Críticas

Cisne Negro (2010)

Cisne Negro é um drama carregado de tensão, cenas bizarras e ousadia, incrivelmente sensual e psicótico

Cisne Negro
Original:Black Swan
Ano:2010•País:EUA
Direção:Darren Aronofsky
Roteiro:Mark Heyman, Andres Heinz, John J. McLaughlin
Produção:Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold Messer, Brian Oliver
Elenco:Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder, Benjamin Millepied, Ksenia Solo, Kristina Anapau, Janet Montgomery, Sebastian Stan

por Camila Jardim

Já fazia um tempo que eu não via um filme causar tantas opiniões boas e ruins antes mesmo de sua estreia. Como sempre as distribuidoras brasileiras comeram bola e Cisne Negro estreou apenas dia 04 de fevereiro de 2011, incríveis dois meses depois do lançamento. Esse fato ocasionou uma consequência inevitável: ninguém queria esperar para ver o tão bem falado thriller. Neste presente momento o filme já conta com milhares ou até milhões de fãs fanáticos e em contra partida aqueles que acharam a obra superestimada que não merecia a atenção que está tendo. Afinal, Cisne Negro é diferenciado ou superestimado?

São poucos os filmes que acompanho na pré-produção, pois prefiro ter a surpresa na hora, seja ela boa ou ruim. Cisne Negro foi uma rara exceção que me fez ficar maravilhada e ansiosa a cada novo pôster, novo trailer ou nova entrevista. A pré-estreia do filme foi uma loucura, choveram críticas positivas. Natalie Portman estava em todos os lugares, a ansiedade só crescia.

Conforme lia as criticas enaltecendo Cisne Negro a uma obra prima, minha expectativa aumentava o que sempre garante tombos gigantescos – felizmente não foi assim dessa vez. Esta análise está sendo especialmente difícil de escrever, pois me faltam palavras para definir tamanha beleza, mas vamos tentar…

A prestigiada Companhia de Balé de Nova York está reinventando a clássica apresentação do “Lago dos Cisnes”. Para o papel principal é necessário uma única bailarina que será incumbida de interpretar a doce princesa Odette (cisne branco) e sua irmã gêmea maligna Odile (cisne negro). A dedicada bailarina Nina (Natalie Portman) é primeira opção do diretor artístico Thomas Leroy (Vincent Cassel) para o papel.

Nina faz o teste e dança com perfeição a parte do cisne branco, mas sua doçura e fragilidade a impedem de se transmutar em cisne negro. Logo seu lugar no espetáculo é ameaçado pela chegada de Lily (Mila Kunis), uma bailarina “mais rebelde” que encaixaria perfeitamente na gêmea má.

A insegurança e busca pela perfeição causam um colapso na mente da jovem perturbada, pelo menos na minha interpretação. Nina tenta de todas as formas se transformar em uma coisa que não é. A tentativa de ascender o lado maligno de seu ser acaba por lhe causar severas alucinações, as quais ditam todo o clima psicológico e assustador do filme.

Dá para entender o porquê de não se gostar de Cisne Negro, pois a história pode ser vista de dois jeitos. O primeiro deles pode ser caracterizado como pretensão, cenas previsíveis, psicologia meia boca, roteiro sem história interessante e por ai vai – de fato gosto não se discute. Contudo… Impossível dizer que o filme é ruim. É inegável a beleza estética do mesmo, aliada a uma trilha sonora magistral de Clint Mansell (adaptação distorcida de Tchaikovsky “Lake Swan”), cenas de horror psicológico carregadas de tensão e uma brilhante atuação da digníssima Srta. Portman.

O diretor responsável pela obra é o competente Darren Aronofsky, famoso por explorar a fundo a natureza humana e seus limites. Tem no curriculum filmes memoráveis como Réquiem para um Sonho, O Lutador e Fonte da Vida, todos carregados de sentimentos humanos mais naturais, como a fraqueza, a morte e a solidão. O uso da câmera é interessantíssimo: quase sempre parece que estamos seguindo a protagonista ou espiando sua vida. Em praticamente todas as cenas há espelhos ou reflexos, representando a “dupla personalidade” da personagem. Isso ainda é explorado no contraste das cores, como o preto e o branco, representando o mal e o bem respectivamente.

Inicialmente o projeto entregue pelos roteiristas Andres Heinz, Mark Heyman e John J. McLaughlin se chamava ”The Understudy”, história que seria ambientada no mundo do teatro. Darren gostou do roteiro, mas sugeriu a mudança de ambiente para o mundo do Balé. O filme levou 10 anos para ser desenvolvido e o orçamento de 13 milhões de dólares era tão apertado para o projeto que Natalie Portman abdicou de seu trailer para que contratassem um médico, o qual cuidaria de suas diversas lesões ao longo das filmagens.

