Críticas

Jigsaw: O Homem por trás dos Jogos Mortais

Ou “Porque John Kramer é o melhor vilão do cinema de horror moderno”

Tudo começou com dois homens algemados pelo tornozelo dentro de um banheiro abandonado e um gravador cuja fita continha a seguinte mensagem: “I want to play a game…“. Nascia, no ano de 2004, um dos mais perenes e resistentes vilões do moderno cinema de horror, o JigSaw (palavra em inglês para “quebra-cabeça“) de Jogos Mortais. O primeiro filme era uma pequena pérola de baixo orçamento produzida pelos amigos e diretores-roteiristas de primeira viagem James Wan e Leigh Whannell. Como normalmente acontece no mundo do cinema independente, Jogos Mortais era uma história única e redondinha, surpreendente, com uma reviravolta final de tirar o chapéu e nenhuma possibilidade de dar margem a continuações. Isso, claro, até que o filme fez um estrondoso sucesso de público e crítica, dando origem a uma legião de fãs que imploravam pela volta de JigSaw. E a Lionsgate, que recebeu o primeiro filme de braços abertos, não se fez de rogada, iniciando uma série atualmente interminável que consegue gerar uma sequência por ano, mais ou menos como acontecia com as franquias Sexta-feira 13 e A Hora do Pesadelo nos áureos tempos.

No filme original, vale destacar, JigSaw era uma figura quase mítica, meio sobrenatural até, de quem todos os personagens falavam o tempo todo. Entretanto, o espectador não via o “vilão” até a cena final, e ficava sem saber quais eram exatamente as suas motivações. A única coisa que ficava bem clara no primeiro Jogos Mortais era o fato de JigSaw ser uma espécie de Dr. Phibes do século 21. Phibes, para quem não sabe, foi um antológico personagem interpretado por Vincent Price em dois filmes produzidos nos anos 70. Pois JigSaw e o Dr. Phibes têm em comum o gosto por armadilhas elaboradas, exageradas, quase absurdas na maior parte do tempo. Mas enquanto Phibes era um cientista doido que matava os médicos que não conseguiram salvar a vida de sua esposa, JigSaw não é um assassino no sentido literal do termo. A bem da verdade, nem no primeiro filme e nem nas demais continuações o personagem aparece realmente MATANDO alguém.

O que JigSaw propõe, e aí está a inteligência do conceito todo desde o filme original, é um “jogo mortal” com as suas vítimas: mais ou menos como o John Doe interpretado por Kevin Spacey no já clássico Seven, de David Fincher, JigSaw coloca pessoas aparentemente comuns em situações-limite, onde elas serão testadas de maneira violenta, mas com alguma chance (ainda que pequena) de escaparem da morte quase certa. Para conseguir escapar, entretanto, elas precisarão fazer algum sacrifício, geralmente ligado à auto-mutilação.

A pergunta que fica: você furaria os próprios olhos, serraria o próprio pé ou esfaquearia um completo desconhecido para salvar a sua vida? Bem, não sei como eu mesmo agiria num “jogo mortal“, mas acredito que o desejo de sobrevivência sempre é mais forte do que a lógica e do que as leis de uma sociedade civilizada. Além disso, os “jogos mortais” de JigSaw têm como objetivo “ensinar uma lição de vida” às suas vítimas, castigando-as pelos erros cometidos e forçando-as a valorizar muito mais a sua própria vida – e você também não iria valorizar a sua se tivesse que decepar o próprio braço para não morrer de maneira terrível?

JigSaw, conforme a conclusão de Jogos Mortais e suas sucessivas continuações nos explicaram, era um doente terminal chamado John Kramer (interpretado pelo até então desconhecido Tobin Bell, o único ator a participar de todos os filmes da série). Bem-sucedido e bem-casado, o arquiteto de sucesso aguardava a chegada do primeiro filho, mas descobriu que iria morrer em breve devido a um tumor maligno no cérebro. Imagine agora a tristeza de querer imensamente viver estando irremediavelmente condenado à morte. E, ao mesmo tempo, enxergar ao seu redor incontáveis pessoas que não dão o menor sentido ou valor à própria existência, como viciados em drogas, pervertidos, policiais corruptos, criminosos…

Aí é que está o “sentido” do trabalho do vilão: punir estas pessoas para que elas percebam o valor de viver. É ou não é um personagem muito mais rico do que os Jasons e Freddys?

