Sobrenatural: A Última Chave (2018)

Sobrenatural: A Última Chave
Original:Insidious: The Last Key
Ano:2018•País:EUA, Canadá
Direção:Adam Robitel
Roteiro:Leigh Whannell
Produção:James Wan, Jason Blum
Elenco:Lin Shaye, Leigh Whannell, Angus Sampson, Kirk Acevedo, Caitlin Gerard, Spencer Locke, Josh Stewart, Tessa Ferrer, Aleque Reid

Na entrevista que Jason Blum concedeu ao Boca do Inferno, durante a Comic Con, o produtor da Blumhouse foi questionado sobre o destino da personagem Elise (Lin Shaye), morta na última cena do primeiro Sobrenatural, lançado em 2011. Como a sensitiva participou de todas as sequências, passando a ser um elo na franquia, surgiu a dúvida: não teria sido um erro sua morte, uma vez que fica impossível imaginar um novo filme sem sua presença? O cineasta foi categórico ao dizer que não faz um filme pensando nas continuações, pois assim o tornaria “vazio“. Sim, mas um enredo é feito de escolhas e muitas vezes elas não são as mais adequadas. Se houvesse uma certeza do sucesso da produção, não haveria a necessidade de fazer prelúdios. No entanto, a produtora ainda estava engatinhando na época, tendo se dedicado somente à franquia Atividade Paranormal antes de visitar pela primeira vez The Further, o que justifica seu receio sobre os avanços da mitologia desenvolvida.

E é realmente impossível um contato com assombrações e casas malditas sem a guia do mundo espiritual, Elise Rainier. Além do carisma da personagem, ela é o fio condutor das experiências sobrenaturais, a versão moderna da Tangina (Zelda Rubinstein), de Poltergeist, o Fenômeno, transmitindo seu conhecimento e temor – ela se assusta, como qualquer pessoa, diante do desconhecido – de maneira absoluta. Sempre leva em suas expedições macabras o alívio cômico da dupla, Specs (Leigh Whannell) e Tucker (Angus Sampson), para abrandar o medo e criar um vínculo com o espectador.

O enredo de Sobrenatural: A Última Chave, do próprio Leigh Whannell, não possui quase vínculo algum com os demais filmes. Ele completa lacunas, como disse Lin Shaye ao Boca do Inferno, mostrando o passado de Elise e como ela teve seus primeiros contatos com o Além, subjugada pelas ações temerosas e violentas de seu pai, Gerald (Josh Stewart). Em 1953, enquanto residia no Novo México com sua mãe, Audrey (Tessa Ferrer), e o irmão Christian (Pierce Pope), a pequena Elise, interpretada pela talentosa Ava Kolker, já tinha do que temer. A casa era vizinha a um presídio, onde presos eram constantemente executados – inclusive, pelo próprio pai dela -, sofrendo até mesmo queda de força a cada uso da cadeira elétrica.

Elise já demonstrava seu dom ao saber detalhes sobre a vítima, enfurecendo o pai, descrente e assustado. Dada noite, após receber um contato assustador com uma jovem entidade, Gerald agride a pequena e a tranca no porão escuro, onde ela é atraída por uma porta e desperta um poderoso demônio, culminando numa tragédia de imensa proporções. As ações se voltam ao presente – anterior, é claro, aos acontecimentos dos dois primeiros filmes -, com a sensitiva recebendo um pedido de ajuda de um tal Ted Garza (Kirk Acevedo), residente em sua antiga morada. Relutante em voltar ao local onde seus pesadelos tiveram início, Elise é convencida por Specs e Tucker a não negar ajuda, principalmente se esta for para ela mesma.

Nessa viagem, na apresentação do veículo da dupla, Elise reencontrará não apenas o Mal que construiu seus maiores medos, mas também o irmão, agora interpretado por Bruce Davison, e suas sobrinhas, Imogen (Caitlin Gerard) e Melissa (Spencer Locke). Contudo, muito pior do que qualquer fantasma ou demônio é o ser humano, ainda que sob influências negativas. Assim, além do passeio pelo “outro lado” e o contato com assombrações, Elise terá um problema parecido com o que experimentara no final do primeiro Sobrenatural.

Diferente do que dissera Blum, desta vez há um esforço para criar pontas e continuações. Além da perspectiva de trazer causos de uma Elise criança, há também cenas que remetem à adolescência, quando ela é interpretada por Hana Hayes e enxerga uma presença em sua morada. Ainda existem lacunas em seu passado, possibilidade de explorar toda a sua juventude até mesmo em uma série de TV, ampliando sua experiência e fortalecendo a personagem. E o novo filme ainda promove o surgimento de uma “nova Elise“, alguém que poderia assumir as rédeas em aventuras futuras, continuando a partir do segundo filme.

O público parece interessado realmente em se assustar, vide os números crescentes por produções de horror. Sobrenatural: A Última Chave traz alguns arrepios interessantes nessa exploração de Elise ao seu passado, como a sequência na tubulação de ar – a melhor do longa – e o encontro com a entidade conhecida como KeyFace (Javier Botet), muito bem caracterizada. Se o medo ainda trafega tranquilamente pela franquia, o filme perde alguns pontos na sequência final, onde tudo parece servir ao propósito das personagens. Se nos nos primeiros, tínhamos aquele passeio pelo The Further, com vários fantasmas pelo caminho reconstruindo o modo trágico de suas mortes, essa quarta produção esquece das possibilidades propostas por uma casa, vizinha a um presídio, onde centenas de assassinos perversos encontraram seu destino.

Se não houve exploração adequada do ambiente apresentado, o filme ainda perde força pelo exagero no alívio cômico. Specs e Tucker ampliam seu repertório de brincadeiras e bom humor – grande parte não funciona – e diluem o medo proposto, dando à produção um aspecto de “terror engraçadinho“. Algumas resenhas internacionais chegaram a qualificar o filme de Adam Robitel, de A Possessão de Deborah Logan, como “funny” e “laughable“, termos que não poderiam fazer parte de um filme de terror. Não duvidaria se em breve não surja um projeto solo da dupla, caçando fantasmas na vestimenta de uma comédia oitentista.

Mesmo com esses percalços, Sobrenatural: A Última Chave é um bom acréscimo à franquia. Talvez não assuste muito como se espera, destacando apenas a personagem da carismática Lin Shaye, mas está bem distante de incomodar ou deixar uma sensação de perda de tempo. Não irá figurar entre os melhores de 2017 e está bem distante do primeiro, cronologicamente e no conteúdo.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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