A Noite dos Demônios (1972)

A Noite dos Demônios
Original:La Notte dei Diavoli
Ano:1972•País:Itália, Espanha
Direção:Giorgio Ferroni
Roteiro:Eduardo Manzanos, Romano Migliorini, Gianbattista Musssetto
Produção:Eduardo Manzanos, Luigi Mariani
Elenco:Garko, Agostina Belli, Roberto Maldeira, Bill Vanders, Teresa Gimpera, Cinzia de Carolis, Umberto Raho, Luis Suárez, Sabrina Tamborra

Um homem misterioso (o veterano em spaghetti westerns, Gianni Garko, imortalizado como o pistoleiro Sartana, numa série de filmes) chega a um hospital, com ferimentos e em estado catatônico.

Sem maiores delongas, o filme joga na cara do espectador uma série de imagens apelativas, como um crânio cheio de vermes, um coração sendo arrancado e nudez feminina gratuita. Delírios do paciente? Um mero artifício do cinema exploitation para prender a atenção do público?

Com a foto do paciente nos jornais, finalmente aparece alguém que pode identificar o infeliz. Uma bela jovem (Agostina Belli) alega que o homem se chama Nicola, que o conheceu apenas há uma semana, e que é um empresário do ramo de madeireira. Ao fazer a acareação com a moça, o suporto Nicola tem um surto e colocado em um quarto com camisa de força.

Hora de embarcar no flashback e descobrir como tudo começou.

Nicola estava em viagem, para fechar um negócio em torno de um carregamento de madeiras, quando, ao pegar um atalho, se perde em um caminho deserto, rodeado por uma floresta. É quando quase atropela uma mulher, que logo desaparece, e acaba saindo da estrada e, obviamente, o carro se quebra.

Empenhado no meio do nada, nosso protagonista sai em busca de ajuda e acaba encontrando uma casa onde mora uma família de camponeses, chefiada pelo patriarca Gorka (Bill Vanders, veterano do cinema de gênero italiano), que acabara de vir do enterro de seu irmão. O resto do clã é formado pela cunhada de Gorka, a recém viúva, Elena (Teresa Grimpa), os filhos do patriarca, o impetuoso Jovan (Roberto Maldera, do cult The Night Evelyn Came Out of the Grave), o jovem Vlado (o espanhol Luis Suarez) e a bela Sdenka (que é a garota que visita Nicola no hospital, no começo do filme). Completam a família as crianças, filhas de Elena, Irina (Cinzia De Carolis) e Mira (Sabrina Tamborra).

A família age de forma lacônica com o forasteiro, fica claro que algo eles têm algo a esconder. O que Nicola não imagina é que a região está sendo amaldiçoada por uma estranha mulher (Maria Monti, do clássico giallo O que Vocês Fizeram com Solange?), curiosamente a mesma que o viajante quase atropelou. Na verdade esta mulher é uma bruxa que se tornou um Wurdulak, designação local para vampiro, sendo o irmão de Gorka uma vítima da criatura.

O patriarca farto da situação resolve sair para a floresta, na caça da vampira: se ele voltar depois de escurecer, um dos seus familiares deverá cravar uma estaca de madeira em seu peito, pois é sinal que também se tornou em uma criatura da noite. O problema é que Gorka retorna, mas as coisas não saem como o planejado, dando início um terrível pesadelo.

O fã mais atento do cinema de horror já deve ter identificado essa história, o plot é praticamente o mesmo do segmento “O Wurdulak”, do clássico filme em episódios Black Sabbath – As Três Máscaras do Terror (1963), obra-prima de Mario Bava. Mais do que um plágio ou mero remake, na verdade este “A Noite dos Demônios” é na verdade uma segunda versão do mesmo conto que inspirou o filme de Bava, “A Família do Wurdulak”, de Aleksey Tolstoy, primo menos badalado de Leon Tolstoy, e considerado um dos melhores contos de vampiros de todos os tempos.

A direção ficou a cargo do veterano Giorgio Ferroni (1908-1981). O diretor, que começou filmando documentários, notabilizou-se por dirigir vários pepluns (épicos de baixo orçamento, protagonizados geralmente por figuras mitológicas e musculosas como Hércules, Sansão, etc) e spaghetti westerns, aliás, seu filme mais famoso é o faroeste estrelado por Giuliano Gemma O Dólar Furado. Com mais de quarenta filmes em quarenta anos de carreira, curiosamente Ferroni só rodou dois filmes de terror, O Moinho as Mulheres de Pedra (1960), um dos primeiros filmes da retomada do cinema fantástico italiano no pós-guerra, e este, A Noite dos Demônios, já no ocaso de sua carreira, foi seu penúltimo filme. E o resultado é tão satisfatório que acaba se lamentando o fato de Giorgio Ferroni não ter investido mais no cinema de horror.

O grande mérito de Ferroni aqui foi conseguir transpor a trama para a época contemporânea sem perder o clima gótico e tétrico da narrativa. O mais curioso é compararmos os finais do conto, do filme de Bava e aqui. Cada um contém uma conclusão diferente da história, a de Ferroni consegue ser a melhor finalização de seus ilustres antecessores. Na parte final a citação até ao clássico A Noite dos Mortos-Vivos de Romero, quando o protagonista tenta fugir do local em seu carro já consertado.

Destaque para os efeitos especiais artesanais do mestre Carlo Rambaldi (E.T. – o Extra-Terrestre, Alien- O Oitavo Passageiro e um vasto etc.) e o elenco eficiente, em que temos um Gianni Garko, longe de pistolas e cavalos, dando conta do recado no papel de um homem levado à loucura ao se defrontar com criaturas demoníacas. O clássico caso do homem cosmopolita e cético que se depara com criaturas sobrenaturais, tem recorrente na cultura de horror através dos séculos.

Lançado no Brasil em DVD pela Versátil, no box Vampiros, A Noite dos Demônios é um ótimo exemplar de horror gótico. Imperdível.

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Paulo Blob

Paulo Blob

Nascido em Cachoeirinha, editou o zine punk: Foco de Revolta e criou o Blog do Blob. É colunista do site O Café e do portal Gore Boulevard!

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