Críticas

O Exorcista III (1990)

A continuação oficial de O Exorcista, na visão de seu criador, mas com grandes interferências do estúdio!

O Exorcista III
Original:The Exorcist III
Ano:1990•País:EUA
Direção:William Peter Blatty
Roteiro:William Peter Blatty
Produção:Carter DeHaven
Elenco:George C. Scott, Ed Flanders, Brad Dourif, Jason Miller, Nicol Williamson, Scott Wilson, Nancy Fish, George DiCenzo, Don Gordon

Um incômodo gotejar, em um ambiente claustrofóbico e escuro, amplifica a tensão do Tenente Kinderman num dos momentos mais aterrorizantes do filme O Exorcista 3 e do livro Legião, ambos de William Peter Blatty. A adaptação foi realizada treze anos após o lançamento da continuação oficial, O Exorcista II – O Herege, de John Boorman, considerada umas piores sequências de todos os tempos, envolta em simbolismos bobos e em um contexto falho. Durante o período em que a Parte 2 era defenestrada pelos críticos e fãs do original, Blatty escreveu sua visão oficial para um novo filme, sem repetir a fórmula do primeiro e partindo para um thriller de investigação, com elementos de horror sobrenatural.

Com um orçamento estimado em U$11 milhões, o longa arrecadou um total de U$39 nas estreias pelo mundo, mas foi alvo de duras análises e não teve a mesma força do original. Blatty, na época, atribuiu o resultado como um fracasso, culpando a necessidade de acrescentar no título a palavra “Exorcista” e a refilmagem de algumas cenas. Nunca foi de seu interesse estabelecer uma conexão absoluta com o original e aproveitar as conquistas de William Friedkin, principalmente se levar em consideração a baixa receptividade da continuação. Ele já havia questionado o jornal The New York Times por não colocar o livro “Legião” na lista dos best-sellers, mesmo com toda a venda informada pela editora.

Com a expectativa em baixa, são evidentes as diferenças entre o livro e o filme, mesmo com o envolvimento completo de Blatty na direção e roteiro. De acordo com o cineasta, a Morgan Creek obrigou o uso do título que faz referência ao primeiro e também a necessidade de incluir um exorcismo, algo que não existe na versão literária. Assim, embora a fotografia principal já estivesse completa, foi preciso acrescentar o personagem do Padre Morning, interpretado por Nicol Williamson, e ainda contratar o ator Jason Miller, que fez o Padre Karras no clássico, para criar um vínculo ainda maior. Curiosamente, Brad Dourif já havia feito todas as suas cenas como o Assassino Geminiano e foi preciso alternar suas falas com Miller, dificultando a compreensão do espectador que não teve contanto com a obra escrita. É interessante pensar que essa bagunça de filmagens e refilmagens também aconteceu com o filme seguinte, Exorcista – O Início, que passou a ter duas versões como a filmada anteriormente, Domínio, de Paul Schrader.

Tendo todo esse contexto conturbado, ainda assim prestigio bastante O Exorcista 3. Não é um filmaço como o original, nem deve ser incluído em qualquer lista de destaque, mas tem uma narrativa curiosa, bons personagens e alguns sustos. É uma adaptação com uma relação bem discreta com a versão literária, e até ganha mais pontos que o livro pelas mudanças desenvolvidas e que deram ao filme o clímax que faltou nas páginas finais de “Legião“. Uma edição mais cuidadosa e alguns acertos técnicos e O Exorcista 3 poderia servir bem como uma produção independente, uma quase fanfic do clássico.

A cena inicial traz uma caminhada suspeita pelas ruas de Georgetown, e uma narração sobre uma tal rosa vermelha, apontando a sequência final do clássico, com a queda do Padre Karras pela escadaria Hitchcock. Algumas imagens perturbadoras, como a de Cristo na cruz abrindo os olhos, até finalmente surgir o protagonista, o tenente Kinderman (George C. Scott, substituindo o papel do falecido Lee J. Cobb), em uma cena de crime em um clube de regatas, onde fora encontrado o corpo do menino de 12 anos Thomas Kintry (James Burgess), decapitado e crucificado com pás de remo. Kinderman reencontra o velho amigo Padre Dyer (Ed Flanders, no lugar de William O’Malley, do original), com quem mantém discussões cinéfilas e vai ao cinema ver A Felicidade Não se Compra, clássico de 1946, dirigido por Frank Capra.

Ao contar detalhes sobre o crime, o tenente relembra um episódio engraçado do livro envolvendo a carpa que está ocupando sua banheira. A intimidade entre os dois é bastante intensa, mas fica mais evidente nas páginas que Dyer é um velho amigo confidente de muitos anos. Não demora tanto quanto na obra para acontecer o segundo assassinato, o de um padre também decapitado em seu próprio confessionário. No livro, as investigações são mais detalhadas, tendo todo o interrogatório de Kinderman com as testemunhas nos dois crimes, levando-o a suspeitar de algumas pessoas. Quando Dyer é hospitalizado por conta de um mal-estar, Kinderman vai visitá-lo pouco antes dele ser encontrado morto, também nas mesmas características que as outras duas vítimas.

