A Ilha dos Homens-Peixe (1979)

A Ilha dos Homens-Peixe
Original:Isola degli uomini pesce, L'
Ano:1979•País:Itália
Direção:Sergio Martino
Roteiro:Sergio Martino, Sergio Donati, Luciano Martino, Cesare Frugoni
Produção:Luciano Martino
Elenco:Barbara Bach, Claudio Cassinelli, Richard Johnson, Beryl Cunningham, Joseph Cotten, Franco Iavarone, Roberto Posse, Giuseppe Castellano, Franco Mazzieri, Eunice Bolt, Charles Cass

Em 1979, o produtor Luciano Martino e o diretor Sergio Martino lançaram um famoso filme misturando aventura, terror e trash não-intencional. Era uma pequena gema chamada A Ilha dos Homens-Peixe. Menos de uma década depois, a película se transformaria num clássico da extinta Sessão das Dez do SBT, onde foi reprisado ad nauseum por Silvio Santos. O sucesso ao redor do mundo foi tão marcante que um tal de H.G. Wells, inglês safado, cara-de-pau e oportunista, copiou praticamente todo o argumento da produção italiana. Numa tremenda sem-vergonhice, lançou um livro chamado A Ilha do Dr. Moreau, que se transformou num caso clássico de plágio e picaretagem. Tanto no filme como no livro que o copiou, um cientista isolado numa ilha misteriosa dá vida a criaturas híbridas de homens e animais; a única diferença é que enquanto A Ilha dos Homens-Peixe tem criaturas aquáticas, a cópia A Ilha do Dr. Moreau envolve misturas de humanos com diferentes animais, inclusive felinos – numa artimanha ardilosa do copiador Wells para que ninguém percebesse que ele estava plagiando o filme italiano. Mas não tem comparação: prefira sempre o original, pois A Ilha dos Homens-Peixe é muito mais criativo e interessante que o plágio literário mal-feito. E é um verdadeiro milagre que os produtores italianos não tenham processado este inglês sem-vergonha para que ele aprendesse a ter suas próprias ideias sem copiar as dos outros!

Bom, qualquer pessoa com um mínimo de informação (e noção) já deve ter entendido que o primeiro parágrafo deste artigo não passa de uma irônica brincadeira. H.G. Wells já estava morto, enterrado e transformado em pó há muito tempo quando a italianada lançou A Ilha dos Homens-Peixe, que é, isso sim, uma cópia bagaceira da obra de Wells chamada A Ilha do Dr. Moreau, lançada originalmente, e anteriormente, em 1896. As aventuras do Dr. Moreau e sua ilha de criaturas mutantes renderam três versões cinematográficas (por enquanto). A primeira, chamada Island of Lost Souls (“A Ilha das Almas Perdidas”), é de 1933 e tem Charles Laughton no papel-título. A segunda versão é de 1977, com Burt Lancaster interpretando o cientista louco, e foi ela que inspirou os irmãos Martino a realizarem sua própria produção “não-oficial” baseada “livremente” na mesma história – mas sem dar qualquer crédito a H.G. Wells, obviamente. E, mais de uma década depois, em 1996, foi a vez de Richard Stanley (Hardware e O Colecionador de Almas) iniciar sua própria versão de A Ilha do Dr. Moreau, com Marlon Brando no papel do cientista; por uma série de problemas, o cineasta acabou afastado pelos produtores e substituído por John Frankenheimer, dando origem a uma obra bastante equivocada e que os próprios envolvidos renegam.

