Críticas

Piranhas 2 – Assassinas Voadoras (1981)

Se você gosta de ver tralhas do gênero fechando um olho para a ruindade, Piranha 2 é, definitivamente, o seu filme

Piranha 2 - Assassinas Voadoras
Original:Piranha Part Two: The Spawning
Ano:1981•País:EUA, Itália, Holanda
Direção:James Cameron, Ovidio G. Assonitis, Miller Drake
Roteiro:James Cameron, Ovidio G. Assonitis, Charles H. Eglee
Produção:Jeff Schechtman, Hisako Tsukuba
Elenco:Tricia O'Neil, Steve Marachuk, Lance Henriksen, Ricky Paull Goldin, Carole Davis, Connie Lynn Hadden, Tracey Berg

Um peixe que voa? E respira fora da água? E ataca direto a jugular das suas pobres vítimas, que são devoradas num estalar de dedos? Acredite se quiser, mas a resposta para estas três perguntas é “sim” no inacreditável Piranha 2 – Assassinas Voadoras, uma produção italiana lançada em 1981, e que não funciona nem como suposta continuação do ótimo filme B Piranha, de Joe Dante, lançado em 1978, nem como filme independente. O mais atrativo desta tralha é constatar que o diretor é ninguém menos que o hoje “todo poderosoJames Cameron. Sim, aquele mesmo da série O Exterminador do Futuro e do blockbuster Titanic. Que jeito de começar a carreira, não???

Piranha 2 é o primeiro filme de Cameron. Bem, para ser justo, ele já tinha dirigido, em 1978, um curta-metragem de fantasia que ninguém viu, chamado Xenogenesis. Depois, em busca de aprendizado cinematográfico, Cameron saiu buscando emprego em produtoras independentes. Foi assim que envolveu-se, por exemplo, com o mestre dos filmes baratos Roger Corman, atuando nos efeitos visuais de um filmeco chamado Mercenários da Galáxia (em 1980). Daí foi um pulo para envolver-se na equipe de Galáxia do Terror (também produzido por Corman, em 1981) e até nos efeitos visuais de Fuga de Nova York, de John Carpenter (1981). E foi neste mesmo ano (1981) que ele foi o cara contratado pelo produtor italiano Ovidio G. Assonitis para comandar Piranha 2, desta vez ocupando a cadeira de diretor.

Natural do Egito, Assonitis já tinha dirigido, ele próprio, alguns filmes de monstro muito ruins nos Estados Unidos, porém com elencos grandiosos. É o caso de Tentáculos (Tentaculi), sobre um polvo assassino, lançado em 1977 e com nomes como John Huston, Shelley Winters e Henry Fonda no elenco. Ele também dirigiu uma cópia bagaço de O Exorcista, chamada Espírito Maligno (Beyond the Door), em 1974. Então surgiu este roteirista chamado H. A. Milton (com este único crédito cinematográfico, o que é até compreensível) trazendo debaixo do braço um roteiro inacreditável sobre piranhas voadoras!!! Vê se tem cabimento! Porém, sem pensar duas vezes, o produtor Assonitis contratou este pobre diretor americano chamado James Cameron e mandou-o até a Jamaica para torrar uma fortuna (hahahaha, até parece!) em Piranha 2

O filme já começa extraordinário (no mau sentido). Um casal de mergulhadores visita os destroços de um navio do Exército americano afundado perto de um grande hotel de turistas, quando, sem mais nem menos, a garota tira o biquíni e salta em cima do homem, cortando seu calção com uma faca (vê se pode). A dupla então começa a transar debaixo d’água, inclusive tirando as máscaras e o tubo de oxigênio que permitia que respirassem, para não “atrapalhar” o lance!!! Quem sabe, era um casal de suicidas que queria morrer dando uma última transadinha. Porém, neste caso, nem precisaram esperar a morte por afogamento: mais rápido que você possa dizer “assassinas voadoras“, um cardume de piranhas, que só aparece de relance, surge do nada e ataca o casal fornicador, devorando-o impiedosamente.

Entram os créditos sobre um fundo azul com manchas vermelhas (não entendeu que eles quiseram representar o sangue na água do oceano, ô mané?). E o que surpreende, além da trilha sonora até bem feita (de Stelvio Cipriani, usando o pseudônimo “Steve Powder“), é a quantidade de nomes talentosos envolvidos numa barca furada dessas, como Lance Henriksen (que a partir de então passaria a trabalhar em praticamente todos os filmes de James Cameron, menos os mais recentes) e o maquiador italiano Gianetto de Rossi, parceria do cineasta Lucio Fulci. Ele é um dos culpados pelas horríveis piranhas com asas que veremos no momento mais hilariante do filme!!!

