imitadores

A Ilha dos Mortos
Original:Survival of the Dead
Ano:2009•País:EUA
Direção:George A. Romero
Roteiro:George A. Romero
Produção:Paula Devonshire
Elenco:Alan Van Sprang, Kenneth Welsh, Kathleen Munroe, Joshua Peace, Dru Viergever, Eric Woolfe, Shawn Roberts, Mitch Risman, Julian Richings, Wayne Robson

Em 1988, o produtor italiano Franco Gaudenzi contratou o cineasta Lucio Fulci para filmar uma continuação de seu grande sucesso (Zombie, de 1980). O orçamento era uma merreca, os atores de segunda linha, as locações nas Filipinas, o roteiro sem pé nem cabeça, e, para piorar, a saúde de Fulci estava por um fio. Ele acabou abandonando as filmagens após alguns dias, deixando pouco mais de uma hora de material filmado. A solução encontrada por Gaudenzi foi chamar os nada hábeis Claudio Fragasso (roteirista) e Bruno Mattei (diretor) para terminar o serviço, e o resultado é Zombie 3, um trashaço daqueles em que nada funciona (cenas que eram para ser sérias acabaram lado a lado com momentos esdrúxulos), e ao mesmo tempo um filme híbrido, esquisito, que foi finalizado por autores de talentos radicalmente diferentes.

Pois Survival of the Dead, o último filme de mortos-vivos do mestre George A. Romero (1940-2017), é quase um Zombie 3: a impressão que fica ao final é que Romero, que já estava bem velhinho (completaria 70 anos no início de 2010), abandonou as filmagens pela metade e algum outro diretor com estilo totalmente oposto (ou nenhum estilo) assumiu as filmagens – neste caso, um Uwe Boll ou um Steve Miner em fase remake do Dia dos Mortos, só para dar uma ideia do drama.

Survival of the Dead (cuja tradução literal seria Sobrevivência dos Mortos) é o sexto filme sobre zumbis escrito e dirigido por George Romero, mas como o anterior, Diário dos Mortos (2007), deixa a impressão de que o cineasta veterano estava ficando gagá e precisava de internação imediata num asilo. Afinal, quando lembramos que foi ele o responsável por alguns dos melhores (e mais sérios) filmes de mortos-vivos da história do cinema de horror, e e foi ele quem criou os cânones sagrados deste bem-sucedido subgênero, é impossível não se espantar com a falta de qualidade, com o humor negro deslocado e com as piadas infames deste seu trabalho, que lembra uma esquisita auto-paródia, ou uma tentativa de imitar o estilo de diretores como Sam Raimi e Peter Jackson – que por sua vez, ironicamente, foram influenciados fortemente pelo próprio Romero!

Recapitulemos: foi Romero quem criou as bases para o cinema de zumbis com o clássico A Noite dos Mortos-Vivos, de 1968. Seguiram-se duas continuações tão boas quanto, e em espaçados períodos de tempo, que provavelmente permitiam um amadurecimento das ideias e dos roteiros pelo diretor. Zombie – O Despertar dos Mortos saiu em 1978, e o pessimista Dia dos Mortos é de 1985. Alegando dificuldades para conseguir orçamentos e filmar novas histórias do gênero, Romero manteve seus zumbis na geladeira e partiu para histórias (e produções) independentes. Finalmente, 20 anos depois de Dia dos Mortos, um grande estúdio (Universal) bancou o retorno do diretor aos zumbis, Terra dos Mortos (2005), que dividiu opiniões entre os que amam e os que odeiam, mas já servia como um fechamento bastante decente para a saga morta-viva do cineasta.

Foi então que Romero aparentemente enlouqueceu. Aquele período extenso para a preparação dos filmes, que era uma coisa meio Stanley Kubrick, encurtou radicalmente, e já dois anos depois de Terra dos Mortos, em 2007, o diretor saiu-se com Diário dos Mortos, uma produção barata e independente (custou US$ 2 milhões e teve lançamento comercial em poucas salas nos EUA). Ao contrário de dar sequência à sua famosa quadrilogia, o diretor dedicou-se a contar uma história independente, sem relação com as anteriores, como se a praga zumbi tivesse se espalhado pelo mundo na época contemporânea, e não lá nos anos 60.

