Críticas

Juízo Final (2008)

É um pouco pretensioso demais para passar por descompromissado, mas forte o suficiente para não passar por ridículo!

Juízo Final
Original:Doomsday
Ano:2008•País:EUA, UK, África do Sul, Alemanha
Direção:Neil Marshall
Roteiro:Neil Marshall
Produção:Benedict Carver, Steven Paul
Elenco:Rhona Mitra, Bob Hoskins, Alexander Siddig, Caryn Peterson, Adeola Ariyo, Emma Cleasby, Christine Tomlinson, Vernon Willemse, Paul Hyett, Karl Thaning, Jason Cope. Ryan Kruger. Jeremy Crutchley, Cecil Carter

É admirável como a competência na Sétima Arte é valorizada em outros países: com somente dois filmes do mainstream no currículo, o cineasta britânico Neil Marshall conseguiu cativar o público de uma maneira que apenas os grandes mestres fizeram e por isso vamos recapitular caso o leitor não esteja associando o nome à pessoa: Dog Soldiers – Cães de Caça, de 2002, praticamente reacendeu o interesse sobre os filmes de lobisomens e mesmo eu, que não via muita graça em produções assim, me peguei fã daqueles adoráveis cachorrões.

Depois, especificamente em 2005, Marshall conseguiu se superar ao realizar uma das produções mais envolventes e assustadoras do cinema atual. Com Abismo do Medo, o diretor criou reputação, ganhou ainda mais fãs e se estabeleceu no circuito.

O tempo passou, e, em 2008, e Marshall resolveu dar a sua contribuição aos épicos pós-apocalípticos com Doomsday – ou Juízo Final – e, com esta obra, o diretor – que era uma unanimidade com os críticos e com o público – dividiu opiniões, causou euforia em alguns e choro e ranger de dentes
em outros. Mas por que será que Juízo Final foi recebido com hostilidade? Será que esta controvérsia é justificada? Continuem na sintonia que vocês saberão a resposta.

Voltando um pouco, como eu disse, seus dois primeiros filmes causaram um grande rebuliço no meio cinematográfico e na prática isto significou orçamentos mais gordos para o diretor. Para realizar Doomsday, rodado sobre um conceito que vinha trabalhando desde 2003, Marshall conseguiu a bagatela de 17 milhões de libras (ou 30 milhões de dólares) da Rogue Pictures, três vezes mais do que os orçamentos de Dog Soldiers e Abismo do Medo somados. O diretor considerou o aumento exponencial do elenco e das locações como um desafio e as filmagens começaram em fevereiro de 2007, na África do Sul, onde a maior parte das tomadas principais foram gravadas. O país foi escolhido principalmente por questões orçamentárias, já que sairia o triplo para gravar tudo no Reino Unido, onde o roteiro se desenvolve.

Doomsday foi lançado nos cinemas dos Estados Unidos e Canadá em 14 de março de 2008 (sem passar por sessões para os críticos) e na Inglaterra em 9 de maio. Visto pelo lado financeiro, a bilheteria não poderia ser mais desapontadora, o público não comprou o produto de Marshall e literalmente naufragou comercialmente. Para dar o exemplo yankee, o filme estreou em mais de 1900 cinemas e, naquele fim de semana de estreia, foi apenas o sétimo mais assistido; no mundo todo a produção rendeu apenas um pouco mais de 18 milhões de dólares.

Vamos ver então sobre o que se trata o roteiro: o Reino Unido nunca foi um bom lugar para se viver quando se tratam de vírus mortais… Os eventos do filme começam no ano de 2008, onde uma praga letal devidamente chamada de “Reaper” infectou a Escócia. O país está sendo isolado pelo governo britânico por muros com o fim de estabelecer uma quarentena para os infectados, todavia a intenção dos líderes do país é largar os escoceses à sua própria sorte. No caos que está se formando uma menina chamada Eden é uma das únicas que conseguem ser levada para fora da contenção de helicóptero, apesar de receber um tiro no olho esquerdo e ficar meio cega. Sua mãe (Emma Cleasby, que já havia trabalhado com o diretor em Dog Soldiers) fica para trás e uma carta deixada para Eden antes dela partir é a única lembrança que a menina possui dela.