Entretanto, verdade seja dita, tachar A Ilha dos Homens-Peixe de uma mera cópia carbono – e pobre, ou trash – do livro de H.G. Wells, ou mesmo da versão cinematográfica de 1977, é uma grande injustiça. Isso porque o filme de Sergio Martino tem vida própria. É uma história maluca como convém às aventuras classe B daquele período, e com uma excelente produção, que destoa da média de pobreza dos filmes italianos feitos na cola de sucessos do cinema americano. Tem, por exemplo, uma belíssima e bem cuidada fotografia de Giancarlo Ferrando, um ótimo trabalho de direção de Martino e um elenco bastante acima da média. O cast inclui Claudio Cassinelli, ator de estimação de Sergio (e que ironicamente morreu num acidente durante as filmagens de uma outra obra do dito cujo, Keruak – O Exterminador de Aço, em 1985), Barbara Bach (ex-Bond Girl e atual sra. Ringo Starr), Richard Johnson (inesquecível pela sua participação como dr. Menard em Zombie, de Fulci) e até o ator americano Joseph Cotten, que nos bons tempos foi ator coadjuvante em clássicos como Cidadão Kane, mas, depois de velho, decadente e esquecido, tinha que pagar mico em produções italianas baratas para pagar as contas. O roteiro foi assinado em conjunto pelos irmãos Martino, com a ajuda de Sergio Donati e Cesare Frugoni.

A Ilha dos Homens-Peixe começa com uma legenda informando que estamos no Mar do Caribe em maio de 1891. Isso, claro, no caso de você estar assistindo a versão original europeia, já que a edição americana tem quase 15 minutos de cenas a mais, filmadas a mando do distribuidor Roger Corman (explico melhor mais adiante). Como a versão lançada em VHS no Brasil e exibida nos áureos tempos pelo SBT é a original, o início pula direto para um bote à deriva em algum lugar do oceano, repleto de homens vestindo farrapos. São prisioneiros que estavam sendo transportados, de barco, até uma colônia penal, quando no meio do caminho a embarcação afundou – mas, para economizar os trocados da produção, o naufrágio não é mostrado. O único homem do lado da lei entre os sobreviventes é o tenente Claude de Ross (Cassinelli, muito bem no papel), médico-militar que conquistou o respeito de alguns dos bandidos ao soltá-los do cárcere enquanto o navio afundava, e o ódio de outros por garantir que irá levá-los de volta à prisão caso sobrevivam e consigam chegar a terra firme. Não demora para misteriosas criaturas aparecerem nadando ao lado do bote, impulsionando-o até um monte de rochedos, onde o barquinho se arrebenta como uma casca de ovo; diversos dos sobreviventes são atacados pelas criaturas e desaparecem submergindo nas águas turvas… Como o dinheiro da produção foi aparentemente todo gasto em outro departamento, as cenas dos ataques dos monstros são confusas, escuras, feitas em closes e com cortes rápidos, sem permitir que o espectador veja muita coisa!

Claude e cinco prisioneiros acordam já em terra firme, numa ilha com um vulcão que ninguém imaginava existir naquele ponto do oceano. Ali, uma série de infortúnios vai tratando de matar quase todos os personagens secundários, desde uma fonte com água sulfurosa envenenada (e é de se espantar que Skip, o mané que morre envenenado, não tenha desconfiado daquela água embranquecida e esfumaçante…), até uma daquelas clássicas armadilhas no meio da selva (no caso, um buraco repleto de estacas de madeira coberto com galhos de árvore para enganar os incautos). Outro dos prisioneiros, François (Francesco Mazzieri), vai caçar para que o grupo possa comer e acaba sendo dilacerado pela garra de um dos homens-peixe, numa cena pra lá de tosca que me dava pesadelos quando eu era criança. Ao encontrarem o cadáver mutilado de François, seus amigos discorrem sobre o fato: “Deve ter sido devorado por um crocodilo”, diz José (Franco Iavarone), um prisioneiro enorme que parece um clone careca e estrábico do Bud Spencer. Mas Claude, do alto de sua posição de especialista em crocodilos, declara convicto: “Crocodilos não despedaçam uma pessoa assim!”. hehehe. Resta saber como é que os crocodilos despedaçam as pessoas afinal, e onde foi que o bom doutor conseguiu seu diploma de pHd em mordida de crocodilos…