A ideia até era boa. Mas vários problemas saltam aos olhos em Diário dos Mortos. Trata-se, por exemplo, do filme de zumbis mais convencional e burocrático assinado por Romero, com uma série de defeitos que não permitiam ver, ali, aquele cineasta veterano que havia dado preciosas contribuições anteriores ao cinema de horror. Afinal, Diário dos Mortos tinha tudo que não havia (ou havia em doses bem reduzidas) nas outras histórias de zumbis do diretor: irritantes personagens adolescentes, roteiro fraco e sem situações novas, humor deslocado, e a velha crítica social sendo esfregada na cara do espectador de maneira exagerada e nada sutil. Além disso, Romero fazia uma patética tentativa de cinema-verdade no estilo A Bruxa de Blair ou Cannibal Holocaust, enfraquecida pelo lançamento, antes ou na mesma época, de produções independentes que foram melhor sucedidas ao usar o mesmo recurso – o inglês The Zombie Diaries e o espanhol REC.

Como Terra dos Mortos, Diário… também dividiu opiniões, embora desta vez o grupo que não gostou (entre os quais eu me incluo) seja mais numeroso. E Romero voltou a surpreender anunciando, logo em seguida, que faria um novo filme de zumbis, desta vez com tempo zero para amadurecer qualquer boa ideia, mais ou menos como a franquia Jogos Mortais (que soltava uma continuação por ano). Percebe-se que não havia nem mesmo um argumento decente pelo título inicial do projeto, que era simplesmente …of the Dead, ou seja, ‘Qualquer coisa’ dos Mortos!!!

Chegamos, assim, a Survival of the Dead, que também não tem relação com a quadrilogia original (Noite, Despertar, Dia, Terra), mas é uma sequência direta de Diário dos Mortos, como se o diretor estivesse querendo fazer uma nova série independente (trilogia? quadrilogia?) sobre mortos-vivos. Pela primeira vez na saga Romeriana, um personagem do outro filme retorna para criar um elo de continuação oficial, e pela primeira vez a trama tem um narrador. (Nota: É claro que eu não estou contando o personagem de Tom Savini em Zombie – O Despertar dos Mortos, que reapareceu, durante alguns segundos, como morto-vivo em Terra dos Mortos!).

A trama de Survival of the Dead se passa seis dias depois que os mortos começaram a andar, ou seja, seis dias depois dos fatos mostrados em Diário dos Mortos. O personagem que retorna é o coronel da Guarda Nacional Nicotine Crocket (Alan Van Sprang, que apareceu também em Terra dos Mortos, mas interpretando outro personagem). Para quem não lembra, Crocket era mostrado rapidamente em Diário dos Mortos, liderando um grupo de soldados que assaltava o trailer dos jovens protagonistas daquele filme – um episódio mostrado em flashback no início de Survival of the Dead.

O novo filme começa mostrando o descontrole da Guarda Nacional para deter a ameaça cada vez maior dos mortos-vivos, e é quando Crocket resolve picar a mula, acompanhado de três colegas: Chuck (Joris Jarsky), Cisco (Stefano DiMatteo) e a soldada machorra Tomboy (Athena Karkanis). Ao invés de proteger a população dos ataques dos zumbis (que os personagens chamam de deadheads, ou cabeças mortas), o quarteto sai roubando, saqueando e protegendo o próprio traseiro enquanto a sociedade desmorona.

