Críticas

A Morte te dá Parabéns! (2017)

Não é um enredo inovador, mas a mistura de loop temporal com slasher é bem constituída, resultando num trabalho bobo, despretensioso e extremamente divertido

A Morte te dá Parabéns
Original:Happy Death Day
Ano:2017•País:EUA
Direção:Christopher Landon
Roteiro:Scott Lobdell
Produção:Jason Blum
Elenco:Jessica Rothe, Israel Broussard, Ruby Modine, Charles Aitken, Laura Clifton, Jason Bayle, Rob Mello, Rachel Matthews, Ramsey Anderson

O inferno da repetição só é realmente amargo quando o dia em questão é uma segunda-feira. Esse é o pesadelo de Tree (Jessica Rothe), uma intragável jovem que, depois de uma noite de bebidas, passa a acordar sempre no mesmo dia, data de seu aniversário, culminando com o seu assassinato nas mãos de uma figura mascarada. Não é um enredo inovador, mas a mistura do loop temporal com o estilo “slasher“, e pitadas de mistério e humor negro, é bem constituída, resultando num trabalho bobo, despretensioso e extremamente divertido, comandado por Christopher Landon, de Atividade Paranormal: Marcados pelo Mal (2014) e Como Sobreviver a Um Ataque Zumbi (2015).

O projeto existe desde julho de 2007, quando Megan Fox era o nome apontado como protagonista, e Michael Bay seria o produtor. Não se desenvolveu como era imaginado, e o roteiro de Scott Lobdell foi engavetado sem perspectiva de um futuro lançamento. Somente em 2016, a Blumhouse Productions voltou ao tema, contratando Jessica Rothe como protagonista, e anunciando Landon para a direção. Ela já vinha se destacando em diversas produções e séries, alcançando o ápice no premiado La La Land: Cantando Estações, de 2016. A aposta não poderia ser a mais adequada: além de bonita, ela consegue mesclar em sua interpretação características rebeldes e ingênuas, numa proporção bem estranha, mas eficiente.

Sua personagem acorda em um dormitório, na presença do desconhecido Carter (Israel Broussard). Aparentemente, ele teria a resgatado de uma festa, completamente bêbada, e levado para seu quarto, sem que ela se lembre das razões que a conduziram até ali. Tree vai notando algumas situações inusitadas no seu dia, marcas curiosas como o rapaz que desmaia e o casal surpreendido pelo sistema de irrigação. Além de alguns conhecidos como a colega de quarto Lori (Ruby Modine) e o professor galanteador Gregory (Charles Aitken), com quem mantém uma relação escondida, seu aniversário é marcado pelo encontro como uma pessoa mascarada, escondida pelo símbolo do mascote da faculdade. Assassinada, Tree desperta mais uma vez no dormitório, revendo tudo o que aconteceu até o momento fatídico, intrigada em tentar entender o motivo e a identidade de seu algoz.

Como uma péssima vítima – jamais seria uma final girl, sem a resistência necessária para a sobrevivência -, Tree aos poucos descobre que sua personalidade forte e o modo como trata as pessoas permitem que o assassino possa ser qualquer um; ela ignora as tentativas de seu pai de contato, constantemente agride a companheira de quarto e mantém um caso com o professor casado. Assim, inicialmente o público não se identifica com suas ações mal humoradas, e acaba torcendo pelo inimigo misterioso, que lhe dá cabo de maneiras bem diferentes, lembrando os bons momentos da cinessérie Pânico, de Wes Craven.

A comparação é proposital: a máscara foi concebida pelo mesmo criador do Ghostface, Tony Gardner. Em entrevista, o diretor explicou a criação: “Durante a pré-produção, eu estava esperando meu primeiro filho. Não sei se eu tinha bebês em mente ou se estava inconscientemente assustado por ser pai, mas essa imagem ficava constantemente flutuando na minha cabeça. Tony fez uma máscara de porco também, mas quando vestiu a de bebê no escritório, eu assustei um colega de trabalho e pensamos…sim, é essa a escolhida.

E o mais interessante de A Morte te dá Parabéns (se você ignorar o título nacional ruim) é essa ousadia em não se esquecer das inspirações. O próprio clássico da Sessão da Tarde, Feitiço do Tempo, de 93, de Harold Ramis, é citado como uma referência ao “loop temporal“. A personagem de Rothe não tem o carisma e a inteligência de Phil (Bill Murray), mas promove um auto-conhecimento e a oportunidade de rever conceitos e corrigir falhas, sem a necessidade de justificar a repetição do dia. E essa brincadeira de “loop” é sempre divertida como subgênero, ainda que seja necessário aceitar alguns deslizes do enredo como as mudanças de ritmo que não impedem que as coisas aconteçam sempre da mesma forma. Em alguns momentos, Tree age com mais rapidez, saindo do dormitório poucos segundos depois de acordar, mas acaba novamente revendo as mesmas situações, na ordem e da mesma maneira.

A Morte te dá Parabéns está conseguindo uma boa bilheteria, tanto no Brasil quanto em outros lugares onde estreou. Mais uma vez o gênero está mostrando sua força, seja com a explosão de It – A Coisa ou no sucesso do longa nacional As Boas Maneiras, que conquistou o principal prêmio do Festival do Rio. O estilo “slasher pipoca + terror teen” parece ter ainda muitos adeptos, o que pode render produções similares nos próximos anos, numa repetição de fórmulas e conceitos que aparentemente não incomoda como aconteceu com Tree.

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1 Comentário

  1. Marcelo Seiler

    Cadê o divertimento desse filme? Fora a protagonista que é uma chata de galochas, as piadas ruins, o mistério em torno do assassino capenga….

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