Após todos estes contratempos (não perca as contas: passaram somente uns 10 minutos e já morreu quase todo mundo!!!), o grupo acaba reduzido a um modesto trio. No caso, Claude, José e o maldoso Peter (Roberto Posse), sendo que este último quer ver o tenente morto a qualquer custo, algo a se esperar de um assassino e estuprador condenado, não é mesmo? Eles chegam até um cemitério no coração da ilha, onde Claude se surpreende ao descobrir que todas as sepulturas estão vazias. Segue-se uma discussão inútil sobre a existência ou não de zumbis, criaturas que todos nós sabemos existir, principalmente em filmes italianos bagaceiros, mas aqui não é o caso. E eis que surge não um zumbi, mas a bela Amanda (Barbara Bach, quem mais?), toda bela e formosa montada num cavalo, sugerindo aos três que partam imediatamente – claro, se fosse assim tão fácil… Os homens preferem seguir a moça e chegam até uma mansão construída na beira da praia, onde Amanda vive com Edmund Rackham (Richard Johnson, quem mais?). O cara é o bam-bam-bam da ilha: domina os nativos que praticam vodu, domina Amanda mesmo não sendo casado com a moça, e ainda parece saber muita coisa sobre os segredos do lugar. Rackham convida o trio para uma temporada em sua casa; sem muitas opções, já que a ilha não tem hotéis, pousadas ou albergues, os homens aceitam a hospitalidade do “simpático” Rackham. Ah, se eles soubessem…

Acho que, a estas alturas, torna-se necessário dizer que a subtrama envolvendo os nativos e suas práticas de vodu (até aparece um ritual onde uma galinha é morta de verdade!) não serve para absolutamente nada além de enrolar. Na verdade, Rackham domina os nativos através da sua fiel ajudante Shakirah (Beryl Cunningham), sacerdotisa do vodu que o ajuda a subjugar a vontade dos pobres e ignorantes índios. Apesar do nome, Shakirah felizmente não canta e nem dança como sua genérica latina; infelizmente, também não é gostosa como a contraparte que canta e dança! Aliás, sua presença no filme é completamente gratuita, já que a moçoila se limita a fazer vodu – e, como eu expliquei antes, o vodu não tem nada a ver com a trama principal -, e balbuciar bobagens proféticas com os olhos arregalados, tipo “Eu vejo a morte!”, e coisas do gênero. Para destacar: um dos índios que atuam como guarda-costas de Rackham é um jovem Bobby Rhodes, que depois ficaria imortalizado como o cafetão negro e careca de Demons, mas aqui ainda tem cabelo.

A trama evolui com novas revelações: numa cena que pode ser considerada ao mesmo tempo poética e sensual, ou ridícula e apelativa, a bela Amanda caminha até a beira da praia e entra no mar (uma mera desculpa para mostrar Barbara Bach com a roupa molhada e colada ao corpo escultural), sendo logo cercada por um montão de homens-peixe. Esta é a primeira vez, no filme inteiro, que os bichos aparecem sem ser de relance, e aí finalmente podemos dar uma boa olhada no figurino de carnaval de quinta categoria dos monstrengos! hehehehe. E a pobre Amanda? Meu Deus, será dilacerada pelos malvados homens-peixe? Que nada! Os cabeças-de-bagre (literalmente!!!) parecem temer a gostosona (será que assistiram 007 – O Espião que me Amava???), e não a importunam. Assim, Amanda fica livre para chegar bem pertinho dos bichos e servir a eles um frasco contendo uma poção semelhante a leite. Sim, mané: a tal poção do frasco, que obviamente não é leite, é o que controla as criaturas normalmente descontroladas, impedindo-as de destroçar a moça! Mas quem descobre isso, da pior forma possível, é o pobre Peter (lembra dele?), que tenta estuprar Amanda e é dilacerado pelos homens-peixe. O próprio herói Claude é posteriormente agarrado pelos monstros e tem o peito rasgado por suas garras (peixe tem garra?), só que acaba sendo salvo, no último momento, pela própria Amanda.