Paralelamente, somos apresentados aos moradores de Plum Island, uma ilha distante da costa, onde os moradores igualmente enfrentam a ameaça dos mortos-vivos. Ali vivem dois clãs de descendência irlandesa, que acabam lutando entre si ao invés de se unir (tema recorrente no cinema de Romero). A família O’Flynn, liderada pelo patriarca Patrick (Kenneth Welsh), incentiva a destruição sem trégua de todos os mortos-vivos para proteger os vivos, enquanto a família Muldoon, liderada por Seamus Muldoon (Richard Fitzpatrick), prega a convivência pacífica entre humanos e zumbis, na busca de uma possível cura para a epidemia. Afinal, é possível que um dia alguém descubra uma vacina para transformar aqueles mortos-vivos famintos de carne humana em pessoas normais novamente…

Quando o clã O’Flynn é derrotado, Patrick é exilado pelo arquiinimigo Muldoon, sendo obrigado a retornar para o continente com alguns seguidores, abandonados à própria sorte. É quando o caminho dos deportados se cruza com o dos soldados errantes liderados por Crocket, através de um vídeo gravado pelo irlandês e difundido na internet, prometendo a salvação da ameaça zumbi para quem acompanhá-lo de volta até Plum Island. (Claro, é preciso acreditar que a internet ainda estará funcionando em pleno ataque maciço de mortos-vivos, que um sujeito consegue gravar um vídeo e fazer upload no YouTube, e que outros sujeitos arranjem tempo, enquanto lutam contra zumbis, para acessar a internet e assistir o tal vídeo!).

Logo, O’Flynn e os militares unem forças, roubam uma balsa e seguem até a ilha para um sangrento confronto. Não com os mortos-vivos, mas com os homens de Muldoon, que continuam tentando domesticar os zumbis para que se alimentem de animais, e não de pessoas – talvez a melhor ideia de Romero nos últimos tempos.

O filme termina deixando o espectador com a pulga atrás da orelha: afinal, quem estava certo era O’Flynn, pregando o extermínio dos mortos-vivos, ou Muldoon, que pretendia domesticá-los e reintegrá-los à sociedade? Esta irônica questão talvez seja o único aspecto Romeriano de Survival of the Dead, uma produção bizarra que mais parece um roteiro escrito por Claudio Zombie 3 Fragasso e entregue para George A. Romero filmar!

Olhando pelo lado bom, Survival of the Dead ao menos diverte – embora às vezes as gargalhadas sejam involuntárias, e não dá para sacar até onde Romero está fazendo graça DE PROPÓSITO! É muito melhor que Diário dos Mortos, mas isso também não quer dizer nada (pior do que aquele seria muito difícil…).

O diretor-roteirista corrige alguns erros marcantes do seu trabalho anterior, abandonando o estilo falsa filmagem verdadeira (até porque nenhum fotograma de Diário dos Mortos realmente lembrava uma filmagem amadora!) para voltar à narrativa convencional, e principalmente deixando de lado os personagens adolescentes, embora insista em adicionar à trama um anônimo teen que não fede e nem cheira (interpretado por Devon Bostick). Dos demais personagens de Diário dos Mortos, porém, não há nem menção, o que já é um ponto positivo.

Survival of the Dead também tem algumas boas ideias esparsas, como a experiência de mudar a dieta alimentar dos mortos e a tentativa dos sobreviventes de buscar refúgio numa ilha, distante das garras dos zumbis, e não numa estrutura mais propensa aos ataques, como a fazenda de A Noite dos Mortos-vivos ou o shopping-center de Zombie – O Despertar dos Mortos. Inclusive eu acho que procurar uma ilha seria a coisa mais sensata a se fazer no caso de um ataque de zumbis, e é engraçado que Romero só tenha pensado nisso no seu sexto filme do gênero, depois que outras produções já haviam abordado a mesma hipótese (como no final de Madrugada dos Mortos).

Infelizmente, porém, Survival of the Dead tem erros tão grandes ou maiores que os seus acertos. O principal deles é que todos os personagens são irritantes e dispensáveis (como já acontecia em Diário dos Mortos), e é simplesmente impossível torcer por qualquer um dos protagonistas. Se fossem todos para a goela dos zumbis, não faria a menor diferença. Aliás, nem mesmo os zumbis são simpáticos dessa vez, então a nulidade é total!