Agora em 2035, a crescida Eden (Rhona Mitra, de Velozes e Mortais e Skinwalkers) é uma Major no departamento de segurança doméstica e tem como mentor o chefe da segurança pública, Nelson (Bob Hoskins, Brazil – O Filme e Hollywoodland), na prática, pensem nela como uma versão feminina de Snake Plissken com um “olho de vidro com câmera” no lugar do tapa olho.

O danado do vírus resolve atacar a Inglaterra depois de 27 anos isolado na Escócia, e, para tentar contê-lo, o frágil primeiro ministro John Hatcher (Alexander Siddig, de Reino de Fogo e Syriana) e seu conselheiro mau caráter Michael Canaris (David O’Hara, Os Infiltrados) – que escondeu do público o fato de haver sobreviventes há vários anos, notadamente imunes ao vírus – ordenam uma expedição ao local proibido a fim de procurar o pesquisador médico Dr. Kane (Malcolm MacDowell), que estava envolvido na elaboração de uma cura e de preferência trazer um dos sobreviventes para fazer uma vacina; nem preciso dizer que caso não consigam trazê-lo rapidamente, toda a Inglaterra será dizimada pela praga e pelo caos. Como podem perceber, o futuro da nação está nas mãos da única pessoa fodástica o suficiente capaz de fazer isso, Plissk…Eh…Parsival…Ops…Eden.

Eden vai até a fronteira e monta um pequeno grupo de militares e dois cientistas médicos (seus nomes não são importantes e vocês já sabem o porquê). O grupo se dirige até o hospital de Glasgow, que era o local de trabalho de Kane até a infecção tomar conta, mas eles são emboscados por um violento grupo de bandidos canibais, que formaram uma sociedade primitiva, sem armas de fogo ou eletricidade.

Juízo Final (2008)

A moça e alguns outros são capturados e levados ao lider da tribo/gangue, Sol (Craig Conway, um dos ‘crawlers’ de Abismo do Medo). Eden lhe conta o propósito de sua missão, e Sol fica bravo, pois Kane disse a eles que nada havia sobrado do mundo do lado de fora da Escócia e, na cena seguinte, o líder comanda um show de bizarrices que culmina em um incrível momento onde ocorre o cozimento de um dos cientistas que acompanhou Eden até o local.

Neste meio tempo Eden consegue fugir de sua cela com outra prisioneira, Cally (MyAnna Buring, também de Abismo do Medo), decapitando a namorada de Sol (Lee-Anne Liebenberg) no processo, o que deixa o magrelo muito puto. Cally revela que na verdade eles estão no meio de uma guerra de família de proporções míticas; a moça é irmã de Sol e os dois são filhos de Kane. Cally diz também que estava presa pois é a única que poderia revelar ao irmão a localização do pai.

A fuga acaba em uma estação abandonada: ao pegar um trem, o grupo de fugitivos junto com outro de rebeldes se dirige para o norte. Depois de desembarcar o cenário é outro, ao invés das gangues urbanas com pessoas cheias de piercings e tatuagens, eles estão em um mundo medieval e são capturados por cavaleiros para uma comunidade neo-feudal comandado por Kane. Chegando ao castelo onde Kane vive, o médico permanece irredutível em sua decisão de não retornar e afirma que não existe uma cura; agora Eden precisa ser rápida, pois a cada minuto que ela se mantém nos jogos de Kane, a história ocorrida na Escócia está prestes a se repetir na Inglaterra. Na essência é só isso com uma grande perseguição envolvendo um Bentley Continental GT nas estradas da Escócia e um final a lá Fuga de Nova York para fechar o pacote.

