Jogador Nº 1 (2018)

Jogador Nº 1
Original:Ready Player One
Ano:2018•País:EUA
Direção:Steven Spielberg
Roteiro:Zak Penn, Ernest Cline
Produção:Donald De Line, Dan Farah, Kristie Macosko Krieger, Steven Spielberg
Elenco:Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Lena Waithe, T.J. Miller, Simon Pegg, Mark Rylance, Philip Zhao, Win Morisaki

Steven Spielberg sempre foi um fabricante de cultura pop. Seus filmes, principalmente os realizados no início de sua carreira, foram campeões de bilheteria e serviram de influência e inspiração para tudo o que seria produzido depois. Tubarão (75), Contatos Imediatos do Terceiro Grau (77), ET – O Extraterrestre (82), a franquia Indiana Jones, os dinossauros do parque…foram tema de livros, festas diversas, álbum de figurinhas, brinquedos e jogos, além de mencionados em inúmeros trabalhos, séries, filmes…Com essa admirável carreira, voltada acima de tudo para o entretenimento, fica fácil entender porque o cineasta esteve à vontade – e era o nome certo – na condução da adaptação do livro Jogador Nº 1 (Ready Player One), de Ernest Cline, publicado em 2011.

A obra original se transformou num bestseller imediato, com menção elogiosa na imprensa em diversas mídias, alcançando mais de 20 traduções. O sucesso explosivo se deve ainda mais à época de seu lançamento, quando a tendência é estabelecer relações com o passado – vide produtos como Stranger Things. Para aumentar ainda mais o interesse popular, dez meses após seu lançamento, o diretor confessou que o livro possuía um elaborado Easter Egg, escondido em suas páginas, e que iria premiar o vencedor com nada menos do que um DeLorean, veículo da franquia De Volta para o Futuro (produzido por…bom já sabe quem!). Essa brincadeira é uma referência direta ao enredo da obra, numa jogada genial do escritor para movimentar curiosos, atrair novos leitores e tornar seu trabalho ainda mais interessante.

Assim, um ano após o lançamento, a Warner Bros. adquiriu os direitos de uma adaptação. Mas, foi somente em 2015 que Spielberg assinou o projeto, com interesse particular pelo roteiro desenvolvido pelo próprio Cline em parceria de Zak Penn. Em 2016, as filmagens tiveram início, planejando uma estreia para dezembro de 2017, para depois alterar para março e evitar um confronto direto com Star Wars: Os Últimos Jedi. Curiosamente, por algum tempo foi dito que não haveria menção ao universo Star Wars por problemas de direitos autorais, algo que Spielberg fez questão de abafar em uma entrevista: “Todo mundo colaborou.“. Com a estreia prevista no Brasil para amanhã, dia 29 de março, é bem provável que o filme tenha um excelente box office também por aqui, uma vez que se trata de uma obra de deleite visual, com grandes efeitos especiais, referências – claro – e muita diversão.

Antes de comentar o enredo, peço licença para um parágrafo particular. Não li a obra original, um pecado que não tenho o costume de cometer por gostar bastante de adaptações. Então, não farei comparações entre as versões, nem apontarei o que ficou faltando ou as liberdades de criação. Também não pretendo explorar as principais referências do filme para justamente não atrapalhar a experiência de quem pretende vê-lo nos cinemas e não conhece o livro. Portanto, fique tranquilo na leitura desta análise, sem medo de qualquer spoiler indevido – só comentarei os que já aparecem nos trailers.

Em um caótico 2044, com um Planeta poluído e acinzentado pela superpopulação e aumento das diferenças sociais, as pessoas buscam refúgio na realidade virtual através da plataforma OASIS (Ontologically Anthropocentric Sensory Immersive Simulation), permitindo que você crie um avatar e tenha uma vida social como deseja, sem precisar sair de casa. Desenvolvido por James Halliday (Mark Rylance) e seu parceiro Ogden Morrow (Simon Pegg), OASIS possui um jogo secreto intitulado Anorak’s Quest (Anorak é o personagem criado por Halliday), com um “easter egg” planejado a partir da morte de seu principal criador, e aquele que desvendar os mistérios e encontrar as três chaves escondidas nos desafios propostos terá os direitos pela empresa.

Essa descoberta movimentou “os caçadores de ovos” (chamados Gunters), incluindo o protagonista Tye Sheridan e seu avatar Parzival. Ele vive numa comunidade de trailers em Columbus, Ohio, com a tia, e mantém uma amizade virtual com Aech (Lena Waithe), um especialista em consertos, enquanto desenvolve uma atração curiosa por Art3mis (Olivia Cooke), encontrando-a algumas vezes na grande corrida, o primeiro desafio de Anorak. A busca pelos easter eggs também envolve o CEO da OASIS, Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), que patrocina uma equipe conhecida como Sixers, para evitar que o prêmio seja dado a um popular e a empresa tenha o comando indevido. Uma pista que possa permitir a descoberta dos easter eggs talvez esteja nas lembranças arquivadas de Halliday, com detalhes sobre a construção do OASIS e o relacionamento conturbado com Morrow.

Nesse divertido jogo visual, no passeio dos personagens por um universo colorido e fantástico, num contraponto com o mundo exterior, o espectador é bombardeado por referências à cultura pop. Literatura, quadrinhos e jogos cruzam a tela em avatares conhecidos, principalmente para quem viveu e tem boas lembranças dos anos 80 e 90. Você precisa evitar o contato com o King Kong de 1933, durante uma corrida maluca com seu Delorean, desviando de dinossauros e das investidas dos demais competidores, ou até mesmo ter a oportunidade de confrontar com o Goro, de Mortal Kombat, na caminhada discreta de Robocop, no peito estourado que desvenda o Alien, do reencontro com Freddy Krueger, Jason Voorhees e até Chucky. Eles surgem sutilmente, são citados em conversas, adquirem grande importância como O Gigante de Ferro e Senhor dos Anéis ou são detalhes como o golpe “Hadouken“, do Ryu, de Street Fighter.

No entanto, nada deve trazer uma maior satisfação aos fãs de horror do que a recriação de um universo bastante conhecido, numa das melhores passagens da produção. É tão bem feito e assustador que o passeio por si só já vale o ingresso pelo resgate dos principais momentos e assombrações do clássico, em um delírio inevitável. Os efeitos especiais, como era de se imaginar, contribuem de maneira satisfatória para a experiência, tendo o apoio de uma belíssima trilha sonora oitentista e acordes das produções conhecidas, numa imersão ainda maior ao que se propõe.

Se o enredo segue a cartilha das aventuras bem-humoradas das clássicas Sessão da Tarde, o restante surpreende, do visual à fotografia, da escolha adequada do elenco às cenas de ação e aventura, faltando apenas o joystick do Atari para comandar os heróis. E toda a experiência adquire mais vitalidade e justificativa se você optar por conferi-lo numa sala XD, IMAX munido de óculos 3-D.

Há muito o que descobrir nesse sensacional trabalho de Spielberg, sendo necessárias mais de uma conferência e muita atenção a todos os detalhes. Ainda assim, o próprio cineasta confessou ter extraído muito do que o conteúdo original apresenta, incluindo as referências a si próprio, para que tudo flua adequadamente.  O resultado só poderia ser pleno, conduzindo o público a uma viagem saudosa de resgate dos anos dourados da cultura pop, sob a maestria de um diretor que conhece bem esse universo por ter ajudado a desenvolvê-lo.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

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