Outro problema grave é a indecisão de Romero em relação ao tom do filme: a narrativa muda o tempo todo de um clima de horror sério para um tom jocoso e brincalhão, que não combina com a proposta do diretor. Sim, havia humor negro velado nas outras obras de Romero, como as tortadas na cara dos zumbis em Zombie – O Despertar dos Mortos, mas era um humor sutil e integrado à narrativa (no exemplo citado, para mostrar que os personagens já estavam tão acostumados a matar zumbis que até já brincavam com eles). Não é o que acontece em Survival of the Dead, que traz cenas como a de Crocket incendiando a cabeça de um zumbi com um sinalizador (ele fica idêntico ao Motoqueiro Fantasma!) e acendendo seu cigarro nas chamas enquanto o monstrengo se debate! Isso sem contar o constrangedor momento da pesca de zumbis, em que um sujeito fica fisgando mortos-vivos do fundo do mar com uma vara-de-pesca comum para depois matá-los a tiros!

Porém o momento de humor mais infame e questionável deste novo filme remete ao clima pastelão dos desenhos animados, uma característica dos já citados Sam Raimi e Peter Jackson, mas nunca vista antes no cinema do veterano Romero. Nesta cena, Crocket joga uma granada contra um casebre onde estão vários homens atirando. A explosão derruba a parede e, quando a fumaça baixa, vemos os homens que estavam no interior do casebre imóveis e com o rosto coberto de fuligem preta – como acontece tradicionalmente nos desenhos animados, em que as explosões nunca machucam ninguém! É um momento tão absurdo que me deixa tentado a crer que o espírito de Bruno Mattei baixou no velho George nos últimos anos, já que Diário dos Mortos também tinha umas bobagens parecidas.

É possível que o veterano George esteja tentando se adaptar aos novos tempos, mostrando à garotada que também pode fazer um filme de zumbis engraçadinho, a exemplo do que vimos nos últimos anos com os ingleses Shaun of the Dead e Doghouse, o norueguês Dead Snow e o americano Zumbilândia. Se era esta a proposta, porém, Romero deveria pelo menos se decidir entre o terror cabeça ou humor pastelão, não misturar os dois, bem como contratar um outro roteirista para bolar umas piadas menos infames e constrangedoras.

Tudo considerado, a ideia da ilha também acaba sendo queimada à toa, já que é muito mal-aproveitada pelo roteiro (cujo foco é mesmo a inimizade das duas famílias). Há uma única cena decente que envolve um personagem sendo obrigado a nadar no mar infestado de zumbis (sim, zumbis aquáticos!), mas depois disso até esquecemos que a história se passa numa ilha, já que a localização geográfica não é mais explorada pelo roteiro. Logo a história se transforma numa espécie de western, com pistoleiros a cavalo enfrentando os soldados e suas metralhadoras, e os zumbis fazendo a festa no meio. É quando Romero demonstra estar falhando até como cineasta, ao filmar um tiroteio em que as pessoas correm a descoberto atirando umas nas outras, mas sem nunca atingir ninguém – ao estilo David A. Prior em clássicos como Deadly Prey e Operation War Zone.

Finalmente, Survival of the Dead tem o grande defeito de ser repetitivo até o talo, uma característica que já vinha de Diário dos Mortos. Afinal, o que Romero pretende com esta nova série independente sobre zumbis? Se a ideia era contar novas histórias, por que não adicionar novas ideias? Não é o que estávamos vendo até agora: tanto Diário… quanto Survival of the Dead não passam de auto-plágio e reaproveitamento de temas e ideias já vistas nas quatro obras anteriores, sem qualquer novidade ou conceito diferente do que o próprio Romero já filmou nas últimas quatro décadas. Haverá, portanto, alguma razão, que não a financeira, para ele ter feito estas novas produções?

