Críticas, Quadrinhos

A Paixão do Arlequim (2002)

Uma contundente comédia de fantasia sobre o amor e seu impacto em nossas vidas.

A Paixão do Arlequim
Original:Harlequin Valentine
Ano:2002•País:EUA
Páginas:Autor:Neil Gaiman, John Bolton•Editora: Conrad

Escrita originalmente por Neil Gaiman como um conto publicado no programa da World Horror Convention em 1999, O Dia dos Namorados do Arlequim foi posteriormente reunido no segundo volume da coletânea de trabalhos do autor chamada Coisas Frágeis. Em 2001 Gaiman se reuniu com John Bolton, com quem já havia trabalhado em Livros da Magia, para transformar seu pequeno conto em uma graphic novel. Assim surgia A Paixão do Arlequim, que chegou ao Brasil no ano seguinte, em 2002, pela Conrad em uma edição relativamente esquecida pelos leitores brasileiros.

 A Paixão do Arlequim se baseia nas clássicas Arlequinadas da Comedia Dell’Arte italianas do século XVI sobre amor, traição e as bobagens que o coração nos obriga a cometer. Gaiman se apropria dos personagens das Arlequinadas como a Colombina, o Doutor, o Pantaleão e, é claro, o próprio Arlequim, e os transporta para a urbana e atual Londres, acrescentando sua pitada de fantasia por qual ficou famoso com Sandman.

A história começa no dia 14 de fevereiro, o Valentine’s day, quando a jovem Missy se depara com um coração pregado em sua porta. O apaixonado, e bizarro, presente foi dado pelo próprio Arlequim, o festivo espírito bufão.  A partir daí, o leitor acompanha a investigação empreendida por Missy para descobrir o dono daquele coração enquanto é acompanhada de perto pelo espírito invisível e apaixonado do Arlequim.  A viagem de Missy por Londres em busca da resposta pelo enigma permite que Gaiman apresente suas versões dos demais personagens da Arlequinada.

Recheada de subtexto, alguns mais óbvios como a entrega do coração e o fálico cajado do Arlequim, outros mais sutis como as mudanças que nossas vidas sofrem quando alguém nos entrega seu coração ou quando entregamos o nosso coração a alguém, como atos capazes de mudar até o mais bufão dos espíritos festivos, tornam a história bastante interessante e passível de diversas interpretações diferentes a cada releitura.

Neil Gaiman é um dos maiores escritores de sua geração e sua capacidade de atualizar os mais antigos textos para os tempos modernos, dando características precisas a cada um de seus personagens, impressiona até em um texto “menor” como A Paixão do Arlequim. John Bolton possui uma arte realista e uma técnica impressionante. Seus quadros são um tanto estáticos, como boa parte dos quadrinhos adeptos do fotorrealismo, mas a beleza de suas pinturas prende a atenção, estendendo a leitura a cada quadro.

A edição da Conrad possui um formato estranho, um pouco maior do que o tradicional americano, e traz alguns extras como um texto sobre os personagens da Arlequinada, escrito pelo próprio autor e as biografias de ambos os artistas. A Paixão do Arlequim é uma das obras mais esquecidas de Neil Gaiman, publicada no Brasil há quase quinze anos atrás, que merece ser redescoberta. Uma contundente comédia de fantasia sobre o amor e seu impacto em nossas vidas que merece ser republicada por aqui com mais cuidado.

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