Nestas alturas do campeonato, todos os personagens secundários já foram mortos (um deles, o grandalhão José, desapareceu de cena momentos antes, mas voltará mais tarde na hora da “chocante revelação“). Claude, por outro lado, não só acaba poupado – tanto pelos homens-peixe quanto pelo vilanesco Rackham -, como ainda tem seus ferimentos tratados com todo amor e carinho. Ora, por que tratamento vip? Só porque ele é o herói da história? Não, não: o motivo do vilão de manter o herói vivo é justificado. Claude descobre, numa passagem secreta, o laboratório de um cientista que é mantido em cárcere privado por Rackham – e que é, convenientemente, o pai da doce Amanda. Interpretado pelo hollywoodiano Joseph Cotten, o professor Ernest Marvin é um famoso e desaparecido biólogo, que, claro, foi o responsável pela criação dos homens-peixe, embora por algum tempo o espectador seja levado a crer que as criaturas são os últimos sobreviventes do continente perdido de Atlântida!!!

Opa! Calma lá! Atlântida? Sim, amiguinho, é isso mesmo: acredite se quiser, a assim chamada “Ilha dos Homens-Peixe” fica exatamente sobre as ruínas submersas do continente perdido de Atlântida (e depois dizem que os italianos não são criativos autores de roteiros!). Como os templos e palácios do antigo povo (na verdade uma maquete pra lá de bagaceira!) não podem ser alcançados por homens comuns, já que estão muitos mil metros abaixo da superfície do mar, adivinhe o que o diabólico Rackham planejou: para resgatar o ouro de Atlântida, obrigou o professor Marvin a criar homens-peixe a partir de seres humanos (esta é a “chocante revelação“!), somente para depois utilizar os monstruosos cabeças-de-bagre como escravos para mergulhar até as ruínas do continente perdido e resgatar o ouro. Legal, não? E, ironicamente, muito mais criativo que o próprio A Ilha do Dr. Moreau!!! O pobre Claude descobre a trama nefasta da pior forma possível, quando encontra seu pobre “amigo” José dentro de um tanque, numa espécie de etapa intermediária da transformação em peixe. Quem viu essa cena quando guri certamente ficou com pesadelos. Eu, pelo menos, não consegui dormir direito naquela época, depois de ver José transformado numa espécie de bagre superdesenvolvido. Brrrr!!!

Logo, o próprio Rackham dá uma de “vilão de filme de James Bond” e explica a Claude todo o seu plano maquiavélico. Numa cena bem divertida em seu “charme retrô”, o vilão leva o herói para um passeio nas profundezas do oceano. Ambos entram num submarino rudimentar, que nada mais é um do que uma cápsula metálica com janelinhas de vidro (que deveriam explodir nas profundezas do oceano, mas tudo bem), presa a um cabo de aço que é controlado pelos próprios nativos. A ideia do submarino no século 19 é muito divertida (e um tanto que cientificamente possível, vá lá…), e aqui vale um elogio também para a belíssima e inspirada cenografia do laboratório utilizado pelo professor Marvin, com equipamentos “modernos” para a época e até desenhos nas paredes que lembram os esboços do italiano Leonardo DaVinci!

Mas chega de rasgar seda! Durante o passeio de “submarino“, Rackham confessa a Claude que só não o matou ainda porque deve cuidar da saúde do professor Marvin, o único que conhece a fórmula capaz de escravizar os homens-peixe – e, obviamente, nada sabe sobre o plano mirabolante de Rackham, fazendo suas pesquisas “pelo bem da humanidade“. Como o cientista está prestes a bater as botas, o vilão teme perder o controle sobre as criaturas antes que todo o seu amado ouro seja retirado do chamado “Templo do Deus Sol”. Conseguirá Claude manter o professor vivo? Conseguirá Rackham fugir com o ouro de Atlântida? Conseguirá o professor Marvin manter o controle sobre os homens-peixe? Conseguirá Amanda transar com Claude? Conseguirão os homens-peixe fugir do controle dos vilões e assumir definitivamente a ilha para justificar o título da película? Conseguirá Shakirah fazer algo que justifique sua presença no filme além das ridículas dancinhas vodu? E conseguirá o diretor Sergio Martino manter a atenção do espectador até o final?