O filme começa com um belo sonho de Nina, onde a bailarina faz parte da coreografia do Lago dos Cisnes. No mesmo dia recebe a notícia da produção do espetáculo, coincidência ou primeira dica sobre as alucinações da moça.

Eu até queria, mas é praticamente impossível entrar em uma discussão sobre o caráter psicológico do filme e toda a subjetividade e dualidade contidas em todas as cenas, até porque eu não sou nenhuma especialista no assunto. Entretanto é inegável o quanto a condição psicológica de Nina é profunda e ao mesmo tempo triste.

Natalie Portman aprendeu a dançar (sua dublê é a bailarina profissional Sarah Lane) e precisou perder quase 10 quilos para interpretar Nina. A entrega da atriz a personagem é tão bonita que merece todos os prêmios que ganhou. Alguns ainda dizem que o filme não é lá essas coisas e que Portman o levou nas costas com sua atuação magnífica. Eu não concordo, creio que é um conjunto de partes encantadoras que se completam.

A rival de Nina é interpretada por Mila Kunis, contratada pelo Skype depois de uma indicação de sua amiga Natalie Portman. Sua personagem é o antônimo da protagonista, representando tudo o que ela queria/precisava ser, confiante, feliz, livre. O ódio e a disputa pela posição no Lago dos Cisnes acabam por ligar as duas amplamente, a expansão dessa ligação se confunde com os delírios de Nina nunca deixando o público saber as reais intenções de Lily.

Em entrevistas, Natalie e Darren brincam que o sexo lésbico mostrado no filme serviu para chamar os marmanjos ao cinema, enquanto as mulheres seriam atraídas pelo tema do balé. Brincadeiras à parte, Cisne Negro consegue prender a atenção dos públicos mais diversificados e exigentes.

Winonna Ryder faz uma participação como Beth, a bailarina principal da companhia que é substituída por Nina. A aparição é pequena, mas impressionante – eu mesma quase não reconheci a atriz.

O âmbito psicológico do filme vai da concepção de cada um, mesmo não tendo muito para o que fugir. Já esteticamente é quase uma crueldade falar mal, figurinos, maquiagens belíssimas, luz, trilha sonora, uso da câmera e ritmo de narrativa quase perfeitos. Os sintomas da “doença” e degradação física de Nina são mostrados a todo momento: vômitos, auto mutilação, falta de apetite, atos repetitivos e fragilidade. A garota tem lá seus 28 anos e mora com uma mãe autoritária, que vê na filha tudo que ela gostaria de ser.

Cisne Negro é um drama carregado de tensão, cenas bizarras e ousadia, incrivelmente sensual e psicótico. A lenta transformação de Nina, que começa como uma linda e doce cisne branca e acaba se tornando uma maléfica cisne negra, é tão linda e marcante que quando o filme acaba a vontade é voltar e assistir tudo de novo.

O thriller mostra uma mulher no auge de sua carreira, em uma luta com ela mesma, em busca da perfeição. A evolução do filme e principalmente da personagem proporciona uma experiência sensorial maravilhosa. Nem de longe é uma obra que mudará sua vida, mas definitivamente garantirá algumas horas de uma beleza inegável e marcará o ano passado.

Cisne Negro figura na lista dos melhores de 2010. Pode não ter melhor desempenho pela classificação e o conteúdo “sombrio” que muita gente não gosta, mesmo assim está no topo da minha lista pessoal, sem nem pensar duas vezes. As cenas “sangrentas” têm um peso psicológico que quase chega a doer no espectador.

Enfim, um filme incrivelmente bonito, envolvente, sensual, tenso e libertador. A chance de desapontamento é quase nula. Deixe-se levar e embarque na mente sinistra, debilitada e perfeccionista de Nina. Garanto que ver Natalie Portman dançando o ato final com pelugem negra, sangue nas roupas e fogo nos olhos, é imperdível.

“It was Perfect!” – Nina

N.E. Texto originalmente publicado no Boca do Inferno em 7 de fevereiro de 2011.

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2 Comentários

  1. Juninho

    Filme lindo de uma forma macabra e poética

  2. Cristiano

    Que texto maravilhoso para um filme maravilhoso!
    Realmente um filme inesquecível e, o mais importante, que faz com que as pessoas PENSEM, reflitam sobre todas as suas possibilidades. Obra essa que pode ser analisada por vários pontos de vista. Fica a dica para fazerem a crítica do atual filme de “terror” do diretor, “mãe!”.

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