O próprio argumento de Survival of the Dead é muitíssimo parecido com Dia dos Mortos. Se naquele tínhamos o conflito entre um grupo de militares (que queria destruir os zumbis) e um grupo de cientistas (que queria domesticá-los) dentro de um laboratório subterrâneo, neste sexto filme muda apenas o ambiente (para uma ilha), mas o tema é o mesmo, com um novo grupo de militares (que também quer destruir os zumbis) lutando contra um grupo de fazendeiros (que também quer domesticá-los). A própria conclusão é idêntica à de Dia dos Mortos, com os zumbis se libertando do seu cativeiro para resolver o impasse entre os dois grupos rivais.

Romero também reaproveita de Dia dos Mortos (e do posterior Terra dos Mortos) o tema da evolução dos mortos-vivos. Se no primeiro tínhamos Bub, o zumbi domesticado para repetir atos prosaicos do dia-a-dia, e no segundo tínhamos Big Daddy, o zumbi que subitamente ganhava consciência e liderava os colegas mortos-vivos contra seus opressores humanos, em Survival of the Dead temos os mortos-vivos de Muldoon, que foram acorrentados e condicionados a repetir hábitos diários para esquecer a fome por carne humana. Lembra daquela polêmica toda sobre a inteligência de Big Daddy em Terra dos Mortos? Bem, vai ser engraçado ver o que esse mesmo pessoal vai dizer diante de algumas cenas de Survival of the Dead, como a dos zumbis cortando lenha, entregando correspondência, cozinhando (!!!), dirigindo carros (!!!) e até andando a cavalo!!!

E se a repetição de temas não é indício suficiente de que Romero não tinha mais história para contar, Survival of the Dead ainda repete todas aquelas batidíssimas situações já vistas e revistas em todos os outros cinco filmes de mortos-vivos do diretor (além de suas incontáveis imitações, refilmagens e variações). A saber: um personagem secundário cuja transformação em zumbi é iminente e precisa implorar para o parceiro matá-lo, o drama de alguém tendo que decidir entre atirar ou não na cabeça de um familiar recentemente falecido, e até o velhíssimo tema do eles poderiam se unir contra os zumbis e sobreviver, mas preferem lutar entre si e se matar.

O que parece, pelo menos na minha opinião, é que o diretor antigamente tinha algo a dizer com seus filmes de zumbis, fazendo interessantes alegorias com as sociedades contemporâneas a cada episódio. Isso explica o grande intervalo entre os capítulos da quadrilogia original: 10 anos entre Noite e Despertar, sete entre Despertar e Dia, e 20 entre Dia e Terra. Agora, em contrapartida, o intervalo entre os filmes diminuiu bastante, e Romero parece não ter mais muita coisa para dizer: tirando as roupas, penteados e obviamente os aparatos tecnológicos, como celulares e computadores, vistos em Diário… e Survival of the Dead, o que sobra são tramas tão atemporais e impessoais que poderiam muito bem se passar nos anos 60, 70 ou 80, mas que não fazem grandes retratos da geração atual, como acontecia com os anteriores – a não ser que a geração atual seja mesmo tão medíocre que Romero nem conseguia pintar-lhe um retrato decente!

Enfim, o que sobra aqui é um filme de zumbis que diverte, sim, e que consegue manter a atenção até o final sem dar raiva, ao contrário de Diário dos Mortos. Mas isso é pouco, muito pouco perto do que se espera de uma obra assinada por George A. Romero, e não traz absolutamente nada de novo em relação à infinidade de histórias sobre mortos-vivos já narradas pelo seu diretor – ou por seus imitadores – de maneira melhor e mais eficiente nos últimos anos. Não há criatividade, não há situações novas ou personagens interessantes, e mesmo as mortes (a grande atração das produções do gênero) são pouco inspiradas.

Para piorar, Romero aposenta de vez os velhos sangue falso e maquiagem dos bons tempos (que saudade do Tom Savini!), substituindo-os por exagerados efeitos de computação gráfica, tornando cada cena de morte involuntariamente cômica – espere só para ver o resultado de um extintor de incêndio sendo disparado no interior da boca de um zumbi, por exemplo!

