Um Lugar Silencioso (2018)

Um Lugar Silencioso
Original:A Quiet Place
Ano:2018•País:EUA
Direção:John Krasinski
Roteiro:John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck
Produção:Michael Bay, Andrew Form, Bradley Fuller
Elenco:Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward, Leon Russom

Certa vez, um cineasta excêntrico acreditou que o cinema poderia ir além da projeção, desenvolvendo técnicas de provocar sustos nos espectadores, seja através de pequenos choques nas cadeiras, como o “voo” de um esqueleto sobre a plateia ou com a aparição de pessoas fantasiadas durante a sessão. Com o passar dos anos, aquelas mensagens de aviso aos cardíacos e a entrega de sacos de vômito perderam força para notícias falsas envolvendo desmaios e fugas desesperadas em exibições polêmicas; ou, em menor grau, com a expansão dos chamados “jumpscares“. Há quem meça a qualidade de um filme de terror pela quantidade de sustos que ele provoca, mas é preciso saber diferenciar o “assustador” daquele que realmente “causa medo“. Quando os jumpscares são justificados – como em muitas produções found footages – há até uma mescla entre os dois.

Para produzir um jumpscare eficiente, os produtores do gênero fazem uso de uma técnica: uma música de suspense toca ao fundo, enquanto a personagem anda lentamente em algum ambiente hostil. De repente, o som é retirado completamente, deixando apenas a respiração e até os batimentos cardíacos. Ao mostrar que a porta aberta ou a cortina do banheiro não traz nenhum inimigo, no instante seguinte aparece alguém ou algo por trás e o som é aumentado de maneira absurda, provocando o salto dos espectadores. O efeito é igual ao que acontece quando algum amigo estoura um saco plástico ou chega atrás de você e dá um grito.

Agora, imagine uma produção inteira voltada para o silêncio, trabalhando a tensão pela exposição da ameaça sutilmente? Os roteiristas de Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), Scott Beck e Bryan Woods, desenvolveram o argumento em 2013, inspirados nas sessões de filmes mudos da época da faculdade. Aos poucos, o roteiro foi sendo trabalhado com a participação do diretor e ator John Krasinski, que chegou a cogitar a possibilidade de estabelecer uma relação com os filmes da franquia Cloverfield. Contudo, notaram que havia uma personalidade ali, uma produção capaz de assustar por seus próprios méritos. Com influência assumida em Alien (79), Onde os Fracos não Têm Vez (2007) e Entre Quatro Paredes (2001), Um Lugar Silencioso estreou na última quinta-feira, já sendo apontado como uma das grandes surpresas de 2018.

Todo esse barulho faz sentido. O longa apresenta um conto simples sobre uma família que se vê obrigada a se proteger de uma ameaça sobrenatural, que caça pelo som. Sem nenhuma informação a respeito, apenas as manchetes dos jornais como eram vistas em Dia dos Mortos (1985), a sequência inicial já apresenta os personagens envolto numa situação de busca por mantimentos em um mercado. Lee Abbott (o próprio Krasinski) conduz a jornada ao lado da esposa Evelyn (Emily Blunt) e os filhos, Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e o caçula Beau (Cade Woodward). Qualquer movimento em falso pode gerar algum tipo de som e, consequentemente, atrair aquilo que se alimenta através dele.

Beau sonha em viajar para outro planeta para se livrar dos monstros. Sua atração por um foguete movido à pilha culmina numa sequência arrepiante no prólogo, durante a travessia por uma ponte. Os Abbotts vivem numa casa rural imensa, cercada por um vasto milharal. A comunicação é toda feita através de sinais, até mesmo em momentos de lazer como um jogo em família. Enquanto tentam sobreviver sem saber se estão sozinhos – o contato via rádio não traz um boa expectativa -, eles também precisam se preocupar com uma nova realidade: Evelyn está mais uma vez grávida.

Krasinski trabalha o silêncio como a única salvação. Pouca trilha incidental acompanha o longa, para que o espectador possa experimentar o ambiente, sentir-se o tempo todo com uma ameaça à espreita. A partir daí, como aconteceu em Homem das Trevas e a escuridão promovida em dada cena, muita tensão se desenvolve em pequenos conflitos sonoros, como o passeio entre pai e filho até uma cachoeira, o encontro com um homem desesperado pela morte da esposa e a solidão de Evelyn em um dos momentos mais arrepiantes. O terror aumenta gradualmente, e o enredo propõe o medo em episódios simples, mas absolutamente assustadores.

Se a maneira de enfrentar o inimigo se mostra frágil no roteiro – por que ninguém pensou nisso antes? -, a criatividade na construção das cenas se torna evidente. O choro de um bebê e o prego exposto na escada do porão funcionam de tal maneira que o silêncio do filme se une ao da sessão de cinema: você não ouve nem sequer uma pipoca sendo mastigada ou qualquer comentário entre os presentes, como se até essas coisas fossem capazes de condenar as personagens. Assistir com amigos que respeitam o que está sendo visto pode ser uma experiência divertida e genuinamente aterrorizante.

Com um orçamento estimado em U$17 milhões, Um Lugar Silencioso é realmente a melhor estreia até o momento do gênero em 2018. É bem provável que irá inspirar outros trabalhos envolvendo os sentidos como a adaptação do livro Caixa de Pássaros, ou até mesmo uma continuação que apresente a gênese desse longa. De qualquer maneira, mostra-se uma boa preocupação com o modo de relacionar sustos com o medo, sem que precise que alguém entre vestido de monstro na sala de exibição.

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Marcelo Milici

Marcelo Milici

Fundou o Boca do Inferno em 2001. Formado em Letras, fez sua monografia sobre o Horror Gótico na Literatura. É autor do livro "Medo de Palhaço", além de ter participado de várias antologias de horror!

5 comentários em “Um Lugar Silencioso (2018)

  • 20/04/2018 em 07:21
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    Espetacular. A impressão que fica é de não ter sido concebido como um filme de terror (para amantes do terror), mas um filme de drama, com uma forte carga de suspense, o que deixa o filme ainda mais aterrorizante. Fascinante do início ao fim, saindo do cinema fiquei com a mesma sensação ao ter assistido o excelente A Autópsia: cativante, inovador e que vale cada centavo do ingresso. Que venha o 2.

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  • 15/04/2018 em 18:26
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    o filme é bom, mantêm o clima de tensão de uma maneira q eu nunca tinha visto, sentei ao lado de uns aborrescentes no cinema e até eles ficaram calados em boa parte do tempo, tamanha a tensão do filme, tem algumas falhas de roteiros bem óbvias que diminuíram minha imersão e a qualidade mas nada que estrague, continua sendo um grande filme de suspense.

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  • 10/04/2018 em 09:03
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    Se o Marcelo falou, ta falado!!
    Estou ansioso pela adaptação do “Caixa de Pássaros” também.

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  • 08/04/2018 em 22:04
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    Ótimo filme e ótima crítica. Resumindo o filme em uma palavra: TENSO.

    Assistam seguros que valerá o preço do ingresso, porém, rezem para que ao seu lado sente alguém que, como o autor da crítica bem pontuou, respeite o que está sendo visto. (Infelizmente, não ocorreu comigo, sentei ao lado de um cara chatoooo)

    Recomendadíssimo !!!

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