A história se passa no Caribe (hahahaha), na praia de Saint Anns, onde o hotel Clube Elysium está repleto de turistas louquinhos para participar da tradicional “Noite do Peixe Frito“. Trata-se de um fenômeno que acontece uma vez por ano, na desova dos peixes-rei – eles nadam até a margem do mar para desovar e podem ser rapidamente agarrados pelos hóspedes, que então fritam os peixes na madrugada para comer. Bonito, não? É por causa disso que o subtítulo original do filme, que aparece nos créditos iniciais, é The Spawning (“A Desova“). Porém, misteriosamente, nos créditos finais o subtítulo é outro: Flying Killers (“Assassinas Voadoras“), mostrando que a equipe era tão incompetente que não conseguiu chegar nem a uma conclusão sobre o nome do filme!!!

Mas voltemos à trama. O hotel está repleto de gente louca para transar, inclusive umas velhas assanhadas que tentam agarrar os salva-vidas garotões. Neste momento, somos brindados com diálogos brilhantes, como: “Sabe do que meu marido morreu? De tesão!“, e outras maravilhas que nos fazem compreender o porquê do roteirista Milton nunca mais ter conseguido emprego. Mas em meio aos hóspedes com hormônios em ebulição também existe uma professora americana de mergulho que é um tanto casta e pura, Anne Kimbrough (Tricia O’Neil, que Cameron depois colocou numa ponta em Titanic), e seu filho adolescente, Chris (Ricky Paul Goldin, que acabou no remake de A Bolha Assassina e em… oh meu Deus, Lambada – O Filme!!!). Anne é divorciada e seu ex-marido é o policial que controla a região, Steve (Lance Henriksen, pagando mico, ainda de cabelo comprido).

Entre coroas que procuram médicos para flertar, gatinhas que passeiam de barco completamente nuas e um rapaz que usa dinamite para pescar (hahahaha), o hotel também tem a ilustre presença do misterioso Tyler Sherman (Steve Marachuk, que sumiu do mapa cinematográfico em 1985). Ele tenta seduzir a professora de mergulho. Durante um passeio no fundo do mar, coincidentemente nas proximidades do tal navio afundado onde o casal foi devorado no início, um dos alunos de Anne também é atacado pelas piranhas, sendo encontrado pela professora parcialmente devorado. O corpo é então levado ao necrotério. Numa daquelas coisas que só acontecem em filmes, Anne e Tyler invadem o necrotério à noite para examinar o cadáver, tentando descobrir que tipo de animal fez aquilo. Na mesma noite, uma funcionária do local é atacada por uma piranha voadora que sai da barriga do corpo carcomido (é ver pra crer)!!!

Desconfiando que algo de estranho está acontecendo, ainda mais ao descobrir que um documento de Anne foi esquecido no necrotério, o policial Steve coloca a ex-esposa contra a parede. Mas, a estas alturas, ela já está fazendo “contatos imediatos de terceiro grau” com Tyler – que, logo descobrimos, é um bioquímico responsável pelo projeto secreto do Exército que criou as piranhas voadoras. Tyler explica a Anne que ovos da piranha voadora afundaram junto com o navio e se desenvolveram no mar da região. Só não explica quem é que teve a ideia de jerico de usar piranhas com asas como arma de guerra. Quer dizer, como é que o meigo peixinho iria identificar inimigos e aliados em meio a um confronto, por exemplo? Talvez tenham sido os mesmos coiós que desenvolveram as cobras gigantes da série Python, também como arma de guerra… Eles nunca aprendem a não brincar com a natureza.