Até há alguns poucos e eficientes efeitos de maquiagem produzidos pela equipe do especialista Gregory Nicotero, principalmente na parte final (que traz os tradicionais corpos humanos sendo rasgados em tiras pelos mortos), mas na maior parte do tempo o espectador precisa aturar absurdos como este mostrado nas fotos aí embaixo. E pensar que tinha gente que reclamava do suposto CGI fraco de O Último Trem

Survival of the Dead demonstrou, assim, evidentes sinais de cansaço de um cineasta veterano e respeitadíssimo, que perceptivelmente não soube se reinventar, não teve novas ideias nem histórias para contar, e soa tristemente demodé diante da concorrência, lançando dois novos filmes (este e Diário dos Mortos) que perdem feio até para remakes (como Madrugada dos Mortos, que é uma reinvenção de Zombie – O Despertar dos Mortos) e para reinterpretações que deram sangue novo a um tema já batido (REC, os dois Extermínio, Fido – O Mascote e o brasileiro independente Mangue Negro). Até mesmo Bruiser – A Máscara do Terror, uma produção beeeem menor dirigida por Romero no ano 2000, soa mais interessante e criativa que os dois últimos filmes do mestre.

E se elenco nunca foi o forte das obras de zumbis do diretor (com exceção de Terra dos Mortos, que tinha várias caras conhecidas), Survival of the Dead mantém-se na mesma média, com um festival de interpretações nada memoráveis ou expressivas, e um único destaque, Kenneth Welsh (o Windom Earle do seriado Twin Peaks), apropriadamente dúbio como um personagem em quem o espectador não sabe se pode ou não confiar.

Como curiosidade, os realizadores parecem ter selecionado seu elenco assistindo Jogos Mortais, já que sete dos seus atores participaram de episódios desta franquia: Athena Karkanis foi a agente Perez de Jogos Mortais 4 e Jogos Mortais 6, Devon Bostick interpretou Brent na Parte 6, Julian Richings vem da Parte 4, o herói Alan Van Sprang foi Chris em Jogos Mortais 3, Joris Jarsky enfrentou a famosa armadilha do pêndulo em Jogos Mortais 5, e até os figurantes Wayne Curnew e Ho Chow foram igualmente figurantes nas Partes 5 e 2, respectivamente. Bem, podemos subir o total para oito se contarmos o zumbi Dru Viergever, de Jogos Mortais 7, ainda não lançado na época.

Tudo bem que Romero lançou as bases para os filmes de zumbis que temos hoje, mas isso não é desculpa para que ele fique se repetindo infinitamente, como se dezenas de outras produções não tivessem retrabalhado os mesmos temas nos últimos anos.

Tudo considerado e com alguma generosidade, Survival of the Dead acabaria com uma cotação bonzinho (uma nota entre 6,5 e 7); e se o filme parece melhor quando comparado ao fraco Diário dos Mortos, por outro lado se torna uma piada de mau gosto se avaliado à sombra das grandes obras de Romero, como Zombie – O Despertar dos Mortos.

Realmente não dá para engolir filmes como Diário dos Mortos e Survival of the Dead, que mais parecem imitações baratas e sem imaginação dos clássicos de Romero do que produções assinadas pelo próprio!

N.E.: Artigo originalmente publicado em 2009, no Boca do Inferno.

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2 Comentários

  1. PEDRO E. MATOS

    Li uma matéria em que Romero fala um pouco sobre o filme. Na verdade, não lembro se li aqui ou em outro site. Romero diz que não concorda com os zumbis corredores e com super força, que esperava retornar ao modelo clássico de zumbis. Que gostaria de fazer um filmes com um roteiro mais atraente, com uma estória. Enfim, eu gostei do filme. Não é uma obra-prima, mas me prendeu, embora mais devagar do que os filmes mais atuais.

