Críticas

Hazard: O Mutante Biológico (1994)

Fred Olen Ray deve estar orgulhoso de seu pupilo Steve Latshaw, que conseguiu fazer um filme que é a sua cara: tosco e picareta como poucos

Hazard - O Mutante Biológico
Original:Biohazard: The Alien Force
Ano:1994•País:EUA
Direção:Steve Latshaw
Roteiro:Steve Latshaw, Patrick Moran
Produção:Patrick Moran
Elenco:James L. Miles, John Alexander, Dorothy Best, Robin Chapman, Katherine Culliver, Trevor David, Tom Ferguson, Susan Fronsoe, Maddisen K. Krown

So it’s gonna fuck us or suck us…
Mike Readom e sua inteligente definição sobre o monstro

Fred Olen Ray é um dos mais cultuados, idolatrados, salve, salve, diretor de filmes Z de baixo orçamento dos anos 80. Seus filmes ficaram conhecidos pela pressa em que filmava, pela elevada quantidade de mulépelada, atores em fim de carreira e tudo o mais que um fã de trash adora. Então vem a inevitável pergunta: o que pode ser mais podre do que um filme de Fred Olen Ray? A resposta: a continuação de um filme dele, é claro. Então, no ano de 1985 aconteceu o lançamento de uma catástrofe em formato de filme chamada Bio Hazard, lançado no Brasil como Vale da Morte, uma verdadeira pérola do cinema trash sobre um mutante alienígena que aparece sem mais nem menos no nosso planeta e começa a matar a torto e a direito, com muito sangue e peitos, de autoria do mestre Fred. Dez anos se passaram até que um iluminado (e desocupado) chamado Steve Latshaw (cujo maior sucesso é o sucesso Vampire Trailer Park, de 1991, que entre outras barbaridades tem uma vampira com bulimia…) resolveu fazer uma continuação para este péssimo filme e Fred Olen Ray ficou como produtor executivo.

Biohazard II não tem a mínima ligação com seu antecessor e pode ser considerada uma verdadeira bomba de dar inveja a qualquer terrorista, porém este é daquele tipo de filme que é tão fraco, ruim e feio que acaba se tornando um espetáculo do grotesco, até maior que o original, e assim fica difícil odiá-lo.

Hazard: O Mutante Biológico (eita titulozinho, hein?) tem todas as coisas que funcionam em um filme assistido pelo lado da comédia involuntária: Roteiro raso e “baseado” em outras produções, pobreza de efeitos, atores sem o menor senso de ridículo, exageros, alguns peitinhos e outros fatores que nos fazem duvidar da nossa fé na raça humana, mas que tornam cada um dos 88 minutos de projeção os mais hilários pelos quais você poderia passar.

Pra começo de conversa, o filme é horroroso desde o logotipo, com um efeito em CG muito sem vergonha produzido no computador da minha vó, mas você só percebe que algo fede neste filme depois da introdução: uma noite qualquer, um casal de cobaias muito do esquisito tenta fugir da Triton Industries. A mulher está grávida prestes a ter seu rebento, o homem está branco como cera parecendo que vai virar um zumbi de Romero a qualquer minuto. Porém eles não vão escapar assim tão fácil, já que o chefe de segurança da companhia, Quint (Tom Ferguson), vai tentar impedi-los.

A primeira investida de Quint contra o casal é usar um lança-foguetes (ou seriam dois canos de PVC grudados um sobre o outro?) contra o carro dos fugitivos, entretanto milagrosamente o carro não só não explode como continua correndo e o fogo da explosão se dissipa como se nada tivesse acontecido. Nervoso com a “blindagem” do veículo, Quint é cobrado por seu chefe Brady (Christopher Mitchum, de O Executor 2 e filho do famoso ator Robert Mitchum) e a colega de trabalho Phillips (Catherine Walsh) e vai em perseguição ao casal.

A mulher está apavorada, pois seu bebê está querendo sair e o homem leva a mão ao peito por estar aparentemente tendo um infarto ou coisa parecida. À sua espera um cientista chamado Lynch (Patrick Moran, o roteirista dessa bagaça), que vai ajudar na fuga do casal, porém Quint está chegando próximo e consegue parar o carro de fuga com um único tiro, demonstrando sua pontaria certeira e poupando alguns milhares de dólares em uma perseguição de automóveis…

O veículo bate em um monte de lixo num beco sem saída e, em uma cena de deixar Ridley Scott corado de vergonha, a mulher com sua barriga quadrada de espuma dá a luz a um mutantezinho muito feio em uma cesariana não programada, digamos assim. Enquanto isso seu marido começa a sofrer uma mutação genética, ao passo que Quint chega e limpa toda a evidência, matando o homem com um tiro e carbonizando o carro com a mulher dentro. Toda a cena é assistida de longe por Lynch, que mora naquele beco, mas o melhor é como o carro explode: Quint solta o freio de mão do veículo que desce a rua e bate em um outro carro e CABUMMM!!

Gente, que é isso? O carro não explodiu com uma bazuca e detona em uma colisão lateral… Pior é se você reparar bem, percebe-se que NÃO é o carro da mulher que pega fogo e que o outro veículo NÃO estava lá anteriormente e isso porque estamos com apenas 7 minutos de filme. Quint sai do lugar, ninguém dá parte para a polícia e Lynch encontra um casulo no beco, uma prova que o monstrinho já começou a crescer.

Amanhece e Quint volta para a Trinton e é flagrado pela repórter Nicki Carstairs (Susan “quero-ser-Dana-Scully” Fronsoe) do lado de fora. Enquanto isso, Mike Reardon (Steve “quero-ser-Fox-Mulder” Zurk, que a vida inteira fez papéis de guarda truculento, com razão), o chefe de segurança anterior, entra no prédio sorrateiramente e busca arquivos sobre um projeto secreto da companhia para desmascarar de vez as falcatruas de Brady. A propósito, a única que está trabalhando no local é Phillips (sei lá, deve ser sábado ou feriado…) e a besta só é descoberta porque começa a falar alto no escritório.