Bem, amiguinhos, este artigo é uma espécie de “walkthrough“, um resumão sobre o que vimos da franquia Jogos Mortais até o sexto filme (N.E. Texto originalmente publicado antes do lançamento do sétimo filme), escrito principalmente com a finalidade de atualizar os marinheiros de primeira viagem (principalmente depois que percebi quanta gente ficou perdida com as reviravoltas e idas e vindas no tempo dos Jogos Mortais, Partes 4 a 6).

Minha primeira intenção era fazer um dossiê nos moldes dos que fiz para outras cinesséries, mas não iria funcionar porque a franquia ainda está em permanente expansão. E também porque já existem artigos sobre os seis filmes aqui na Boca do Inferno – dois meus, sobre os dois primeiros, e outros quatro do Gabriel Paixão, cobrindo a franquia daí em diante.

Assim, preferi ficar no resumão, cujo objetivo principal é dar um sentido à série toda, analisando-a como se fosse um único filme com quase 12 horas de duração. Bem, infelizmente não tem como fazer isso sem soltar SPOILERS. Portanto, caso você não tenha visto algum dos filmes, é bom parar de ler AGORA!

Ainda aqui? Então vamos em frente:

Jogos Mortais, o original, é aquele sonho de todo realizador independente tentando “fazer nome” em Hollywood: custou a mixaria de 1,2 milhão de dólares e faturou mais de 102 milhões nos cinemas do mundo inteiro (fora as vendas de DVDs). Não se perca nas contas: o filme faturou mais de 100 vezes o que custou!!! Apareceu meio do nada e virou febre, com tantos fãs apaixonados quanto detratores (que não engoliram a tal reviravolta final e criticaram a obra só por isso). Quando a Lionsgate colocou suas mãos na pequena produção, percebeu que aquilo era uma mina de ouro e deu sinal verde para que fosse filmada a primeira sequência em tempo recorde, para lançamento já no ano seguinte, 2005.

E foi assim que os fãs de horror da nova geração começaram a se acostumar a ter um Jogos Mortais por ano, com estreia sempre no Halloween (pelo menos nos EUA), e filmes que sempre trazem novas armadilhas criativas, além de cartazes envolvendo alguma mutilação corporal (que geralmente acabam censurados e alterados) e filmagens feitas às pressas para manter o compromisso anual.

Surpreendentemente, apesar de os filmes estarem sendo produzidos na corrida, a qualidade tem se mantido constante. Eu adoraria dizer que Jogos Mortais é um caça-níqueis, mas não é: os filmes costumam trazer surpresas e histórias razoavelmente diferentes dos anteriores, ao contrário, por exemplo, das já citadas séries Sexta-feira 13 e A Hora do Pesadelo, cujas sequências eram sempre iguais.

E as cifras só foram aumentando: Jogos Mortais 2, de 2005, custou 4 milhões e arrecadou 147 milhões de dólares de bilheteria; Jogos Mortais 3, de 2006, foi filmado com 10 milhões e faturou 164 milhões de dólares nos cinemas; Jogos Mortais 4, lançado em 2007, feito com o mesmo orçamento do terceiro, rendeu 139 milhões de dólares no mundo inteiro; e Jogos Mortais 5, de 2008, novamente custou a média de 10 milhões e, embora não existam dados precisos da bilheteria mundial, faturou 57 milhões só nos cinemas americanos. Só o Jogos Mortais 6 começou mal das pernas, com uma bilheteria fraquinha na semana de abertura (perdendo para um “estreante“, o terror independente Atividade Paranormal), o que pode ser um sinal de que a franquia já cansou. Seja como for, analise estes números todos. É ou não é uma verdadeira mina de ouro?

Mas o mais incrível em relação à série Jogos Mortais é como os produtores responsáveis pela interminável franquia têm conseguido manter um surpreendente padrão de qualidade, muito diferente da decadência de outras séries igualmente intermináveis (tipo Hellraiser ou A Colheita Maldita). Este “padrão de qualidade” é garantido principalmente pela participação direta dos pais da criança (James Wan e Leigh Whannell) no desenvolvimento das sequências, seja como roteiristas, seja como produtores-executivos.

Quem é dos anos 80 certamente lembra que cada novo Sexta-feira 13 ou A Hora do Pesadelo eram sequências bisonhas, o legítimo “mais do mesmo“, onde tudo que os estúdios conseguiam entregar era aquela farofa pronta, mais uma rodada de mortes violentas e de efeitos especiais, mas sem mexer muito na “fórmula“. Aconteceu a mesma coisa com a franquia Pânico (apesar de todo bafafá dos fãs e das intragáveis “identidades-surpresa” do assassino de cada filme, era puro “mais do mesmo” com roupagem pop e embalagem moderninha) e com a série Premonição (onde muda o acidente envolvendo os personagens no início e mais nada).

Com Jogos Mortais não é assim. Aliás, é admirável como os caras conseguem escrever roteiros tão complexos e autorreferenciais tendo tão pouco tempo à disposição (lembre-se que mal estreia um filme da série e eles já estão pensando no outro, tendo menos de um ano para fazer tudo, do roteiro às filmagens!). Desde Jogos Mortais 2, há uma preocupação em manter o espírito de história interligada, resgatando personagens do capítulo anterior (não raras vezes matando-os violentamente, só para mostrar que todo mundo é dispensável) e jogando um pouco mais de luz sobre o próprio vilão, JigSaw. Quais são as suas motivações? Por que ele se tornou o que é?

Seria muito cômodo lançar algo tipo Jogos Mortais – O Início, contando toda a historinha triste do vilão para tentar transformá-lo em herói (como fizeram recentemente com Hannibal Lecter, Leatherface e até Michael Myers). Mas os roteiristas de Jogos Mortais preferem jogar flashes do passado de JigSaw aos poucos em cada continuação, de maneira que lentamente descobrimos um pouco mais sobre ele – com a perdão do trocadilho, é como se estivéssemos realmente montando um quebra-cabeça.

Foi somente através destes flashbacks lançados a conta-gotas nos últimos filmes que descobrimos mais sobre o passado de JigSaw, inclusive o fato de sua esposa ter perdido o filho graças à agressão de um marginal (detalhe que eu achei exagerado, mas vá lá, depois que inventaram que o Hannibal Lecter teve que comer, literalmente, a própria irmã quando jovem…). O que importa, entretanto, é que o personagem JigSaw continua em expansão.

Eu até confesso que não gostei muito de Jogos Mortais 3, por causa dos protagonistas nada simpáticos e de alguns absurdos em relação às mortes. Mas então surgiu JigSaw e minha simpatia pela série só aumentou: quem diria que os roteiristas conseguiriam contornar o “pequeno problema” da morte de JigSaw no final da Parte 3 e ainda assim conceber uma história com novidades? Já as novas partes 5 e 6 são um tanto irregulares, mas ainda assim conseguem manter a atenção do espectador. E isso é incrível quando lembramos que JigSaw morreu e por isso não participa ativamente de nenhuma das três últimas sequências (somente através dos flashbacks), nem “voltou do túmulo” como outros vilões de franquias do horror.

E este, talvez, seja o grande charme da série: o espectador nunca sabe o que esperar de um novo Jogos Mortais – além, é claro, da violência explícita e das “mortes criativas“.

Enquanto outras sequências de franquias de sucesso são tão prosaicas quanto ligar os pontos (o vilão ressuscita, mata todos os figurantes e é novamente destruído no final, somente para voltar no ano que vem), há uma preocupação de que cada episódio dos Jogos Mortais traga elementos que não só divirtam os espectadores e fãs da série (a violência exagerada, as armadilhas criativas…), mas também tentem surpreendê-los. E o mais incrível é que eles sempre conseguem. Ou quase sempre!

Evidente que o nível de surpresa foi ficando mais simples à medida que o espectador já ESPERA ser surpreendido na conclusão. Mas poucas coisas podem ser tão maravilhosamente inesperadas quanto aquele “cadáver” levantando, vivo, no final do primeiro filme. Os roteiristas tiveram que quebrar a cabeça (sem trocadilho, de novo) nos anos posteriores para conceber reviravoltas tão esdrúxulas quanto inesperadas, e o espectador normalmente acaba de olhos esbugalhados, meio revoltado por ter sido “enganado“, mas ao mesmo tempo curioso para saber o que os produtores irão aprontar no próximo filme, no ano que vem.

