The Terror (2018)

The Terror
Original:The Terror
Ano:2018•País:EUA
Direção:Tim Mielants, Edward Berger, Sergio Mimica-Gezzan
Roteiro:David Kajganich, Andres Fischer-Centeno, Vinnie Wilhelm, Josh Parkinson, Dan Simmons, Soo Hugh, Gina Welch
Produção:Howard Ellis, Robyn-Alain Feldman, Adam Goodman, Ridley Scott
Elenco:Jared Harris, Tobias Menzies, Ciarán Hinds, Paul Ready, Adam Nagaitis, Ian Hart, Nive Nielsen, Christos Lawton, Sebastian Armesto, Jack Colgrave Hirst

por Marie Pergufel

Quando começaram a pipocar os primeiros teasers e reportagens sobre a minissérie The Terror – produzida pelo lendário cineasta Ridley Scott para o canal AMC -, parecia ser o sonho de todo fã de terror virando realidade. Porque as imagens dos teasers, e as comparações feitas pelas reportagens, anunciavam o que parecia uma versão épica dos filmes O Monstro do Ártico e O Enigma de Outro Mundo (ambos baseados na mesma novela de John W. Campbell Jr.), em que cientistas isolados no Ártico precisam enfrentar uma terrível criatura alienígena. Ou, ainda, algo próximo da história “Nas Montanhas da Loucura“, de H.P. Lovecraft, sobre uma expedição à Antártida que encontra vestígios de uma civilização muito mais antiga do que a humanidade – e que vários cineastas tentaram transpor sem sucesso para o cinema, incluindo o recentemente oscarizado Guillermo del Toro.

Acaba que esta minissérie de 10 episódios e 10 horas de duração não é nem uma coisa nem outra: fora a ambientação no Ártico e o fato de em alguns episódios os personagens terem que enfrentar uma criatura monstruosa, The Terror está mais para uma aventura no gênero “survival” (tipo Vivos, ou mesmo Náufrago), em que um grupo numa situação-limite precisa lutar contra a natureza pela própria sobrevivência. E funciona muito bem como tal, embora os últimos cinco episódios sejam muito melhores do que a primeira metade.

The Terror acompanha uma ambiciosa expedição da Marinha Real inglesa para tentar encontrar a mítica “Northwest Passage” (Passagem do Noroeste), uma via marítima de quase 1.500 quilômetros através de uma série de canais profundos em território canadense, logo acima do Círculo Polar Ártico. Em 1845, quando se passa a trama, a passagem ainda não era conhecida, mas já se sonhava com seu potencial para as navegações, já que o percurso faria uma ligação muito mais curta entre os estreitos de Davis e Bering, ligando o Oceano Atlântico e o Oceano Pacífico.

A expedição é liderada pelo arrogante Capitão John Franklin (interpretado por Ciarán Hinds), que escapou por um fio de uma viagem anterior com a mesma finalidade e agora tenta recuperar sua moral encontrando a bendita passagem. Ele parte com dois grandes navios, chamados Erebus e Terror, e uma tripulação composta por 160 homens, com mantimentos para três anos de viagem.

Mas não demora para que a natureza se coloque no caminho das ambições humanas como um certo iceberg se interpôs no caminho de um certo Titanic. Quando os dois navios ficam presos no gelo em algum ponto no meio do caminho, sem a possibilidade de seguir em frente ou de voltar, os marinheiros são obrigados a “acampar” no local e enfrentar um dos invernos mais frios da história, na esperança de que a primavera derreta o gelo e eles possam seguir viagem ou, pelo menos, dar meia-volta.

As estações vão mudando, os anos passam, e Erebus e Terror continuam bloqueados no mesmo lugar. O medo de não sobreviverem a um novo inverno, ou à iminente falta de comida, força Franklin a enviar pequenos grupos a pé em busca de sinais de salvação no horizonte. E um destes grupos acaba matando, por acidente, o velho xamã de uma tribo esquimó, liberando sobre a expedição a fúria de uma criatura assassina conhecida como Tuunbaq.

The Terror foi baseado num livro de mesmo nome escrito por Dan Simmons, e cuja trama é narrada de forma não-linear pelos personagens em primeira e terceira pessoa (boa parte é contada pelas passagens do diário de um dos protagonistas, por exemplo).

Infelizmente, o formato de idas e vindas no tempo não foi bem aproveitado pela minissérie, que às vezes também volta ao passado para mostrar como era a vida pregressa dos integrantes da expedição, mas sem acrescentar muita coisa à trama. E as cenas com a expedição presa no Ártico são intercaladas, em alguns episódios, pela luta solitária da esposa do Capitão Franklin, Jane (a italiana Greta Scacchi, musa dos anos 1980), na Inglaterra, tentando desesperadamente arregimentar uma expedição de resgate aos homens do Erebus e do Terror.

O mais incrível dessa história toda é que tanto The Terror quanto o livro em que se inspira foram baseados num terrível episódio real: a expedição inglesa para o Ártico realmente existiu, assim como os navios Erebus e Terror, e boa parte dos personagens principais. A tripulação sob o comando do verdadeiro Capitão Franklin foi varrida da face da Terra, e somente muito tempo depois, na década de 1980, foram finalmente descobertas evidências de que boa parte dos marinheiros morreu por escorbuto (falta de vitamina C), envenenamento provocado pelo mau acondicionamento das rações enlatadas que eram servidas ao longo da viagem, e até canibalismo – tais informações derivaram da perícia realizada em corpos localizados em alguns dos trechos por onde a expedição passou entre 1845-47. Já os navios Erebus e Terror só foram encontrados, graças a fotos de satélite, em 2014 e 2016 – dois séculos depois do seu desaparecimento! Às vésperas da estreia da minissérie, o presidente da AMC inclusive brincou ao parabenizar os cientistas pelo achado ao mesmo tempo em que reclamava que eles estavam “soltando spoilers”.

A grande jogada de The Terror é que o espectador é desafiado a separar a realidade da ficção, já que os protagonistas da minissérie foram todos baseados em personagens que realmente existiram e desapareceram na fracassada expedição verídica. Na vida real também existiu o cético Capitão Frazier (Jared Harris, excelente), que na minissérie percebe desde cedo que a viagem está fadada a um triste destino, mas não consegue convencer o líder da expedição sobre a tragédia iminente. Também existiram, entre vários outros, o cínico comandante James Fitzjames (interpretado por Tobias Menzies, que ao longo da aventura passa de vilão a herói) e um assistente de cirurgião chamado Goodsir, que durante a maior parte da minissérie é o único personagem com quem o espectador consegue simpatizar (em excelente performance de Paul Ready). Saber que estas pessoas existiram de verdade – embora suas ações e destinos na minissérie sejam, obviamente, uma liberdade poética dos roteiristas e do autor do livro – dá uma dimensão mais dramática a uma trama que vai ficando cada vez mais horrível e cruel ao longo dos 10 episódios.

Talvez a grande decepção de The Terror seja justamente a expectativa criada, pois quem esperava uma história na linha de “The Thing” ou “Nas Montanhas da Loucura” foi obrigado a se contentar com uma aventura em que poucas coisas acontecem durante a maior parte do tempo – já que os protagonistas estão presos no gelo -, e a única recompensa para fãs do gênero, que é o tal Tuunbaq, aparece representado como mais um terrível monstrão feito em computação gráfica, que ficaria muito melhor e mais assustador se deixado escondido nas sombras. (A propósito: a minissérie não se preocupa em explicar o que exatamente é a criatura, que pode até passar por uma espécie de “urso polar mutante”, mas o livro de Simmons deixa claro que se trata de um monstro com 10 mil anos de idade que está sendo combatido pelos esquimós há séculos e que só pode ser controlado magicamente por um xamã).

As 10 horas de duração também se revelam um exagero: é o tipo de narrativa que, nos “velhos tempos” da TV (1980-90), seria enxugada para no máximo quatro ou cinco episódios muito mais redondinhos, mas que agora segue o padrão de “grandes narrativas de várias horas” no estilo dos seriados de super-heróis da Netflix – que enrolam até não mais poder uma única história, e acabam tendo ótimos momentos perdidos em meio a episódios fracos.

Este exagero se revela particularmente irritante nos primeiros cinco capítulos de The Terror, em que os diretores brincam com a expectativa do espectador criando ameaças de tensão e suspense que não levam a lugar algum. No primeiro episódio, por exemplo, um marujo morre de maneira sangrenta durante o jantar, em uma cena que lembra, vagamente, Alien – O 8º Passageiro (e talvez seja uma homenagem ao produtor Scott). Pois bem: até o resto do episódio, o cadáver deste sujeito é enquadrado insistentemente pela câmera, como se preparando o espectador para algo terrível que irá acontecer. Uma criatura sairá do peito do cadáver? O morto vai levantar? Um óleo negro estilo “Arquivo X” vai escorrer do corpo? Mas acaba que nada acontece.

Mais adiante no episódio, o mesmo cadáver é sepultado em terra firme e, no deslocamento do caixão para a cova, sua tampa se solta, deixando o morto à vista. Os marinheiros começam a murmurar entre eles e, com medo, pretendem virar as costas e ir embora, até que um deles desce no buraco para fechar o caixão corretamente. Mais uma vez, uma cena longa com musiquinha de suspense constrói a ideia de que algo terrível vai acontecer… Mas aí o marinheiro simplesmente fecha o caixão e vai embora, frustrando o espectador.