Mike consegue ver no computador alguns dados sobre um tal projeto Lucy antes que tenha uma arma apontada para a cabeça. Nosso herói (pft..) consegue escapar dando uma saraivada de disquetes em Phillips deixando-a cega momentaneamente (!). Quint chega e diz que Brady irá explodir o prédio inteiro em alguns minutos para limpar os arquivos e eliminar qualquer evidência do que fazem lá. Mais um detalhe: além da explosão muito da fajuta, a bomba estava em uma maleta simples, ou seja, querem convencer que aquele treco tinha um poder de detonação suficiente para não deixar pedra sobre pedra de uma indústria?! Ah, fala sério… No frigir dos ovos, Mike e Nicki só têm a lista dos envolvidos no projeto, que começam a ser eliminados por Quint ou pelo monstrengo, que cresceu e agora é uma mistura do Godzilla das antigas com os monstros dos Power Rangers.

Mike revela que o objetivo da Triton era criar uma criatura capaz de resistir à guerra nuclear, escassez de água e comida. Para quê? Sei lá, pra gente ter que matar depois… E escolhem Claude Jeffries, um militar maluco envolvido no projeto, para procurá-lo primeiro, só que o monstro chega antes e devora o sujeito.

O casal vai à casa de Jeffries, encontram o velho falecido e coletam uma amostra de sangue para análise – nesta hora a polícia chega. Os policiais Morley (John Alexander, que depois conseguiu pontas em filmes maiores como Homens de Preto e Zathura) e Warren (John Maynard) pegam a dupla de custódia, mas o monstro aparece na estrada e quando as duas malas saem do carro para verificar e encontrar outro casulo, o casal se manda, deixando-os a ver navios.

Quint passa a usar um rastreador de DNA (e que parece uma calculadora…) para encontrar o mutante e usando os demais colaboradores do projeto Lucy para atraí-lo, enquanto vão se acumulando vitimas. Nesse meio tempo Lynch é encontrado pelo casal, que se tornou um pingaiada que bebe vodca da Skol (acredite…) e revela que o monstro está se alimentando dos envolvidos no projeto e está procurando uma fêmea geneticamente compatível para procriar (!!) antes que morra. Brady sabe disto e manda Quint para encontrar as duas mulheres que podem ter um filho do mutante: Caitlan Palmer (Dorothy Best, esposa do veterano ator James Best) e Shana Garrity (Katherine Culliver), a primeira para servir de mãe de aluguel e a segunda para ser eliminada.

Então Brady vai à cidade e junto com Quint e Phillips traçam os planos para capturar o bio-monstro e finalizar o projeto Lucy. Segurem a risada se puderem: com uma super-arma chamada “Loxman“, que congela seus alvos instantaneamente, tipo nitrogênio liquido, sendo que a aparência não é mais do que um extintor de incêndio amarelo, mas matou 300 MIL iraquianos em 4 DIAS (!!) na guerra do Golfo…!! Então o plot prossegue com esse show de horrores da trindade até o final: o monstro, a Trinton e os mocinhos se digladiando com péssimos efeitos em CG, falhas de lógica, desafios às leis da física e todo o tipo de bobagem que nos fazem rir muito a todo o momento.

O show de barbaridades termina e a primeira conclusão que se pode tomar é que qualquer tentativa de que este filme seja de ficção científica é mera coincidência. Fzendo uma analogia, é mais ou menos como se Bruno Mattei se aventurasse a produzir um episódio de Arquivo X. Pra você ter uma ideia, o filme é tão picareta que até o título original americano (Biohazard: The Alien Force) é uma grande falsidade, porque o monstro não é um alienígena, mas uma mutação genética criada em laboratório.

O elenco é PÉSSIMO com todas as letras maiúsculas e merecem um parágrafo a parte: Steve Zurk é tão canastrão que até lembra David Hasslehoff depois da pneumonia. O trio de vilões é exagerado até o osso, mas Catherine Walsh leva uma citação à parte, pois parafraseando uma crítica que li na Internet ela “tem mais músculos na boca que uma atriz de filme pornô“. Os demais estão no nível de produções da teledramaturgia mexicana, a única exceção é Katherine Culliver, que, se não vence o Oscar, pelo menos tem belos “atributos interpretativos” – se é que você me entende…

O erros de continuidade são tão absurdos e abusivos, como carros de 2 portas que mudam inexplicavelmente para 4 portas e caminhonetes que batem de frente e a caçamba explode…que dão um tom a mais na tosquice do filme complementada na nitidez das fantasias de borracha e uma boa dose de CG de baixa qualidade para matar efeitos mais elaborados e tornar a história ainda mais hilária.

Insuperável para os amantes do vasto universo trash e insuportável para quem tem uma fagulha de senso critico, assista preferencialmente com uma boa dose de álcool no sangue e prepare-se para ficar com a barriga doendo de tanto gargalhar. Por fim, é preciso dizer que Fred Olen Ray deve estar orgulhoso de seu pupilo Steve Latshaw, que conseguiu fazer um filme que é a sua cara: tosco e picareta como poucos.

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1 Comentário

  1. Anselmo Luiz

    Hazard – O Mutante Biologico passou na Rede Bandeirantes no ” Cine Sinistro ” em 2001 duas vezes nos dias 19/05/2001 e 24/11/2001 as 23:00 e 2002 no dia 04/05 em novo horario as 0:00 ,depois nunca mais ele foi exibido na TV Aberta.

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