Mas é claro que o fato de as histórias estarem bastante interligadas acaba confundindo os espectadores desatentos, e mais ainda os marinheiros de primeira viagem. Veja o caso de Jogos Mortais 4: ele cita abertamente personagens de todos os filmes anteriores, inclusive resgatando OS MESMOS atores. Que outra série dos últimos 20 anos você viu com tamanho respeito pela própria cronologia e mitologia? Sexta-feira 13 certamente não, e muito menos Halloween (que teve arcos inteiros de histórias, como o da sobrinha de Michael Myers ou o da maldição druida, descartados sem o menor pudor nas sequências). E o que dizer da franquia O Massacre da Serra Elétrica (a original), em que Leatherface tinha uma família diferente a cada filme?

É este cuidado com uma trama cronologicamente verossímil que me faz ver a franquia Jogos Mortais como a única série fantástica moderna onde os capítulos realmente estão conectados; ou seja, uma continuação realmente CONTINUA a outra. O outro exemplo de franquia tão perfeitamente coesa que consigo lembrar é a série Fantasma, de Don Coscarelli. Não é pouca coisa…

Como se já não tivesse méritos suficientes, a franquia do JigSaw – que os fãs de horror underground e hardcore adoram chutar e taxar pejorativamente de “terror teen” – tem ainda o mérito de apresentar o exploitation para a geração shopping center. Fale a verdade: você algum dia imaginaria ver um filme como Cannibal Holocaust num cinema multiplex de shopping center, depois de sair do McDonalds, e com um baldão de pipoca nas mãos? Isso provavelmente jamais iria acontecer, mas está aí a série Jogos Mortais apresentando, nos luxuosos cinemas de shopping, o melhor do horror exploitation censura 18 anos – só falta um pouco de mulher pelada, mas ninguém é perfeito.Já pensou a coragem que tem o estúdio de investir numa faixa de público tão limitada, ainda mais sabendo que lá nos EUA eles adoram cortar a violência dos filmes justamente para conseguir um PG-13 e faturar dobrado na bilheteria?

E enquanto os undergrounds ficam achincalhando o pobre JigSaw, lá está ele marcando presença nos cinemas, levando para a telona cenas escabrosas de cirurgia cerebral, necropsia, mutilações diversas, escalpelamento, membros decepados, fraturas expostas e outras barbaridades, com um pé ainda na escatologia (as carcaças apodrecidas de porcos sendo trituradas e despejadas sobre uma vítima em Jogos Mortais 3, por exemplo). Feliz dessa geração teen, que pode crescer vendo filmes extremamente sérios e sangrentos como Jogos Mortais, ao invés das bobagens do Freddy e do Jason que eu tinha que engolir na minha época de adolescente…

Ainda não está convencido? Ora, meu amigo, então esqueça. Pare de ler este artigo e pare também de se preocupar com JigSaw e seus Jogos Mortais, boicote seus filmes, humilhe os que curtem a série, diga que o quente mesmo é ver cinema italiano dos anos 80 ou filmes turcos de mil-novecentos-e-lá-vai-pedrada. Até porque quem não gostou dos primeiros dificilmente irá gostar desses últimos, que não passam de flashbacks dos três primeiros filmes. Porém não pense que tão cedo estará livre do mais novo astro da galeria de vilões do cinema de horror contemporâneo, provavelmente o mais importante dos vilões do horror moderno. Pois, como uma versão hardcore do Dr. Phibes, JigSaw, mesmo morto e enterrado, ainda tem muito que aprontar.

Por isso, que venham mais Jogos Mortais até onde a série tiver fôlego para ir (embora esta sexta parte já comece a demonstrar sinais de cansaço). A nova geração, creio eu, também merece sua franquia interminável, como a minha teve Sexta-feira 13 e A Hora do Pesadelo. E posso fazer uma confissão? Pois tenho inveja da geração atual, já que JigSaw teria muito a ensinar para o Jason e para o Freddy, bem como os diretores e roteiristas de Jogos Mortais teriam valiosos ensinamentos para os manés que afundaram as franquias destes dois vilões vergonhosamente ultrapassados.

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2 Comentários

  1. Felipe

    Forçou.
    Bastante.

  2. Rudá Frias

    Só consegui gostar até a terceira parte. O quarto filme já comecei a achar bem absurdo e as outras continuações não consegui ver nada demais além de mortes “criativas” e sangrentas. Espero que esse novo filme tenha algo a acrescentar, de fato.

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