Kinderman conta para o diretor do hospital a respeito do modus operandi ter bem similar ao praticado pelo Assassino Geminiano, morto numa ação policial há mais de dez anos, embora as impressões digitais nos crimes sejam de pessoas diferentes. Como as informações passadas para a imprensa foram forjadas propositadamente, o tenente passa a acreditar que o assassino ainda esteja vivo e por trás dos novos crimes, levando-o a um encontro com um paciente misterioso na sala 11, que assume a autoria das mortes mesmo não havendo maneira de sair do isolamento onde se encontra. No entanto, o que mais assusta o policial é o fato do paciente ter, por vezes, a aparência do Padre Karras, levantando questões filosóficas bem distantes das reflexões do Kinderman literário.

Assim, o mistério envolvendo a identidade do vilão e as novas mortes dão o tom da produção, que, em nenhum momento, torna-se enfadonha ou arrastada. Além disso, há duas sequências assustadoras no filme, sendo que uma delas é sempre destacada nas listas mais aterrorizantes da internet. Na primeira, a enfermeira Amy Keating (Tracy Thorne) é perseguida no corredor por uma figura vestida de branco enquanto verificava uma paciente: o zoom da cena em combinação com a trilha incidental trazem o episódio arrepiante. A outra é o passeio pelo teto, como uma aranha, de uma das pacientes, sem a percepção dos demais personagens. Vale destacar a cena – também bem diferente do livro – em que uma “enfermeira” vai à casa de Kinderman, planejando decapitar sua filha, por conta de sua preferência por sobrenomes começados com a letra “K“.

Se o Dr.Temple (Scott Wilson) está bem caracterizado, lembrando sua versão escrita, por outro lado, ignoraram o Dr. Amfortas, que no livro vivia um drama pessoal decorrente da perda da esposa. Era interessante porque ele tentava entrar em contato com o fantasma dela através do sistema de gravação de ruídos, o chamado EVP (Electronic Voice Phenomena). Suas ações permitem alguns calafrios, ainda que evidencie resquícios de insanidade em vez de capacidade de conexão com o Além. Depois o tema seria explorado em outras produções de horror, como Vozes do Além, de 2005.

Com essas mudanças obrigatórias, O Exorcista 3 fica bem distante das pretensões do autor. Mesmo assim, é bem superior ao segundo filme, sem a necessidade de um relacionamento íntimo com o clássico. É uma produção que funciona sozinha, respeitando os acontecimentos do longa de 73, e que possui momentos arrepiantes em um enredo fascinante e curioso.

Somos Muitos: As Duas Versões de O Exorcista 3

Durante anos, desde o lançamento de O Exorcista 3, William Peter Blatty lutou para conseguir lançar sua versão “Director´s Cut” do filme, a partir das cenas cortadas – e também sem os acréscimos que ele julgou desnecessários. A Morgan Creek sempre informava que o material havia sido perdido e que jamais haveria uma versão uncut para o lamento da esposa do autor, em entrevistas. Contudo, pouco antes da morte do escritor (falecido em 12 de janeiro de 2017), em outubro de 2016, as cenas foram encontradas e o filme foi finalmente lançado como Blatty queria.

Com a exibição limitada, a opinião do público se dividiu entre os que não viram nada demais e os que acharam que ele poderia ter sido muito melhor avaliado. A “Director´s Cut” não chega a ser tão diferente assim do filme lançado em 1990, como aconteceu com as mudanças de O Exorcista 2 e Exorcista: O Início. De qualquer maneira, as alterações existem oficialmente, e essa nova versão poderia ganhar a luz verde por aqui em uma boa edição em blu-ray para os fãs do trabalho do escritor.

Dentre as mudanças significativas no corte ideal, pode-se listar:

– uma cena de abertura diferente, mas que já revela uma das surpresas do filme. Kinderman está no necrotério observando o corpo do Padre Karras, que havia caído da janela e rolado pela escadaria no final de O Exorcista. Quando o tenente vai embora, o monitor cardíaco começa a dar sinais de batimento no corpo do padre.

– apesar dos sustos, O Exorcista 3 não tem muitas cenas violentas e de gore. Uma delas, cortada, mostra o cadáver do padre que foi morto no confessionário, sentado, segurando a própria cabeça cortada de seu corpo.

– uma versão mais longa da conversa entre Kinderman e o sacerdote, a respeito dos assassinatos. O rosto do demônio é mostrado na face da estátua de um santo.

– No livro, o corpo de Karras é exumado no cemitério, constatando que o corpo de um jesuíta, desaparecido há 15 anos, está no lugar. Essa cena existia no filme, logo após a conversa de Kinderman sobre o paciente misterioso.

– no corte original, Karras não aparecia na cela, pois o ator havia gravado apenas a cena inicial, no necrotério. Havia apenas uns cortes entre as faces dos dois atores, para a confusão do tenente (cena que aparece no trailer de cinema), no momento do exorcismo, sem o padre Morning.

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2 Comentários

  1. Willie

    Gosto desse filme. O livro é excelente. Espero conseguir ver a versão do diretor.

  2. Augusto

    Acho esse filme subestimado. Ele é ótimo. Tem bom clima, uns bons sustos, ótimos diálogos e bons atores , principalmente Brad Dourif que acho que deu um show. Acho o Exorcista III parecido com Psicose II: não são melhores que o original, óbvio, mas não se limitam a ser meras cópias além de honrarem o legado da série.

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