Críticas

O Vale das Sombras (2017)

Um conto com referências à cultura gótica escandinava, com exploração de ambientes tétricos e uma sensação incômoda de insegurança constante

O Vale das Sombras
Original:Valley of Shadows
Ano:2017•País:Noruega
Direção:Jonas Matzow Gulbrandsen
Roteiro:Jonas Matzow Gulbrandsen, Clement Tuffreau
Produção:Alan R. Milligan
Elenco:Adam Ekeli, Kathrine Fagerland, Jone Hope Larsen, Lennard Salamon

“As pessoas temem o que elas não entendem.”

Desde a publicação de um artigo no The Guardian com a indicação da expressão “pós-horror” como a definição de um novo estilo cinematográfico, no dia 6 de julho, muito se tem discutido sobre a necessidade ou não de criação de rótulos e subgêneros. Enquanto uma parte defende o estilo narrativo mais cadenciado, sem os jumpscares que se tornou tendência, uma outra acredita que não se trata de algo novo, mas já trabalhado à exaustão pelo gênero por toda a sua trajetória com passagem intensa no Expressionismo Alemão. Filmes como A Bruxa, O Babadook, Boa Noite, Mamãe, Ao Cair da Noite e A Ghost Story – e até a terceira temporada de Twin Peaks (!!) – são exemplos que perturbam e despertam calafrios mais do que promovem saltos na cadeira do cinema. Dentro dessa linguagem, seja nova ou não, pode-se incluir o norueguês O Vale das Sombras, o debut de Jonas Matzow Gulbrandsen, em cartaz na 41ª Mostra Internacional de Cinema de SP.

Com uma passagem amplamente comentada no Festival de Toronto, em 8 de setembro, o filme estreou oficialmente na sua terra natal em 20 de outubro e deve se espalhar oficialmente pelos cinemas mundiais nos próximos meses e no ano que vem. Trata-se de um “pós-horror” com lobisomem, um conto com referências à cultura gótica escandinava, com exploração de ambientes tétricos e uma sensação incômoda de insegurança constante. Lembra até um dos segmentos da antologia A Companhia dos Lobos, de 1984, de Neil Jordan, e a história infantil “Pedro e o Lobo“, pela visão ingênua diante de um mal maior. Como os exemplares já mencionados nesse estilo, O Vale das Sombras não agradará a todos os gostos, pelas sutilezas e falta de ousadia, mas é um trabalho de estreia excelente, com fotografia, ambientação e atmosfera impecáveis.

O garoto de seis anos Aslak (Adam Ekeli) mora com a mãe Astrid (Kathrine Fagerland) em um pequeno vilarejo norueguês, onde ovelhas estão sendo devoradas. Enquanto acompanha com olhar e poucas palavras a tristeza dela na busca por uma pessoa desaparecida da família, ele é convencido pelo amigo mais velho, Lasse (Lennard Salamon), de que se trata de um lobisomem, que vive do outro lado da montanha, atrás de uma floresta densa e escura, aguardando apenas a próxima Lua Cheia. Ele encontra uma semelhança com uma imagem literária, e fica intrigado sobre o local indicado, embora não tenha a coragem necessária para se aventurar no ambiente. Aslak observa a movimentação dos adultos, que planejam envenenar a criatura assassina, mas só decide adentrar pela zona perigosa quando seu cachorro, um border collie de nome Rapp, desaparece no lugar.

Temendo que o monstro possa devorar seu animal de estimação, ele invade o “vale das sombras” em buscas de respostas. Assim, o espectador acompanha toda essa jornada por uma floresta de árvores muito próximas, onde não há quase iluminação, e tomadas por uma forte neblina. A fotografia de Marius Matzow Gulbrandsen mistura o belo com o enigmático, a solidão com o medo, em proporções bem adequadas para a proposta, com a câmera movimentando-se lentamente como uma testemunha da exploração inocente. Nessa jornada sombria, Aslak encontrará um outro personagem, que irá se responsabilizar pelos arrepios discretos e perturbadores.

Remetendo ao clima sueco de Deixa Ela Entrar (2008) até mesmo na caracterização do garoto, como o calado Oskar (Kåre Hedebrant), O Vale das Sombras merece a sua visita por ter a força em seus aspectos técnicos e no texto dramático de Gulbrandsen e Clement Tuffreau, sem que o salto na cadeira seja necessário para justificar sua concepção assustadora.

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6 Comentários

  1. “pós-horror”

  2. Fabio Alex

    Esse termo Pós-terror é ridículo não só por “…não ser algo novo…”, mas por reforçar a visão preconceituosa que muitos tem sobre o gênero horror.

    • Concordo. Mas, infelizmente o termo veio para ficar, assim como “torture porn” e “found footage”.

      Abs

      • Fabio Alex

        Só se for para quem resolveu acolhê-lo

    • Ariel

      Daqui a pouco inventam também um pós-humor, não duvido não.

    • Rommel C.A.

      Vi isso no primeiro site que apareceu no google quando fui pesquisar o termo:
      ” e também confundindo o público, por não fazerem uso dos clichês e bobagens geralmente associados aos filmes de terror.”
      Bem o que Fabio disse.

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