Críticas

As Boas Maneiras (2017)

Uma fábula moderna, que dialoga tanto com o horror quanto com o preconceito, auxiliada por um elenco que sabe traduzir nas emoções a proporção entre solidão e rejeição

As Boas Maneiras
Original:As Boas Maneiras
Ano:2017•País:Brasil
Direção:Marco Dutra, Juliana Rojas
Roteiro:Marco Dutra, Juliana Rojas
Produção:Frédéric Corvez, Clément Duboin, Sara Silveira
Elenco:Isabél Zuaa, Marjorie Estiano, Miguel Lobo, Cida Moreira, Andréa Marquee, Felipe Kenji, Nina Medeiros, Neusa Velasco

Filme de terror brasileiro vence o Festival do Rio“. Não é a maneira mais adequada de inferir o novo trabalho de Marco Dutra e Juliana Rojas (ambos do excelente Trabalhar Cansa), apontando-o simplesmente como parte de um único gênero. Ele é bem mais do que um “filme de terror” ou “filme de lobisomem” em sua mescla de estilos e subgêneros, ainda que tenha elementos fantásticos e algumas consideráveis doses de sangue. Além de conquistar a “Première Brasil“, incluindo “Melhor Atriz Coadjuvante” para Marjorie Estiano e “Melhor Fotografia” (Rui Poças), o longa ainda levou o “Prêmio da Crítica Fipresci” e o “Prêmio Felix” no Festival do Rio. Já havia abocanhado menções especiais no Austin Fantastic Fest e do Biarritz International Festival of Latin American Cinema; “Prêmio da Audiência” em L’Etrange Festival; e “Prêmio Especial do Júri” no Locarno International Film Festival. Para passos tão largos, é sinal que a Lua Cheia devia estar reluzente no céu brasileiro.

E está, sim, na belíssima fotografia noturna, que retrata uma São Paulo mítica e mágica, intensificando seu brilho e tamanho nas diferenças sociais e nas relações humanas. Dutra e Rojas criam uma fábula moderna, que dialoga tanto com o horror quanto com o preconceito, auxiliada por um elenco que sabe traduzir nas emoções a proporção entre solidão e rejeição. Numa leitura rasa, trata-se de uma produção de gênero, dividida em dois segmentos quase distintos, numa história envolvendo o mito do lobisomem com bastante ousadia – e isso já o tornaria um bom filme.

Clara (Isabél Zuaa) vai a uma entrevista de emprego como babá em um prédio de luxo. A contratante, a grávida Ana (Marjorie Estiano), não se empolga com a falta de experiência da interessada, muito menos com a sua inexpressividade, mas resolve aceitá-la para o ofício ao se sentir mal e ser acalmada durante o encontro. Ela precisa de alguém que more na residência e possa cuidar dela e do bebê que chegará, mas acaba ampliando as funções colocando-a também como empregada doméstica – o que fez alguns críticos relacionar essa proposta maior pelo fato dela ser negra. Clara, que até então morava de aluguel para uma senhora tecladista e cantora, Dona Amélia (Cida Moreira), em companhia do gato Teobaldo, muda-se para a grande morada e, aos poucos, vai exercendo corretamente o trabalho, estranhando apenas algumas ações extravagantes de sua chefe.

Apesar do luxo aparente, Ana, que veio fugida do interior contra os desejos do pai que queria que abortasse, está em decadência financeira, mas mantém o bom humor constante em aulas de dança e bebedeira, diante da falsa lareira. Além disso, ela sofre constantes dores no abdômen, por conta do tamanho do bebê em seu ventre, e, durante a Lua Cheia, tem sintomas de sonambulismo e terrores noturnos. Clara a presencia comendo carne crua, com os olhos amarelos, e ainda é arranhada no ombro, numa dessas crises da madrugada. Ao contar a história do pai da criança – num belíssimo recurso de desenho e narrativa -, Clara começa a ter certeza de que se trata de algo fora do comum, principalmente após uma caminhada pelas ruas ao encontro de um gato perdido.

Os homens são apenas vozes e desenhos nesse universo feminino de descobertas e crescimento, na primeira e superior etapa. Com o afeto crescente como a Lua, uma nova fase se inicia com o nascimento do bebê Joel, produzido de maneira convincente e impressionante, na melhor e mais gráfica cena do filme. Clara se embrenha na selva paulistana em busca de abrigo, com a cantoria poética da moradora de rua (Naloana Lima) narrando e intensificando o momento incrível. A partir daí, um novo filme começa, sete anos após os acontecimentos anteriores, partindo para um enredo trivial, com algumas referências sutis à inclusão social.

A introspectiva Clara ganha mais personalidade e força, sem a ingenuidade da primeira etapa. Isabél Zuaa continua explorando toda a sua competência dramática, desta vez no papel de mãe protetora, embora algumas atitudes de sua personagem não transmitam adequadamente a veracidade dos acontecimentos como a reação diante do desaparecimento de seu filho. Assim, como também esteve distante de convencer o espectador o uso de efeitos digitais na concepção da criatura, sendo que a sutileza do começo acabou sendo trocada pela vontade de mostrar mais do que devia.

Mesmo com essa diferença evidente de qualidade entre as partes, As Boas Maneiras merece todo o reconhecimento do público e os prêmios conquistados. Provavelmente, adquirirá ainda mais notoriedade e boas avaliações até a estreia brasileira.

Leia também:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *