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Luciano Milici, um demônio por trás do Diário de Um Exorcista – Zero

Luciano conta como o projeto se desenvolveu, sua relação com histórias reais e o que o futuro reserva para o terror ficcional no Brasil

Esta semana o demônio dará às caras no Brasil. Para alguns, ele sempre esteve por aqui, seja na política, escondido no capitalismo ou na evocação de pequenos cultos, mas sua representação nunca esteve tão fiel quanto no lançamento desta semana do DVD e das plataformas de streaming do aguardado Diário de Um Exorcista – Zero. Baseado na obra escrita por Luciano Milici e Renato Siqueira, o longa, produzido pelo próprio Siqueira, além de Beto Perocini e Wagner Dalboni, traz o pesadelo vivido pelo padre Lucas Vidal ao ter que enfrentar um demônio bastante conhecido e extremamente assustador.

Em uma conversa com o Boca do Inferno, o site que teve sua origem na inspiração do escritor, Luciano conta como o projeto se desenvolveu, sua relação com histórias reais e o que o futuro reserva para o terror ficcional no Brasil. Do jeito que o Diabo gosta…

Boca do Inferno: Como surgiu a ideia de escrever o livro Diário de um Exorcista em parceria com o Renato Siqueira? E quando vocês perceberam que o tema poderia render um filme?

Luciano Milici: As pessoas se espantam ao saber que a concepção do filme veio antes da do livro, mas é verdade. Renato Siqueira, diretor e produtor, cochilou na poltrona de sua sala e despertou com os gemidos de Regan MacNeil em uma reprise de O Exorcista na TV. Foi quando ele se questionou quanto à ausência de filmes sobre o tema possessão e exorcismo no Brasil. Então, sem a trama fechada em mãos, ele se juntou com o cineasta, diretor de fotografia e produtor Beto Perocini e começaram a captar algumas cenas para um futuro longa. Fizeram um trailer.

Eu já estava para publicar A Página Perdida de Camões (Generale, 2012) e buscava por atores para o booktrailer do meu livro. Foi quando Renato me contatou e produziu o booktrailer para mim. Durante a edição, Renato me mostrou o trailer do Diário de um Exorcista no Youtube, com milhares de visualizações. Nesse momento, tive o estalo e pensei “Isso daria um bom livro”.
Apresentei Renato ao meu publisher que viu um mercado para o tema. Juntos, eu e Renato decidimos pesquisar histórias verídicas de possessão e exorcismo. Saímos a campo, com Beto Perocini, e entrevistamos muitas pessoas, além de coletar informações e narrativas assustadoras. Compilei tudo aquilo e, em contato com dois padres exorcistas e um diácono, formatamos o personagem Lucas Vidal.

O livro foi escrito junto com o filme. Um influenciou o outro. O livro, obviamente, tem mais detalhes, porque a linguagem permite.

Boca do Inferno: Tanto os trailers quanto o livro indicam que a obra/filme tem relação com situações reais presenciadas pelos autores. Como isso aconteceu?

Luciano Milici: Dentre os padres que nós entrevistamos, muitos eram grandes teóricos. Poucos realmente realizavam o ritual. Um deles, o mais experiente, nos chamou para assistir a alguns rituais. Todos os exorcismos citados no livro e derivados para o filme estão muito próximos do que realmente ocorreu. Claro que apimentamos alguns detalhes para tornar tudo mais interessante. Esse padre, inclusive, conheceu o exorcista jesuíta que cuidou do caso do garoto americano que, mais tarde, inspirou William Peter Blatty a escrever O Exorcista.

Boca do Inferno: Desde O Exorcista, produções envolvendo exorcismo e demônios existem aos baldes. O que Diário de Um Exorcista – Zero tem a oferecer de diferente do que já foi mostrado antes?

Luciano Milici: Primeiro que essa narrativa é brasileira. Ela está próxima a você, a mim e a quem assistir ou ler o livro. Aconteceu no quintal de todos nós. Os demônios sempre foram antagonistas poderosos em filmes porque representam o mal completo e absoluto. O exorcismo às vezes é usado como arma para combater esse mal. Alguns filmes usam padres, outros usam lutadores de artes marciais, mas o enfrentamento visceral está lá, sempre presente.

Em o Diário de um Exorcista – Zero, o espectador vai apreciar uma história local, com narrativas baseadas em fatos reais, efeitos realmente impressionantes e tudo isso realizado de maneira independente, sem investimentos.
Diário de um Exorcista (2016) (7)
Boca do Inferno: Muitos filmes de horror possuem histórias assustadoras nos bastidores, como morte no elenco, sons inexplicáveis, incêndios estranhos, vide o próprio O Exorcista. Aconteceu alguma coisa esquisita nos bastidores do filme?

Luciano Milici: Os dois óbitos que tivemos na produção foram de causas externas, nada sobrenatural. Foram duas grandes atrizes muito experientes e que deixarão muita saudade. Refiro-me a Vininha de Moraes e Lisa Negri. Quanto aos acontecimentos estranhos durante a produção do filme e escrita do livro, passamos por muitas situações dúbias, que fariam a mais cética agente Scully se arrepiar. Gravamos em um cemitério e captamos acidentalmente áudios estranhos, parecidos com lamentações; entrevistamos pessoas que falavam detalhes sobre nossas vidas que ninguém sabia; perdemos objetos que, mais tarde, foram encontrados em outros locais e etc. Algumas histórias colocamos como curiosidades no site oficial do filme, mas as melhores narrativas serão contadas por nós mesmos em nosso canal no Youtube. Iniciaremos uma série de entrevistas chamada Diário de um Exorcista – Histórias não contadas. Convido os infernautas a prestigiarem e passarem um pouco de medo com esses relatos.

Boca do Inferno: Parece que o longa será o pontapé inicial de uma franquia, já que o Zero do subtítulo indica que teremos mais filmes sobre o mesmo tema. É isso mesmo? Vão ser feitas continuações? Refilmagens? Teremos mais livros sobre o tema?

Luciano Milici: Depois que o filme foi finalizado, e isso levou certo tempo por conta da independência com que a obra foi produzida, saímos em busca de distribuição e recebemos muitas propostas. Algumas boas, outras incrivelmente boas. Todos os executivos de cinema que assistiram aos cortes realizaram propostas interessantes para o filme.

Alguns executivos que conheciam o livro notaram que ainda havia muito da história a ser explorado em cinema. Não só recontando a história de maneira diferente, como incluindo arcos ainda não utilizadas do livro, informações inéditas e mais terror. Foi o que fizemos, planejamos um reboot, uma refilmagem adaptada. Brincamos que o Zero foi a experiência inicial do diretor, como ocorreu  com Evil Dead. Agora, iniciaremos algo novo, portanto, sim, teremos mais filmes e possivelmente livros do universo Diário de um Exorcista, sem contar games e quadrinhos.
Diário de um Exorcista (2016) (1)
Boca do Inferno: O Diabo se esconde nos detalhes. Pode nos contar algo sobre o filme que poderá interessar aos infernautas?    

Luciano Milici: Eu faço uma ponta atuando como Padre Jaime.. heheh, estou brincando. É interessante assistir ao filme tendo em mente o esforço de Renato Siqueira (JR Studios), Beto Perocini (Perocini Filmes), Wagner Dalboni (Deus Ex-Machina) e dos atores – todos profissionais – em realizar algo grande, inédito e, principalmente, sem recursos. Todos se doaram muito para o resultado final. Além disso, os infernautas devem apreciar o filme lembrando sempre que a base é uma história real, próxima a todos nós e que é uma iniciativa inédita e ousada no cinema brasileiro: longa de terror nacional baseado em fatos reais, sobre exorcismos, produzido de maneira independente. Ah, e claro, recomendo fortemente que todos leiam o livro. Foram anos de pesquisa que se tornaram um livro bem profundo e assustador, chegando a ficar algumas semanas no primeiro lugar de terror nacional da Saraiva.

Boca do Inferno: Você, como co-autor do livro e do roteiro do filme, tem outras obras escritas além de Diário de Um Exorcista. Pode nos contar um pouco sobre elas?

Luciano Milici: Eu escrevo desde os seis anos, quando concluí meu primeiro conto. Dediquei, porém, minha vida a uma carreira de executivo de marketing e comércio eletrônico. A partir de 2010, por conta de uma perda familiar, passei a me dedicar mais aos livros. Tenho as seguintes obras:

– O livro que roubava meninas (Amazon, 2016): Um professor de Educação Física averso a livros que acidentalmente descobre uma conspiração silenciosa de desaparecimento e morte de jovens adolescentes. Os livros são as conexões, as ferramentas de sedução, afinal, quantas meninas são roubadas por livros hoje em dia?

Lentamente, o professor Corso Peres mergulha em um mundo secreto povoado pelos Bibliólatras – adoradores de livros – que ajudam a trafegar os livros-isca entre as escolas e as meninas. As vítimas, aos poucos, tornam-se zumbis sem vontade, completamente entregues às obras românticas deixadas estrategicamente para elas. Onde vão as desaparecidas? O que fazem? Há um líder nessa operação profana de desaparecimento, escravidão e morte? Como vencê-los?

– Contos de 1,99 pela Amazon: As estações do amor e da morte; Aquele ateu; Se lhe interessar, vá buscar; O ônibus da meia-noite; Atrás da pesada porta sem maçaneta.

 – Diário de um exorcista (Generale, 2013): Desde muito jovem, Lucas é atormentado por inimigos sobrenaturais cruéis e impiedosos. Quando uma tragédia familiar inexplicável abala sua família, o menino desperta para a mais importante e desafiadora missão que um ser humano pode enfrentar: uma luta sem fim contra o inimigo maior do homem e de Deus: o próprio Diabo. Passada nas décadas de 1950 e 1960, a história (baseada em fatos reais) do padre Lucas Vidal – um dos maiores exorcistas da América Latina – é contada em seus mais aterrorizantes e inacreditáveis detalhes. Do rigoroso e pouco ortodoxo treinamento às mais difíceis batalhas contra demônios, possessos e outras entidades sobrenaturais, a trajetória de Lucas e dos irmãos Biaggio contra seres profanos aterroriza o mais cético dos leitores que vai perceber, aos poucos, que além de as criaturas das trevas ganharem mais força a cada ataque, as mais perigosas têm um objetivo único: destruir os padres exorcistas.

– A página perdida de Camões (Generale, 2012): O jovem pesquisador, mestre em enigmas e fã de literatura, Santiago Porto, recebe de uma misteriosa e bela mulher a missão de desvendar a história real do poeta Luis Vaz de Camões e encontrar o seu maior segredo: a página perdida, um fragmento inédito de ‘Os Lusíadas’ procurado por seitas e homens perigosos desde a publicação da epopéia há 440 anos.
Diário de um Exorcista (2016) (4)– Amor de Sangue (Clube de Autores, 2010): Esse livro é muito especial. Ele é um pedaço da minha obra A canção do vampiro, que será lançado em breve. O rapaz só queria fugir de São Paulo e das recentes confusões de Carnaval. Mas aquela viagem, no último ônibus da madrugada, tinha apenas um destino: o sobrenatural. Após um bizarro acidente de estrada, Germano é internado em uma clínica na serra. Lá, conhece o estranho padre cego Bórgio Staverve e a Ala dos Perpétuos. Um local cujos residentes são sobreviventes de acidentes misteriosos com histórias tão assustadoras quanto os piores pesadelos. O que você faria se encontrasse sua alma gêmea e um horror indescritível em uma mesma noite? E se a perdesse? Iria atrás dela mesmo sabendo que isso significaria cruzar com procissões de mortos, demônios, criaturas míticas rumo a uma cidade amaldiçoada?

Ah, também lancei um Supertrunfo de Serial Killers. Foi um lançamento independente, mas que causou grande furor na época.

E não posso esquecer do orgulho que tenho de ter participado dos momentos iniciais do Boca do Inferno. Hoje sou só um grande fã.

Quem quiser saber como ter acesso às minhas obras pode acessar meu site: www.lucianomilici.com.

Boca do Inferno: Quais são as suas referências no gênero fantástico?

Luciano Milici: Não só no gênero fantástico, mas, em geral, tenho como referência literária: Umberto Eco, Jorge Luis Borges, Ray Bradbury, Edgar Allan Poe, HP Lovecraft, Machado de Assis, Chuck Palahniuk, Stephen King, Joe Hill, entre outros.
No cinema, gosto de muitos diretores e roteiristas, mas sem me prender ao trabalho exclusivo de um número muito reduzido. Consumo muito filme do gênero fantástico. Aprecio filmes de horror psicológico e clima denso. Não sou apaixonado por slashers, mas cultuo alguns, sim. Também gosto muito de quadrinhos.

Boca do Inferno: Além da franquia Diário de Um Exorcista, quais são seus projetos futuros? Mais livros, adaptações? Mais parcerias com Renato Siqueira?

Luciano Milici: Na literatura tenho muitos livros acabados e outros por terminar, além de contos esparsos. Vou publicá-los na medida do possível, às vezes de graça, às vezes por editora, dependendo da demanda. Eu, Beto Perocini e Renato Siqueira faremos muita coisa ainda para cinema e, se tudo continuar dando certo, para a TV. Temos uma dúzia de projetos de séries e filmes para serem discutidos. Com certeza, trabalharemos juntos por um bom tempo. Há grande afinidade entre nós três, grande respeito pelas opiniões e a criatividade rola solta.

Boca do Inferno: Deixe um recado para os Infernautas que prestigiam o Boca do Inferno!
Diário de um Exorcista (2016)

Luciano Milici: Aos infernautas desse que é, para mim, o maior site de conteúdo de horror da América Latina, debutante e com um grande caminho ainda por vir, deixo os seguintes recados:
a. Em julho de 2016 darei um curso em São Paulo chamado “Da ideia ao livro, do livro às telas – O caminho das pedras” que vai ensinar desde como conceber as ideias, até a mantê-las, cultivá-las, transformá-las em um livro, registrar o livro, abordar as editoras, fazer o marketing da obra, adaptação para roteiro, registro de argumento e de roteiro, além de como chegar às telas. No curso, trabalharemos a ideia prática do aluno com muito embasamento e exercícios. Os infernautas terão 10% de desconto se enviarem um email solicitando informações (e se identificando como infernautas, claro) para luciano.milici@gmail.com .

b.  Vida longa ao horror e à fantasia: criem e compartilhem. Esse mercado ainda é muito tímido no Brasil e precisa de fãs e criadores para se desenvolver e ganhar o mundo.

c. Audaces fortuna iuvat (pesquisem).

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