Devilman Crybaby (2018)

Devilman Crybaby
Original:Devilman Crybaby
Ano:2018•País:Japão
Direção:Masaaki Yuasa
Roteiro:Ichirō Ōkouchi
Produção:Eunyoung Choi
Elenco:Kōki Uchiyama, Ayumu Murase, Megumi Han, Ami Koshimizu, Junya Hirano, Kenjiro Tsuda, Atsuko Tanaka

Os japoneses nunca brincam quando o assunto é demônios. É raro uma obra oriental utilizar elementos ocultistas e infernais para passar mensagens vazias e Devilman Crybaby não é diferente.

Baseado na mangá consagrado e controverso do artista Go Nagai e sendo uma reinterpretação do anime clássico de 1972, Devilman Crybaby é mais uma produção da Netflix, dessa vez em parceria com a produtora Science SARU.

Em seus dez episódios, acompanhamos a história de Akira, um jovem extremamente sensível, com um grande coração, que chora constantemente ao ver injustiças sendo cometidas com outras pessoas. Negligenciado pelos pais médicos humanitários e criado pela família de Miki, por quem possuí um puro amor, Akira se reencontra de repente com seu amigo de infância Ryo que o convida a um desafio: provar que os demônios existem e são um perigo para o mundo.

É quando os dois vão a uma boate ponto de encontro de demônios que as coisas saem do controle. Um demônio tenta se apossar de Akira, mas o coração poderoso do rapaz impede que sua mente seja controlada, ainda que adquira os poderes e a força dos seres do inferno, criando então um Homem Demônio.

Dividido em praticamente duas partes, o anime pode causar uma estranheza devido primeiramente ao seu visual um pouco sujo e nada harmônico, mas principalmente ao uso de violência extrema e sexo gráfico em doses cavalares.

Seus primeiros episódios mostram Akira e Ryo unindo a força demoníaca do primeiro e a astúcia do segundo para matar demônios que assolam o Japão, mas em seguida somos engolidos por uma trama extremamente complexa. Com um episódio divisor de águas, tudo que nos foi apresentado toma então um novo rumo.

Com uma ousadia pouco vista que parece ter se perdido até mesmo nas animações orientais, Devilman Crybaby toca da forma mais pesada possível em feridas claras da nossa sociedade como o preconceito, racismo, não entendimento de doenças psicológicas e, principalmente, a falta de empatia dos seres humanos uns para com os outros.

Com uma trama fechada, sem aberturas para uma continuação, somos tomados pelo ritmo dos episódios e ficamos chocados com as revelações e respostas dadas ao longo do desenrolar dos acontecimentos, juntos a uma série de eventos do tipo “eu não acredito que isto está acontecendo”.

A riqueza dos personagens também impressiona. Com muitos coadjuvantes e tramas secundárias que uma hora ou outra se encontram com a principal, a verdade é que ninguém está ali a toa. De fato, os arcos paralelos são quase tão atrativos quanto o de Akira e Ryo, com destaque para a jovem Miko, a gangue de rappers e suas dualidades, além de uma dupla de demônios que tem um episódio de destaque só deles.

Os aspectos técnicos também impressionam. Além da animação em si que se adapta rápido aos nossos olhos e é um ótimo estilo para o ritmo apresentado, a trilha sonora composta por Kensuke Ushio é um espetáculo a parte. A própria abertura com seu som eletrônico não dá nenhuma vontade de apertar o botão “pular”.

Em Devilman Crybaby fica a absurda e clara imagem de que a civilidade da nossa sociedade caminha sobre a lâmina de uma navalha. Particularmente, gosto da mistureba de elementos que remetem a clássicos como sua animação original (cujas referências explodem na tela), Akira e A Lenda do Demônio, cujos últimos dois conheci ainda muleque nas madrugadas da Band.

Mesmo entre cenas bestiais de violência e nudez, o anime é certeiro em mexer com nossas emoções e visão de mundo sobre o que é ser bom afinal de contas. E tamanha coragem na forma de nos apresentar isso é sim digna de reconhecimento e simpatia junto a um demônio mais humano que muitos exemplares da espécie que controla este planeta.

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Samuel Bryan

Samuel Bryan

Jornalista, acreano, tão fã de filmes, games, livros e HQs de terror, que se não fosse ateu, teria sérios problemas com o ocultismo. Contato: games@bocadoinferno.com.br

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