  2. George Romero pisoteou sua própria criação nesse filme. A mencionar (SPOILERS):
    – O que foram aquelas cabeças de zumbis (péssimos efeitos) em estacas? era necessário “por fim aquele sofrimento”…mas não dava pra apunhalar uma a uma e não DESPERDIÇAR bala em cada uma? (além da chance de chamar atenção indesejada)
    – Tico engole um dedo (ou pus/sangue/meleca do dedo que mordeu…não lembro) e…se vê infectado. Implora pra ser morto. Roger em Despertar dos Mortos, mordido e aleijado, andando de “piruzinho”, desceu bala e ajudou a limpar o Shopping, resolveu ser útil até o último momento (isso porque ele teve um colapso antes). E em Ilha dos Mortos, o “cabra macho” com aquele draminha furreca de “marcar a vida dela” pede pra por fim ao inevitável.
    – Janet é mordida na mão pela Zombie Jane (cenazinha ridícula, “own, ela lembrou de mim”), poderia ter amputado o membro. Não, isso não é coisa de Walking Dead! Em Dia dos Mortos, quando Miguel tem o braço mordido, esse é amputado e cauterizado. Quando li a HQ (mas podem tomar a série de TV idem) de Robert Kirkman (seguem spoilers) a descoberta que TODOS estão infectados e fadados a retornarem como zumbis quando morrerem, tendo a mordida apenas um fator a mais de morte acelerada por infecção, fez todo o sentido pra mim, me pareceu que Kirkman se ateve minucioso a vários aspectos dos mortos de Romero. No universo de Romero, era claro que todos também estariam condenados a se tornarem zumbis (Em Terra dos Mortos, um velho suicida-se enforcado, e retorna como zumbi). Caramba…desculpa, George, onde estiver, até World War Z pegou esse detalhe que voce mesmo criou!
    – Zumbis SEMPRE também comeram animais (não-humanos) no universo de Romero ou ele se esqueceu da chamada do rádio: “Irão atacar mamíferos e quaisquer animais de sangue quente”. Tanto na versão original (onde eram chamados Ghouls) como no remake de Savini, em “A Noite dos Mortos-Vivos” eles são vistos comendo ratos e até VERMES. A parte dos vermes (minhocas tem hemoglobina mas não sei se posso considerar sangue frio) no entanto, acho que animais de sangue frio se safariam nessa, vide o jacaré (e…os caranguejos?) no meio da zumbizada em “Dia dos Mortos”. Foi no remake de Madrugada dos Mortos em que os animais ganharam esse salvo-conduto e o cãozinho Chips se safou (ah isso bom, vá lá…). Me lembrei de “Zombie”(2? a sequencia ítalo-pirata de “Dawn…”) onde um zumbi enfrenta um tubarão (que vejam só…tem sangue quente) possivelmente em auto-defesa…já que mais a frente um jumentinho é aparentemente ignorado por outro zumbi. Mas me alonguei demais em outro universo.
    – E de bônus, Tomboy se masturbar a céu aberto perto dos companheiros como tipo… “empodeiramento feminino”? Porque ser lésbica é ser tarada e a única interessada na possibilidade de encontrar uma mulher bonita. Agora com licença que vou bater uma punheta enquanto converso com meus camaradas…não tem problema, vai ser por dentro das calças…
    Dava pra ficar apontando o que deu errado, mas só faço lembrar que Romero criticou o dramalhão Walking Dead e sobre outras, certa vez disse que zumbis não correm porém…aprendizados zumbizisticos a parte…é mais difícil conceber eles dando partida em carro ou…andando de cavalo (essa cena…essa cena…pus a mão na cara na hora, e…seja o que Deus quisesse, continuei). Sério, eu fiquei com pena do Mestre quando o filme acabou, torci de coração pra que ele se redimisse. Com a sua partida só me resta pensar que ele foi tão FODA em seu início, que…ele não conseguiu competir consigo mesmo. Fica a inspiração, e até a lição, pra mim tentar o que seja, posso nunca me comparar ao mestre, ainda mais pelo que ele fez logo de cara, mas até ele pisou na jaca já, então eu tento, não tento? tento…pode sair a merda que for, tentei. Grato ao Mestre.

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