Agora é a hora da polêmica, afinal o filme é bom ou ruim? Na verdade o grande problema é a principal virtude de Juízo Final: ele não traz nada substancialmente novo para um gênero que envelheceu e se desgastou lá na década de 80. Quem assistiu a qualquer um dos “pós-apocalipticos com gangues” que a Itália fez – ou puxando mais pro mainstream, o já citado Fuga de Nova York, de John Carpenter ou Mad Max – somado com a catástrofe viral do Extermínio (ou ainda Resident Evil Apocalypse), já tem uma dimensão completa do que assistir neste filme, basta adicionar mais gore. Contudo, isto não seria um defeito para quem já é acostumado a ver este peculiar gênero do cinema B, até porque o próprio diretor declarou se tratar deliberadamente de uma homenagem a este sub-gênero – precário por suas próprias origens – portanto se for considerado como tal é mais do que assistível, apesar de inferior por alguns motivos que vou explicar mais à frente.

Portanto uma das explicações pela baixa receptividade do público pode ser encontrada aqui: quando um conceito já restrito se transporta para uma produção mais levada a sério com uma série de referências que a maioria do público adolescente dos cinemas não consegue pegar, o filme fica mais frio e afasta a molecada.

O diretor não se fixa em uma única abordagem, ora contém elementos de terror, ora de ficção científica, ora de thriller, ora de ação e até drama. Jogando com tantas cartas não é de admirar que aconteçam alguns erros evidentes de roteiro e ritmo, especialmente no que diz respeito ao desenvolvimento dos personagens “que não sejam Eden“, o que acabou deixando-os sem vida sendo meros figurantes ante a ação da ruidosa protagonista. Outro defeito por trás das câmeras que pode ser encontrado está nas extensas e frenéticas cenas de ação – aqui é a edição “metralhadora” que acaba deixando a desejar, ofuscando o interesse do espectador pelo roteiro.

Entretanto devemos novamente tirar o chapéu para o diretor no quesito efeitos especiais. Marshall tentou utilizar o mínimo de CGI, aumentando veracidade das cenas proporcionalmente à sua complexidade, mesclando a velha escola com a tecnologia na dose correta. Este estilo pode ser visto em particular na complicada cena já citada onde temos um churrasco humano, ganhando de longe da marcante sequência similar vista em Terror em Silent Hill.

As atuações são francamente exageradas, embora aparente mais que o diretor pediu ao elenco que assim fosse. Rhona Mitra faz uma “badass” icônica e o maluco Craig Conway encaixou como uma luva em seu caricato personagem, e apesar da inexpressividade de MyAnna Buring todos conseguem interpretar dignamente, apenas achei que Malcolm McDowell apareceu muito menos que poderia e merecia.

Por estes motivos e também pela grande expectativa criada pelo “terceiro grande filme” de Neil Marshall, que, no frigir dos ovos, é um pouco pretensioso demais para passar por descompromissado, mas forte o suficiente para não passar por ridículo – não dá para saber se os defeitos foram propositais e assim o resultado acabou se tornando um pouco incômodo. Da minha parte me diverti bastante em momentos isolados, mas acabou manchando um pouco aquela dita “unanimidade” que carregava as obras do diretor até então. E como todo guilty pleasure que se preze deve ser levado como um magnânimo “trash de luxo” e apenas o tempo pode provar o seu valor e marcar o inconsciente dos fãs.

Curiosidades

– Entre muitas outras pequenas homenagens, dois dos soldados enviados à Escócia chamam-se “Miller” e “Carpenter“. O nome dos personagens são referências explícitas a dois dos principais influenciadores de Marshall para conceber Juízo Final, neste caso os diretores George Miller e John Carpenter, que comandaram a franquia Mad Max e Fuga de Nova York, respectivamente;

– A despeito de haver muitas cenas coreografadas com dublês, apenas uma acabou errada. Um motociclista foi arrastado quando deveria rolar de lado em segurança, contudo não se feriu;

Alexander Siddig, que interpreta o primeiro ministro, é sobrinho na vida real de Malcolm McDowell;

– Devido a ajustes orçamentários uma cena onde helicópteros atacariam o castelo do Dr. Kane com metralhadoras precisou ficar de fora do filme.

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1 Comentário

  1. Putz! Eu amo esse filme!!! Merecia três caveirinhas, hein Gabriel?

    É maluco demais! Só a quantidade de gêneros misturados em um filme só já vale a assistida.

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