Críticas, Quadrinhos

Fragmentos do Horror (2017)

Junji Ito mostra porque se tornou uma lenda dos mangás de horror com suas ideias absurdas e grotescas.

Fragmentos do Horror
Original:Fragments of Horror
Ano:2017•País:Japão
Páginas:224• Autor:Junji Ito•Editora: DarkSide Books

Nascido no Japão em 31 de julho de 1963, Junji Ito é um dos mais importantes mangakás de horror. Tendo iniciado sua carreira como protético dental, Ito desenhava durante as horas vagas até que, em 1987, submeteu sua primeira história em quadrinhos para a Gekkan Halloween, o primeiro mangá exclusivamente de terror a ser publicado no Japão, onde faturou uma menção honrosa. Isso fez com que Ito se dedicasse cada vez mais ao seu hobby, transformando o mangá em sua carreira.

Com temas recorrentes como o body horror, o colapso mental e da sociedade, Junji Ito se tornou um dos mais populares e importantes mangakás do horror, com destaque para suas obras Uzumaki e Gio que foram adaptadas para o cinema, mas quase nada de sua longa produção de histórias de horror chegaram ao Brasil. Sua primeira história a ser publicada por aqui foi Uzumaki, publicado em três partes pela Conrad entre Julho e Outubro de 2006. Seu estilo logo caiu no gosto dos fãs brasileiros que esperaram onze anos até que a DarkSide Books anunciasse a volta do mestre Ito às livrarias brasileiras com seu primeiro título da linha Tokyo Terror, a coletânea Fragmentos do Horror.

Com o capricho rotineiro da DarkSide Books, a edição de Fragmentos do Horror já chama a atenção logo de cara pelo acabamento gráfico. Com uma arte diferente oculta no verniz localizado na capa dura, o leitor já é alertado antes de abrir o mangá de que existem coisas ocultas sob a superfície das histórias contidas ali. A leitura da obra é no sentido tradicional dos mangás, da direita para a esquerda, e traz, além de oito contos de horror, um posfácio de autoria do próprio Junji Ito, onde o autor fala da sua dificuldade em retomar a produção de histórias de horror após algum tempo afastado do gênero.

Infelizmente, temos que concordar com o autor, pois a qualidade das histórias contidas em Fragmentos do Horror é bastante heterogênea. Não há histórias ruins nessa antologia, porém, algumas são nitidamente melhores que as outras, deixando clara a dificuldade de Ito a retomar sua produção horrorífica. Futon, a história que abre a coletânea, sobre um homem que passa o tempo todo coberto por seu futon com medo do que ele vê fora dele, é a mais fraca do volume, mas a partir dela o gibi engata a toda velocidade em direção acima, ou abaixo se preferir, e as histórias só melhoram.

Monstro de Madeira vem logo em seguida com uma estranha mulher que se aproxima de um velho homem e sua filha, mostrando interesse na casa histórica onde eles vivem. Aos poucos, a mulher demonstra um interesse sexual na casa e a história assume as características clássicas de uma HQ de Ito. Gola Rulê Vermelha, a terceira HQ, mostra um jovem amaldiçoado por uma feiticeira e que agora tem que segurar sua cabeça sobre o pescoço. A história é grotesca e divertida em alguns momentos e é o ponto de transição entre as duas primeiras histórias mais fracas e o que vem a seguir.

Em Suave Adeus, Junji Ito nos surpreende com um drama sobrenatural sobre saudade, bastante sensível e interessante, retratando uma história diferente de fantasmas. Principalmente quando contrastamos a nossa visão ocidental sobre a morte com a oriental retratada aqui pelo quadrinista. Dissecação-chan é uma das melhores histórias de Fragmentos do Horror e mostra a vida de uma garota obcecada por dissecar animais chegando ao ponto de, ela mesma, querer ser dissecada viva. É neste ponto do volume que Ito começa a demonstrar novamente porque se tornou uma lenda dos magás de horror com suas ideias absurdas que rendem histórias tão interessantes e grotescas.

Pássaro Negro, uma estranha história sobre o sobrevivente de um acidente em uma trilha pela floresta que é visitado todas as noites por uma mulher-pássaro, possui imagens aterradoras e conceitos interessantes, mas não está entre as melhores da coletânea, assim como Magami Nanakuse, sobre uma leitora que encontra a escritora de quem é fã e descobre da pior maneira de onde a autora tira suas ideias.

Encerrando o encadernado está A Mulher que Sussurra, o ponto alto de Fragmentos do Horror, sobre uma garotinha incapaz de tomar decisões ao ponto de sua família contratar uma jovem para auxiliá-la no dia-a-dia. Aos poucos, o relacionamento das duas se torna quase simbiótico e os resultados disso são os piores possíveis em se tratando de uma história de Junji Ito.

A DarkSide Books escolheu muito bem o título que abre sua linha Tokyo Terror e traz mais um ótimo acréscimo ao seu impecável catálogo. Podemos questionar a escolha de uma fonte serifada para os textos e a questionável capa dura que trava um pouco a abertura do gibi em alguns momentos e atribui um luxo desnecessário ao gibi, mas nada que impeça Fragmentos do Horror de se tornar um dos grandes lançamentos do gênero em 2017. Que a editora amplie sua linha com Hideshi Hino, Suehiro Maruo e tantos outros grandes nomes do horror japonês em quadrinhos num futuro próximo. Que venham mais mangás de horror para nossas livrarias!

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1 Comentário

  1. Ed

    A Mulher que Sussurra é uma história muito, muito triste!

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