E esse tipo de “tensão enganadora“, que vai criando um clima de horror sem sustentá-lo ou sem “premiar” o espectador com algo no final (nem que seja um daqueles abomináveis “jump scares“), é uma constante. Tanto que a minissérie começa a melhorar consideravelmente a partir do sexto capítulo, quando a situação da tripulação fica realmente desesperadora e não há mais tempo para enrolação.

É quando protagonistas e antagonistas finalmente começam a ser definidos e a ganhar nuances, pois desenvolvimento de personagens não é exatamente o forte da minissérie. Um problema grave é ter atores muito parecidos nos papéis secundários, de maneira que o espectador só consegue identificar quem é quem, nos primeiros episódios, quando eles são chamados pelo nome. Geralmente é preciso forçar a memória para lembrar quem são aquelas pessoas e qual o seu papel na narrativa. Boa parte do segundo e do terceiro episódios gira em torno da morte de um tal “Tenente Gore“, mas é difícil sequer lembrar da cara do sujeito ou do que ele fazia na história até então!

Embora seja preciso armar-se de uma boa dose de memória e de paciência para encarar os dez episódios, The Terror é uma bela minissérie para quem curte histórias sobre homens corajosos enfrentando a natureza selvagem, a fúria dos elementos e, finalmente, problemas bem humanos (fome, doenças, assassinatos e um motim que acaba separando a tripulação em dois grupos rivais). E esqueça que há um monstro na trama, porque ele é visualmente frustrante e a coisa vai mais numa pegada “nenhum monstro é maior que o Mal que se esconde no coração do homem”, tipo acontece nos filmes de mortos-vivos dirigidos por George A. Romero, por exemplo.

Mas prepare-se para ficar embasbacado com a produção de The Terror, que só falhou mesmo na concepção do monstro. Todo o resto é muito bem produzido, com belíssimas imagens dos navios inicialmente navegando por mares repletos de blocos de gelo, e depois bloqueados em meio a uma imensidão branca. E há cenas visualmente impressionantes, como o momento em que um escafandrista é obrigado a mergulhar no oceano gelado logo nos primeiros episódios.

O fato de a trama ficar progressivamente mais terrível, sem poupar sequer os personagens mais simpáticos de mortes terríveis, remete a grandes momentos do cinema de horror, o que deve satisfazer mesmo os mais ardorosos fãs do gênero.

Porém, novamente, não precisava de 10 horas…

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Autor Convidado

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Um infernauta com talentos sobrenaturais convidado a ter seu texto publicado no Boca do Inferno!

2 comentários em “The Terror (2018)

  • 23/04/2018 em 20:04
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    Confesso que amei a série, apesar de que quando li seu título pensei que a finalidade era esse terror mais moderno mesmo. Inicialmente, passar dois episódios em que os personagens ficam mais tempo conversando sobre rotas, aventuras anteriores etc, foi um pouco, como posso dizer, enfadonho. Todavia, acho que é parte dessa lentidão, dos diálogos com algum substrato que dão esse diferencial a série, que não ilude o o telespectador com simples jump scares e diálogos meramente hollywoodianos. De fato, talvez prolongar por dez episódios tenha sido um erro, mas é uma produção diferenciada e que precisa ter seus méritos reconhecidos, eu fiquei encantada com o papel do Jared Harris, não conhecia muito da carreira dele até então. Apenas gostaria que o final fosse melhor explorado, fiquei na dúvida se o capitão congelou ou se foi apenas uma forma dramática de retratar que ele havia continuado com a tribo. E, pelo menos aquele maldito Hickey morreu, meu deus, que personagem bem insuportável.

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  • 22/04/2018 em 14:32
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    Gosto muito das criticas aqui do site, eh muitas vezes so venho ler depois de assistir. So uma sugestão, o pessoas que escreve tem soltado informações demais sobre os filmes/series. Nao sei, precisam conter um pouquinho mais a quantidade de coisas a ser ditas sobre…. Pertinente algumas criticas, mas a ideia de comprimir a historia nao rola acho apenas que eh um erro de percepção do critico. Serio eu assistia cada episodio e parecia que eram ate curtos demais hahah. O desenvolvimento lento cria uma atmosfera de suspense e tensão, alias a historia se passa em 02 anos e pouco, isso sem o tempo ser cronometrado na tela. Mas a medida que você obtêm informações sabe que quanto mais tempo ficam menos são a chances dos coitados. (Eu já sabia que era baseado em fatos reais e que dificilmente alguém sobreviveria, mas sera realmente que ninguém sobreviveu??, fiquem atento que for assistir.

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