A resposta para algumas destas perguntas é sim, principalmente para a última. Trabalhando com o orçamento merreca típico das produções-italianas-xerox-de-filmes-americanos da época, e com um roteiro mais interessante que a média das cópias bagaceiras carcamanas, Martino utiliza sabiamente os efeitos especiais apenas razoáveis, os cenários criativos e até cenas de documentários para baratear a produção – no caso, quando o vulcão existente na ilha entra em erupção, vemos cenas reais de um vulcão cuspindo lava, mescladas a cenas até razoáveis da miniatura de uma mansão pegando fogo. Se fosse hoje, provavelmente fariam uma cena horrorosa em computação gráfica, muito pior que a montagem “maquete com cenas de documentário” utilizada pelo inteligente Sergio.

Homens-peixe não são exatamente o máximo da criatividade. Muito antes da produção italiana, eles já haviam aparecido em Kaitei Daisensô, produção japonesa de 1966 estrelada pelo ídolo Sonny Chiba (e conhecida, no Ocidente, como The Terror Beneath the Sea). Só que os homens-peixe japoneses (já pensou que belo sushi?) eram ridículos, uma mistura de criaturas humanoides com cyborgs. Neste aspecto, os monstrengos da produção italiana são muito superiores. Tudo bem que são apenas figurantes utilizando fantasias pobres de dar dó, projetadas por Massimo Antonello Geleng (que já trabalhou com Fulci, Argento, Bava e outros mestres italianos). Como não havia computação gráfica na época (ainda bem!), também não havia muito a fazer além de máscaras imóveis e praticamente inexpressivas (só movem os olhos!). Mas o diretor, esperto que só ele, mostra as criaturas ou muito de longe ou muito de perto, em closes dos olhos, das bocas e das garras (peixe tem garra?), mantendo o nível da coisa dentro do suportável. Acredite, lá pelas tantas você até vai esquecer que aquelas fantasias de homens-peixe são MUITO pobres e entrar no espírito da brincadeira! Só faz falta um pouco de violência explícita, já que basicamente os homens-peixe atacam apenas usando as suas afiadas garras (peixe tem garra?) para arranhar superficialmente as vítimas – e mesmo assim elas morrem com a maior facilidade, menos quando o arranhão em questão é feito no herói Claude, é claro. hahahaha.

A Ilha dos Homens-Peixe ainda inclui ótimas atuações de praticamente todo o elenco, outra coisa rara nas produções italianas baratas, onde a canastrice dos atores era regra, não exceção. Ator-fetiche de Martino, o falecido Cassinelli sai-se bem como herói, embora na primeira metade da trama ele faça bem pouco além de caminhar de um lado para o outro com expressão de surpresa e suportar os discursos xaropes do vilão Rackham. Barbara Bach até consegue mudar a expressão facial pelo menos umas três vezes. Já Richard Johnson é Richard Johnson, um vilão de respeito, com uma cara de malvado daquelas que dá vontade de pegar e encher de bolacha – e todo momento em que a câmera dá um close na fuça do sujeito, você fica esperando que ele fale aquela clássica frase, “The boat can leave now. Tell the crew”, do início do estupendo Zombie de Fulci. Quem diria, até Joseph Cotten, em participação-relâmpago (menos de 5 minutos em cena, acredito eu), consegue espaço para ensinar aos colegas como se atua e faturar seus trocados, provavelmente revertidos em caninha para esquecer a decadência de quem estrelava famosas produções hollywoodianas nos “bons tempos”.

Há alguns furinhos básicos de roteiro, mas nada que comprometa a diversão. Por exemplo: se Rackham está mantendo o tenente Claude na ilha apenas para cuidar da sobrevivência do moribundo professor Marvin, por que o vilão espera que o herói descubra sozinho a existência do cientista ao invés de contar-lhe logo toda a história – até porque nos dias em que ficou escondido, o estado de saúde do velho provavelmente só piorou! E o que dizer da forma como Claude descobre a existência da passagem secreta na casa de Rackham: ele simplesmente vê pegadas de barro irem até uma parede e desaparecerem, evidenciando que ali existe uma passagem secreta – como se alguém que tem uma passagem secreta em casa não iria limpar os pés para não deixar uma trilha que entregasse a existência da dita cuja!!! hahahaha. Fora isso, e descontando também a subtrama vodu que não serve para nada, o roteiro faz bonito e consegue entreter do começo ao fim.

Como eu escrevi no começo do texto, A Ilha dos Homens-Peixe tem duas versões diferentes. Os brasileiros conhecem a italiana/européia, que estreou nos cinemas da Itália em 18 de janeiro de 1979. A outra versão é a americana e cheira a picaretagem da grossa; não por acaso, o nome do famoso produtor classe B Roger Corman está associado a ela. A história começa em 1981, quando Corman, através da sua distribuidora de então (New World Pictures), comprou os direitos para exibição do filme de Sergio Martino em território americano. Ele rebatizou a película com o título “Something Waits in the Dark” (Algo Espera na Escuridão), e a lançou nos drive-inns e cinemas grindhouse que curtiam esse tipo de produção. O problema é que, ao contrário de outros exploitation movies made in Italy, A Ilha dos Homens-Peixe não tem violência nem nudez suficientes para atrair a atenção da garotada que frequentava os cinemas justamente para ver sangue e tetas de fora! Para resolver o problema, Corman simplesmente tirou-o de cartaz e mandou alguns colaboradores habituais filmarem cenas alternativas (!!!), que foram inseridas à montagem original sem a menor cerimônia – e sem o consentimento dos produtores italianos, obviamente.

Há quem jure que Joe Dante, o cineasta responsável por Piranha e pelo posterior Gremlins, estaria envolvido na filmagem destas cenas adicionais, porém são só boatos. Miller Drake (que posteriormente faria uma renomada carreira como técnico de efeitos especiais) escreveu e dirigiu um prólogo diferente do original a mando de Corman, onde um grupo de piratas em busca de tesouros vai parar nA Ilha dos Homens-Peixe; todos são esquartejados violentamente pelas criaturas, já que nenhum deles poderia aparecer no restante da trama “normal“. hahahahaha. Só Corman mesmo…

E é claro que não valia a pena gastar muita grana com este “remendão“. Por isso, Corman nem mesmo mandou construir uma roupa de monstro igual à da versão europeia: simplesmente mandou seu subalterno NÃO mostrar os homens-peixe, filmando apenas closes de uma garra qualquer dilacerando as vítimas! Com 15 minutos de duração, o “prólogo americano” foi exibido antes das cenas com os prisioneiros na jangada (o início “oficial” da versão europeia), e cinco atores americanos participaram. Dois deles são conhecidos por estrelarem produções capengas do período: Cameron Mitchell (The Toolbox Murders) interpretou Decker, o capitão do navio pirata, e Mel Ferrer (Nightmare City, Os Vivos Serão Devorados) fez Radcliffe, um dos marujos. Também participaram Eunice Bolt, Charles Cass e Tom J. Dellaney, todos devidamente eviscerados pela “garra anônima” antes mesmo dos créditos originais da montagem italiana começarem a ser exibidos.

 

Estas novas cenas incluem uma trilha sonora totalmente diferente (composta por Sandy Berman) e efeitos especiais de um então iniciante Chris Wallas, que anos depois ficaria mundialmente conhecido pelo seu fantástico trabalho em A Mosca, de David Cronenberg! E como picaretagem pouca é bobagem, Roger Corman ainda criou um novo cartaz (com a taglineVocê vai ver um homem se transformando numa criatura… enquanto ainda está vivo!”; uma grande mentira, já que não se vê nada semelhante na película) e até um novo título, “Screamers”, para relançar A Ilha dos Homens-Peixe nos cenas americanos COMO SE FOSSE UM FILME TOTALMENTE DIFERENTE!!! hahahahahaha. Mas é claro que o golpe não colou, o pessoal começou a chiar com a frase mentirosa do pôster e quem tinha visto a primeira versão percebeu que se tratava do mesmo filme com meia dúzia de cenas a mais. Vai saber como Corman nunca foi processado por isso!!!

Como as cenas alternativas filmadas nos EUA nunca foram inseridas na montagem original de A Ilha dos Homens-Peixe, a “versão estendida”, se é que pode ser chamada assim, nunca foi relançada em VHS ou DVD – eu morro de curiosidade de ver, deve ser muito engraçado! Ironicamente, apenas um ano depois do lançamento de A Ilha dos Homens-Peixe na Itália, Roger Corman produziu seu próprio filme com criaturas aquáticas e assassinas, o clássico trash Humanoids From the Deep, de 1980, este sim com muito gore e mulher pelada, bem diferente do tom “aventuresco” da produção italiana (tem até os monstrengos estuprando umas garotas peitudas!!!).

Relegado a cult-movie graças às sucessivas reprises pelo SBT, A Ilha dos Homens-Peixe anda esquecido para esta nova geração, acostumada a horrores criados por computação gráfica, e para quem, certamente, os homens-peixe parecerão tão mambembes e pouco assustadores quanto os bonecos dos trem-fantasmas de parques fuleiros. A fita VHS lançada no Brasil há três décadas é hoje uma raridade quase tão grande quanto o primeiro número da revista Pato Donald, e a emissora do Homem do Baú não reprisa o clássico há um bom par de anos – devem ter gastado o rolo, de tanto que o exibiram “pela primeira vez na televisão”. Só é uma pena que as belas imagens em widescreen de Giancarlo Ferrando tenham sido literalmente “ferradas” na cópia VHS brasileira, cortada para full screen!!! O negócio é baixar a versão DVD-Rip e se espantar com a quantidade de imagem que tem “pros lados” em comparação com a da fita nacional em tela cheia. A legião de adoradores do filme, que não é pequena, ainda carece de uma boa fonte para rever A Ilha dos Homens-Peixe, nunca devidamente relançado em DVD “lá fora”.

Há alguns anos, na Europa, saiu uma edição luxuosa em disco duplo, contendo o filme original no primeiro DVD e a continuação A Rainha dos Homens-Peixe no segundo disco. O quê? Continuação de A Ilha dos Homens-Peixe? Sim, é isso mesmo. Porém não sei se essa tralha pode ser chamada assim: na verdade, o diretor Sergio Martino quis reverenciar sua famosa obra com uma produção bem picareta filmada para a TV italiana em 1995, usando cenas de arquivo do original e de outro filme que fez nos anos 80, chamado 2019 – After the Fall of New York (de 1983). Praticamente todos os takes com as criaturas foram tirados da edição original de A Ilha dos Homens-Peixe, o que certamente barateou bastante a produção. A história da sequência se passa no futuro e mostra dois jovens punks abandonando a decadente Nova York (quando entram cenas tiradas de After the fall…) e indo parar numa certa ilha repleta de monstruosas criaturas aquáticas e uma certa Rainha…

Numa época de homens-mosquito, homens-tubarão e homens-cobra feitos por computação gráfica (em produções paupérrimas, normalmente), é ótimo rever os homens-peixe de Sergio Martino em seu charme pobretão e mambembe. E é uma pena que hoje não se façam mais filmes como A Ilha dos Homens-Peixe. Vai ver é por isso que as crianças do século 21 crescem tão infelizes…

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Felipe M. Guerra

Felipe M. Guerra

Jornalista por profissão e Cineasta por paixão. Diretor da saga "Entrei em Pânico...", entre muitos outros. Escreve para o Blog Filmes para Doidos!

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