Sabendo do segredo das piranhas voadoras, Anne tenta convencer o gerente do hotel, Raul (Ted Richert), a suspender a famosa “Noite do Peixe Frito“. Mas como todo homem de negócios ambicioso de filmes do gênero (ora, todos já vimos Piranha 1 e Tubarão, certo???), Raul se recusa a cancelar o evento e ainda demite Anne. A professorinha terá outras preocupações em breve: seu filho está em alto-mar com uma gatinha que conheceu na noite anterior (Leslie Graves, que morreu de Aids em 1989), e pode vir a se tornar a nova vítima das “piranhas-passarinho“. O clímax desta tralha é na tal “Noite do Peixe Frito“, quando, num momento irônico do roteiro, a cadeia alimentar se inverte e os turistas tarados, ávidos por comer peixe, se transformam eles próprios na refeição, sendo devorados pelas horríveis piranhas com asas, que fazem o espectador se mijar de rir toda vez que aparecem em cena – ainda mais pelo barulho que emitem, lembrando mais morcegos que piranhas voadoras!

Piranha 2 – Assassinas Voadoras foi lançado em vídeo no final dos anos 90, com a distribuidora assumindo a ruindade da obra, sem vergonha na cara. A capinha dizia, em letras garrafais: “TRASH MOVIE: UM DOS PIORES FILMES JÁ FEITOS“. Ironicamente, quando esta produção era exibida na TV (pela Globo e depois pelo SBT), os comerciais anunciavam como filme sério!!! E recentemente ele foi relançado em DVD novamente como se fosse uma produção séria. Até foi realizada com este intuito lá atrás em 1981, mas é simplesmente impossível de levar a sério – na linha “tão ruim que fica bom“. O pior é que o Piranha original era um excelente filme de suspense (cuja história é citada de leve nesta sequência).

São 84 minutos de extrema pobreza e falta de criatividade cinematográfica. Vendo “isso“, ninguém jamais imaginaria que James Cameron depois se sairia com filmes extremamente criativos como O Exterminador do Futuro e Aliens, O Resgate. Porém, ele nem é o maior culpado pelo desastre. O próprio Cameron disse, numa entrevista recente, que foi afastado das filmagens pelo produtor Assonitis depois de duas semanas de filmagens. Isso porque o produtor não estaria gostando da forma como Cameron estava realizando o trabalho – talvez com um “toque pessoal“. Resultado: Assonitis demitiu Cameron e assumiu ele mesmo as filmagens, certamente sendo o responsável por bobagens como as gostosas de topless e a impagável cena do “sexo aquático“!!! Cameron até teria tentado fazer sua própria edição do filme, mas foi impedido pelos produtores. Que, porém, mantiveram seu nome nos créditos – talvez cientes da bomba que tinham nas mãos.

Com tantos erros e problemas, além da infeliz ideia de colocar piranhas voadoras na trama, Piranha 2 bem que poderia ser um engraçadíssimo trash movie. Infelizmente, em apenas 84 minutos de duração, são muitos os tempos mortos, com longas cenas onde nada acontece além de diálogos ridículos e gente feia desfilando de biquíni. E a história ainda termina da forma mais moralista possível, com as piranhas devorando Tyler (afinal, foi ele quem as criou, e teria que levar o merecido castigo, não é mesmo?), resolvendo assim o impasse conjugal entre Anne e Steve, que voltam a ficar juntos como dois pombinhos apaixonados. Ou seja, piranhas resolvendo problemas de casal, devorando uma das pontas do triângulo amoroso. Que tal? Não parece um filme que PRECISA ser visto???

Se você gosta de ver tralhas do gênero fechando um olho para a ruindade, Piranha 2 é, definitivamente, o seu filme. Mas prepare-se para acionar a tecla fast-foward para poupar seu cérebro de uma boa dose de abobrinhas. Iniciados em porcarias do gênero, como eu, ainda assim devem achar um programa divertidíssimo – ainda mais se visto numa turma de amigos. Experimente… E na próxima vez que assistir um blockbuster multimilionário de James Cameron, tente visualizar a imagem do diretor filmando Piranha 2 com uma equipe italiana, usando uma merreca de orçamento. Aliás: será que foi esta porcaria que despertou em Cameron a paixão de filmar no mar, como ele fez depois em O Segredo do Abismo e Titanic, já com orçamentos beeeeeem maiores??? Desta vez, porém, sem piranhas voadoras.

Leia também:

4 Comentários

  1. Vanessa Vasconcelos

    Clássico do trash, adoro

  2. Leo

    Ótima crítica !! Super bem humorada e com várias curiosidades sobre a produção e o elenco.

  3. Fahrenheit32

    Apenas um adendo, Mercenários das Galáxias, não bem um filmeco, mas uma versão espacial de Os Sete Samurais.

  4. MORCEGO

    PIRANHA 2 é um puta filme!
    É super legal! Adoro esse filme!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *